Libra dança ao som de sondagens divergentes

A descida de May nas intenções de voto está a deixar a moeda britânica volátil. A hipótese de um parlamento fragmentado é o cenário mais temido.

Reuters

Esta quarta-feira foi sintomática dos tempos voláteis da libra esterlina. Uma sondagem da YouGov sugeriu a possibilidade de os Conservadores não obterem uma maioria absoluta nas eleições de 8 de junho, um resultado que significaria um hung parliament, ou seja um cenário no qual nenhum partido tem deputados suficientes para formar governo sem alianças.
Em reação, a moeda britânica caiu para 1,2767 dólares, o valor mais baixo  em seis semanas face ao dólar. A queda foi, no entanto, fugaz. Um inquérito da Panelbase divulgado ao fim da mesma manhã revelou um cenário mais positivo para o partido da primeira-ministra Theresa May – uma vantagem de 15 pontos percentuais nas intenções de voto face aos Trabalhistas. A libra inverteu a tendência e acabou a sessão a ganhar 0,14% para os 1,2890 dólares.

A sondagem da YouGov foi criticada por usar uma metodologia inovadora que incluiu projeções sobre o número de deputados que cada partido elegeria, algo que não é comum no complexo sistema eleitoral britânico.  O inquérito da Panelbase também foi alvo de contestação por demorar alguns dias entre as entrevistas e a publicação. A polémica que rodeia a fiabilidade das sondagens não é, no entanto, nova no Reino Unido, tendo começado com as surpresas nas eleições de 2015 e continuado no referendo à saída da União Europeia há quase um ano.

“Estamos a ver outra vez, como vimos com o Brexit, que há grandes divergências entre as sondagens no Reino Unido. Apesar disso, a tendência nos últimos dias é que os Trabalhistas estão inegavelmente a ganhar apoio e a encurtar a liderança dos Conservadores”, explicou o Credit Suisse numa nota de análise.

Quando May convocou eleições antecipadas o objetivo era aproveitar a larga vantagem dos Conservadores nas sondagens para aumentar a maioria parlamentar, que é atualmente de 17 deputados, e obter um mandato mais forte para as negociações do Brexit. Na altura do anúncio, a 18 de abril, os Conservadores tinham 46% das intenções de voto, uma vantagem de 21 pontos face aos 25% dos Trabalhistas de Jeremy Corbyn.

Mas o plano parece agora estar em risco com a diferença entre os dois partidos a diminuir. Entre os fatores que poderão estar a influenciar as sondagens está um recuo de May sobre um dos temas centrais do programa, com os Conservadores a proporem uma taxa polémica sobre os cuidados a idosos do sistema público. Corbyn foi ganhando popularidade durante a campanha, mas o atentado em Manchester veio acrescentar alguma imprevisibilidade às eleições, embora com um impacto menor do que esperado.

Com as sondagens a divergirem, a volatilidade da libra acentuou-se na semana passada e não parece próxima de abrandar, como referiu Steven Bell, economista-chefe da gestora de ativos BMO. “A libra deverá continuar a ser agredida pelas intenções de voto. Acreditamos que uma análise cuidadosa das sondagens sugere que os Conservadores vão vencer com uma maioria considerável e a libra esterlina vai subir como resultado, mas isto só se vai manifestar a 8 de junho”.
“Uma maioria forte dos Conservadores significa uma diferença de mais de 50 deputados e levaria a uma subida na libra. Se for uma maioria pequena vamos ver a moeda a enfraquecer, enquanto um parlamento sem maioria conduziria a libra a revisitar mínimos”, salientou Bell.

Já Enrique Diaz-Alvarez, diretor de risco da Ebury, uma empresa fintech especializada em pagamentos internacionais e gestão de câmbios, lembrou que o cenário mais provável continua a ser Theresa May a residir em 10 Downing Street, “o que deve apoiar a libra nas próximas semanas”, diz, acrescentando que a moeda “deve permanecer suportada mesmo no caso improvável de uma vitória trabalhista”.
Steven Bell recorda, no entanto, que as taxas de câmbio são conceitos relativos e que a libra é inevitalvelmente afetada por desenvolvimentos externos. Diaz-Alvarez sublinha dois desses eventos a curto prazo: a reunião do Banco Central Europeu no mesmo dia das eleições britânicas e ainda a decisão da Reserva Federal norte-americana sobre as taxas de juro, a 14 de junho.

Travagem económica
“O cenário menos favorável seria um em que nenhum partido conseguiria uma maioria clara pois isso tornaria mais difíceis as negociações do Brexit com a UE”, afirmou Diaz-Alvarez.
O futuro governativo do Reino Unido também vai influenciar os termos da saída da UE com May a defender um hard Brexit. Os Conservadores preferem não ter um acordo do que aceitar um que prejudique o Reino Unido, sendo que os principais desafios encontram-se no abandono do mercado único, que vai obrigar ao estabelecimento de novos acordos comerciais.
O voto em May poderá ser visto como uma carta branca para que o Reino Unido saia da união sem um acordo, se necessário. Apesar do discurso duro, May também já afirmou que as negociações não vão ser fáceis e vão implicar cedências de ambos os lados. Um mandato mais forte permitiria à primeira-ministra maior flexibilidade para o fazer.

“Do nosso ponto de vista, é por essa razão que as mercados reagiram positivamente ao anúncio das eleições antecipadas. A diferença menor nas sondagens está naturalmente a deixar os mercados nervosos”, explicam os analistas do Credit Suisse. “Dado que há neste momento cerca de 30 a 40 eurocéticos no partido Conservador (o que pode mudar depois das eleições), uma maioria com menos de 50 lugares de diferença seria vista como uma limitação à capacidade de May de oferecer cedências e conseguir um Brexit mais suave e eventualmente mais soft”.

O Credit Suisse considera que um governo Trabalhista, seja via uma vitória direta ou uma coligação, é um cenário improvável. Caso aconteça, implicaria uma alteração na estratégia britânica das negociações do Brexit com mais enfoque na manutenção dos benefícios do mercado único e do acordo aduaneiro. “Enquanto um governo Trabalhista poderia levar o Reino Unido a um Brexit mais soft, o resultado inesperado de um hung parliament ou uma vitória Trabalhista deixaria, provavelmente, os mercados muito nervosos”.

Apesar das diferentes abordagens de cada partido, Steven Bell, da BMO, diz estar “cético que alguém consiga assegurar um acordo favorável”, em parte devido à complexidade da questão, mas também porque “a Europa quer que o Reino Unido seja visto a sofrer como resultado do Brexit, para servir de exemplo a outros membros que queiram seguir o mesmo caminho”.
Por outro lado, o estrategista global da Allianz Global Investors, Neil Dwane, sublinha que o reforço do governo de May vai resultar em políticas mais previsíveis. Dwane refere que a economia britânica está a enfraquecer, com os últimos dados do PIB a indicarem um crescimento de 0,2% no primeiro trimestre face aos 0,7 dos três meses anteriores, com um abrandamento nas indústrias relacionadas com consumo, tal como o retalho e a habitação, a serem castigados por um desacelerar das despesas das famílias e do aumento da inflação.

“Isto poderá criar um dilema para o Banco de Inglaterra. Enquanto a certeza acrescida de uma vitória de Theresa May encorajaria o Banco de Inglaterra a antecipar uma subida das taxas de juro, poderá ser difícil para os consumidores lidarem com juros mais altos a curto prazo, afetando o sentimento dos consumidores”, afirma o estrategista.
O Credit Suisse explica que, no improvável caso de os Trabalhistas chegarem ao poder, o Reino Unido poderá rumar para uma política orçamental mais expansionista, com um aumento na despesa e no endividamento.

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