Linda de morrer, literalmente?

O que leva uma mulher a colocar a vida em risco, só porque acha que ficará mais bonita? Andressa Urach, vice-Miss Bumbum 2012 – conhecida por garantir ter tido um caso com Cristiano Ronaldo – está há vários dias internada, em estado grave. Motivo? Uma infeção generalizada após uma aplicação de hidrogel nas coxas (produto […]

O que leva uma mulher a colocar a vida em risco, só porque acha que ficará mais bonita?
Andressa Urach, vice-Miss Bumbum 2012 – conhecida por garantir ter tido um caso com Cristiano Ronaldo – está há vários dias internada, em estado grave. Motivo? Uma infeção generalizada após uma aplicação de hidrogel nas coxas (produto usado para aumentar o tamanho das ditas), que correu terrivelmente mal.
Tudo começou com a vontade de ter pernas mais volumosas e torneadas, há cinco anos. A aplicação da substância começou a trazer-lhe problemas há alguns meses, quando teve uma infeção e foi internada para retirar parte do produto. Agora, corre risco de amputação da perna, ou pior, de vida.
Andressa recebeu 400 ml de líquido preenchedor em cada coxa. A recomendação dos especialistas é de 2ml. “Utilizar 400ml é a mesma coisa que implantar uma bomba-relógio”, diz um cirurgião plástico.
Honestamente, se fosse o primeiro caso do género, estaria absolutamente boquiaberta, mas é apenas mais um, infelizmente.
Aliás, nos tribunais brasileiros está em curso o julgamento de uma falsa biomédica, de apenas 27 anos, que fazia procedimentos estéticos sem estar qualificada para isso. A sua falta de conhecimentos na área terá, inclusivamente, levado à morte uma mulher de 39 anos, que escolheu a “médica” como especialista em aplicação de hidrogel.
Com tantos casos noticiados pela imprensa, pasmo-me com a capacidade do ser humano de ignorar o óbvio. Porque será que tudo acontece aos outros, mas nunca a nós?
O concurso de Miss Bumbum é uma luta desmedida pelo maior par de glúteos. Com o caso de Andressa, algumas concorrentes admitiram ter abusado de procedimentos estéticos e serem “escravas da beleza”. O tom é quase de autoelogio. Será que elas sabem o que foi a escravidão?
A ditadura da beleza é uma linha transversal à sociedade. Nada de novo. Mas brincar à roleta russa, por estética, parece-me abusivo.
Sou mulher e vaidosa, mas existem limites. Se algumas pessoas começassem a morrer por comer saladas ou por ir ao ginásio, eu deixaria (de bom grado) a minha vida saudável, em nome dos meus queridos batimentos cardíacos. Mesmo que isso implicasse ficar menos em forma do que gostaria, paciência.
As mulheres precisaram de séculos para superarem os paradigmas da sociedade machista. Ganharam voz, o direito de votar, lugares de topo em grandes empresas, cargos públicos. Hoje, vivem na busca incessante pela perfeição, que acreditam ser uma liberdade delas. Elas querem ser perfeitas. Mas perfeitas para quem? Perfeitas para que padrão? Infelizmente, receio que estas mulheres estejam apenas a ser manipuladas pelo consumismo.
A procura da beleza é inerente ao ser humano. Igualmente verdade é que o ser humano está eternamente insatisfeito. A combinação pode ser perigosa.
Não deveria, mas surpreendo-me, com o caso da Andressa Urach. Não bastaram as próteses de silicone, as plásticas, as lipoaspirações e outros procedimentos mais comuns e consolidados, do ponto de vista da medicina. Não. Foi necessário aventurar-se numa prática absolutamente duvidosa e arriscada, que já deformou e matou dezenas. E para quê? Para ter mais uns míseros centímetros de circunferência de coxa? Lamentável.
Permitam-me estender o meu desabafo. Mas como podem mulheres adultas, com acesso a informação, correr o risco de morrer para serem chamadas de “gostosas” por mais dois ou três homens na rua?
Vale a pena ser linda de morrer, literalmente?

Juliana Pereira Martins
Jornalista
Correspondente no Brasil

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