Líderes em defesa da democracia após Bolsonaro fazer de bicentenário um ‘comício’

O mais vocal e assertivo foi o presidente da comissão do bicentenário do Senado brasileiro, Randolfe Rodrigues, que em julho, em declarações à Lusa, já tinha pedido desculpas ao povo português devido ao comportamento de “moleque mimado” de Jair Bolsonaro ao ter cancelado o encontro com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

A sessão solene do bicentenário da independência do Brasil, no Congresso, ficou marcada pelos discursos de líderes brasileiros em defesa da democracia depois do Presidente brasileiro, que faltou à sessão, ter feito do 07 de setembro um comício eleitoral.

O mais vocal e assertivo foi o presidente da comissão do bicentenário do Senado brasileiro, Randolfe Rodrigues, que em julho, em declarações à Lusa, já tinha pedido desculpas ao povo português devido ao comportamento de “moleque mimado” de Jair Bolsonaro ao ter cancelado o encontro com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Hoje, o também líder da oposição no senado e um dos coordenadores da campanha de Lula da Silva à presidência voltou a pedir desculpas: “Peço desculpas aos chefes de Estado estrangeiros e às missões diplomáticas pela ausência e não encaminhamento de nenhuma mensagem da parte do atual magistrado do Estado da Nação”.

A informação de que o Presidente brasileiro tinha cancelado a sua presença na sessão solene do Congresso brasileiro para celebrar os 200 anos da independência do Brasil, sem apresentar justificação, aconteceu a pouco menos de 20 minutos de a cerimónia oficial começar.

Um cancelamento que surge um dia depois de o Presidente brasileiro ter participado em Brasília e no Rio de Janeiro nas maiores cerimónias, desfiles e manifestações do bicentenário da independência, que foram acusadas de se terem transformado num comício político, a menos de um mês das eleições presidenciais, e que foram alvo de várias críticas por grande parte dos quadrantes políticos.

“Os símbolos que nos unem, a nossa bandeira, os nossos hinos, não pertencem a uma parte, a uma fação, a um partido. Eles pertencem a esta história, a todos os brasileiros, a estes 200 anos. A celebração do 07 de setembro é de todos”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues, lembrando ainda a presença, na sessão, por parte dos ex-presidentes brasileiros José Sarney, Fernando Collor e Michel Temer, e das mensagens enviadas por parte dos também ex-presidentes Dilma Rousseff e Lula da Silva.

Por outro lado, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que dirigiu a sessão solene, recordou que o país vai a votos dentro de menos de um mês, sendo “o amplo direito de voto a arma mais importante em uma democracia, não pode ser exercido com desrespeito, em meio ao discurso de ódio, com violência ou intolerância”.

Uma ideia partilhada também pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que apelou no seu discurso ao “voto consciente” de forma a fortalecer a democracia e o parlamento brasileiro, “de modo que ele continue a exercer a importante tarefa de acolher diferentes aspirações e transformá-las em balizas coletivas”.

Por fim, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, Luiz Fux, deixou também recados ao Presidente brasileiro, que tem atacado constantemente os poderes judiciários, e apelou à separação de poderes no país.

“Um Brasil independente pressupõe uma magistratura independente e um regime político em que todos os cidadãos gozem de igualdade de chances, usufruam de todas as liberdades constitucionais e os poderes se restrinjam ao seu exercício, em nome do povo e para o povo brasileiro”, declarou Luiz Fux.

Para além dos chefes de Estado de Portugal, Cabo Verde e Guiné-Bissau, marcaram também presença na sessão solene comemorativa dos 200 anos da independência no Congresso em Brasília, os ex-presidentes do Brasil José Sarney e Michel Temer, o procurador-geral da República do Brasil, Augusto Aras, e o secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Zacarias da Costa, o presidente da câmara municipal de Coimbra, José Manuel Silva, representantes diplomáticos de países da CPLP e dezenas de representações estrangeiras no Brasil.

Várias personalidades brasileiras, entra as quais os candidatos Lula da Silva e Ciro Gomes já vieram a público criticar o aproveitamento político que o chefe de Estado do Brasil fez do dia do bicentenário da independência.

“Enquanto Presidente da República tive a oportunidade, em 2006 e em 2010, em época eleitoral e em nenhum momento a gente utilizou o dia da pátria, o dia do povo brasileiro, o dia maior do nosso país por conta da independência como instrumento de política eleitoral”, afirmou o candidato Lula da Silva, líder em todas as sondagens, num vídeo publicado na quarta-feira.

O também candidato às eleições presidenciais brasileiras Ciro Gomes tinha criticado o chefe de Estado.

“Bolsonaro transformou o 07 de setembro dos 200 anos da independência no mais desavergonhado comício eleitoral já feito neste país”, escreveu na rede social Twitter o terceiro classificado nas sondagens (9%) para as eleições de 02 de outubro.

Recomendadas

Alterações climáticas. Terra aproxima-se do ‘ponto sem retorno’, diz primatologista Jane Goodall

“Sabemos o que devemos fazer. Quero dizer, temos as ferramentas. Mas deparamo-nos com o pensamento de curto prazo de ganho económico versus a proteção de longo prazo do meio ambiente para assegurar um futuro”, indicou a cientista que ficou conhecida pelo seu estudo pioneiro de seis décadas sobre chimpanzés na Tanzânia.

Ucrânia. UE considera “ilegais” referendos de anexação organizados por Moscovo

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, disse hoje que os “referendos” de anexação organizados por Moscovo nas regiões ucranianas foram “ilegais” e os resultados “manipulados”.

Ucrânia. Maduro acusa EUA e Europa de “suicídio económico” para punir a Rússia (com áudio)

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusou hoje os Estados Unidos e a Europa de optarem pelo “suicídio económico” com o propósito de punir Moscovo pela invasão da Ucrânia.
Comentários