Liderança, estratégia, inteligência: o triângulo virtuoso da gestão

Em ambiente de mudança, a estratégia tem de funcionar não como um quadro rígido da ação da empresa mas como instrumento de navegação que ficciona um “horizonte” pretendido.

Nada há de mais simples e simultaneamente mais complexo do que tomar uma decisão. O ato de decidir é, em si, simples, complexo é o processo de liderança que visa a tomada da decisão de maneira informada ou conhecedora, planeada e sistemática.

É sempre possível tomar uma decisão acertada de forma aleatória ou baseada no conhecimento empírico do decisor, mas é impossível tomar decisões acertadas e consequentes, de forma regular e sistemática, se o processo de decisão não for organizado de modo a reduzir a imponderabilidade, a subjetividade e a tendência para a inércia do mesmo.

Para um processo de tomada de decisão eficaz concorrem vários fatores que funcionam de forma interativa e que é um pressuposto fundamental na medida em que todos se influenciam mutuamente. O conhecimento ou inteligência influencia a definição da estratégia, esta enquadra a atuação de uma empresa, orienta o exercício da liderança e define os princípios de adaptação da empresa à estratégia a seguir mas, pode ser alterada, com base em informações supervenientes.

A liderança, nomeadamente o processo de tomada de decisão, assume particular acuidade em momentos de incerteza, de acelerada mudança, no ambiente em que funcionam as empresas e, se há atualmente caraterísticas que, de forma paradoxal, são permanentes nos mercados, essas são a incerteza e a constante e acelerada mudança.

Esta situação coloca enormes desafios às empresas e às respetivas lideranças, pelo que a capacidade de tomar decisões conhecedoras, obedecendo a uma estratégia testada em permanência pelo conhecimento da envolvente, num adequado espaço de tempo, constitui uma vantagem competitiva que é condição sine qua non para o sucesso.

A ideia fundamental, adaptando o pensamento de John Boyd, um dos maiores estrategas do século XX, é a de que quanto mais depressa um decisor conseguir recolher a informação necessária, delinear a sua linha de ação, tática, situacional ou estratégica, e agir em conformidade, mais eficaz será, pois não só age corretamente e decididamente, numa lógica de “first mover advantage”, como, ao fazê-lo, reduz a margem de ação da concorrência, antecipando os seus movimentos e ações e obrigando-a a reagir em vez de agir.

Quanto maior for o nível de conhecimento da empresa, e por maioria de razão do decisor, por contraponto à necessidade imediatista de aquisição de informação de que não disponha, maior é a capacidade de reação da mesma e mais rápido e eficaz poderá ser o processo de decisão.

Presume-se que o conhecimento sobre uma determinada situação de incerteza ou de equivocidade nunca seja completo e será quase sempre marcado pelas limitações cognitivas do decisor que, ao tomar determinada decisão, a decisão possível, qualquer que ela seja, mas num tempo mais rápido, terá sempre a vantagem da antecipação e do condicionamento da concorrência mas terá de permanentemente testar a sua própria decisão.

Este modelo ganha importância acrescida porque, numa perspetiva de existência de uma envolvente da empresa em constante mudança ou em mudança acelerada, a estratégia perde influência. O tempo da mudança é normalmente divergente, porque mais rápido, do tempo do planeamento estratégico.

Contudo, tal não significa que a definição da estratégia deixe de fazer sentido para as empresas. A estratégia, bem como o planeamento que lhe é inerente, são fundamentais tendo, no entanto, de ser perspetivados de forma muito diferente. Em ambiente de mudança, tem de funcionar não como um quadro rígido da ação da empresa mas como instrumento de navegação que ficciona um “horizonte” pretendido.

Essa linha de horizonte tem de ser avaliada, testada e se necessário revista, de forma contínua, com base na atividade de gestão do conhecimento no seu conceito mais alargado e na ação da liderança da empresa. Quanto mais conhecedora, quanto melhor forem os mecanismos de recolha de informação e de análise, quanto mais rápida for a adaptar o seu planeamento estratégico e a decidir em conformidade, maior será a sua vantagem competitiva relativamente à concorrência.

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