Lisboa tem um novo epicentro das artes

Chama-se Espaço da Penha, situa-se na mais alta das sete colinas de Lisboa, e é o mais recente centro artístico de pesquisa, criação, formação e investigação ligado às artes performativas.   Se não revelássemos os nomes próprios desta história, quase poderíamos estar a falar de uma vulgar situação de duas amigas que, por uma questão […]

Chama-se Espaço da Penha, situa-se na mais alta das sete colinas de Lisboa, e é o mais recente centro artístico de pesquisa, criação, formação e investigação ligado às artes performativas.

 

Se não revelássemos os nomes próprios desta história, quase poderíamos estar a falar de uma vulgar situação de duas amigas que, por uma questão de contenção de custos típica da atual conjuntura económica, tiveram de optar por uma solução mais em conta de casa partilhada. Deixando para trás um espaço de 600 metros quadrados (m2) na LX Factory, em Alcântara, encontraram a morada (quase) perfeita no n.º 26b da Travessa do Calado, junto às piscinas e à Junta de Freguesia da Penha de França, em Lisboa. Quase perfeita, porque não só o preço era convidativo como as características do espaço correspondiam ao que procuravam: estúdios amplos e sem pilares pelo meio. Mas os 1200m2 da casa superavam a área expectável para duas pessoas habitarem. A verdade é que quando nos apaixonamos por uma casa dificilmente a largamos. A solução encontrada foi estender a partilha a mais amigos ou, neste caso, mais associados. E assim nasceu oficialmente, a 31 de outubro de 2014, o Espaço da Penha. Ficam apenas por conhecer os “rostos” dos protagonistas desta história. As referidas amigas estão ligadas à dança contemporânea e a outras artes performativas que, desde 2008, dividem espaço e unem sinergias – O Rumo do Fumo e o Fórum Dança. A primeira é uma estrutura de criação, produção, difusão e programação na área da dança contemporânea, fundada em 1999 por Vera Mantero. Atualmente produz, além do trabalho da coreógrafa fundadora, os trabalhos de Miguel Pereira, Francisca Santos, entre outros bailarinos. O Fórum Dança é uma associação mais antiga, que começou a sua atividade em 1990 e teve na fundação nomes de peso da cultura portuguesa como Madalena Vitorino, Gil Mendo, Miguel Abreu e até a atual vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, Catarina Vaz Pinto. Já foi uma estrutura mais vocacionada para a produção de artistas, mas atualmente dedica-se especialmente à formação para intérpretes e coreógrafos de dança contemporânea, bem como à gestão de projetos artísticos; leciona cursos de dança, de gestão e produção, seminários e workshops no âmbito dos cursos; tem um centro de documentação e um programa de residências artísticas. Além das evidentes semelhanças de atividade, ambas contam com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, através da Direção-Geral das Artes.
Se o adágio popular “há males que vêm por bem” tem razão de existir, este é um dos casos em que a sua aplicabilidade pode fazer sentido. Na origem da história do Espaço da Penha está um corte de 50% nos apoios pecuniários concedidos ao Fórum Dança e à associação O Rumo do Fumo. A primeira viu os 114 mil euros anuais reduzidos a 52 mil euros e a segunda deixou de se governar com 130 mil euros e teve de aprender a fazê-lo com 60 mil. Os apoios minguaram, mas o espaço de trabalho medrou – pelo mesmo valor da renda das antigas instalações, têm agora o dobro da área e coabitam com mais estruturas criativas, como o Teatro do Vestido. No total, são cinco estúdios com cerca de 100m2 cada. O Fórum Dança possui dois estúdios; as associações O Rumo do Fumo e o Teatro do Vestido ocupam um estúdio cada uma. Além destes, existe ainda um sexto estúdio que, de momento, está disponível para alugar. Mas tantos metros quadrados não se esgotam apenas com três entidades. A associação cultural da CasaBranca, dos artistas Ana Borralho e João Galante, os encenadores Raquel Castro e Gonçalo Amorim e o fotógrafo João Tuna também têm domicílio nesta grande família, mas em formatos mais pequenos que os estúdios. O mesmo se passa com a investigadora Ana Maria Bigotte Vieira, que desenvolve o seu trabalho em torno de estudos da performance, o que “é interessante, porque é uma figura diferente, não é uma produtora nem artista”, explica Vera Mantero. E “o que começou por ser uma medida de economia de escala, com a vivência conjunta de tanta criatividade, acaba por gerar projetos intercruzados muito interessantes”, acrescenta. Esta vontade de desenvolver sinergias já deu os primeiros frutos na inauguração oficial do espaço, que decorreu a passada sexta-feira, e na qual todas as estruturas se articularam para apresentar uma programação conjunta e pluridisciplinar. Para Vera Mantero, este foi o momento zero do Espaço da Penha. “As estruturas já se encontravam no espaço desde o final de março, início de abril, mas este precisava de começar a ser vivido, era preciso concertar uma série de coisas e dar-lhe um pouco de vida”.
A população do bairro é um dos públicos que o Espaço da Penha quer captar para dentro das quatro paredes. “É um bairro residencial, um pouco envelhecido e, ao mesmo tempo, com muita falta de atividade cultural”, explica Dora Carvalho, gestora e diretora pedagógica do Fórum Dança. Apesar de ainda não existirem parcerias firmadas com a Junta de Freguesia da Penha de França, “estamos a duas portas da biblioteca, que se localiza no mesmo edifício da Junta. Se a biblioteca se mantivesse seria um polo cultural-desportivo fantástico que reunia uma piscina, uma biblioteca e um espaço de trabalho de várias companhias de teatro, de dança e de música, seria maravilhoso”, conclui Vera Mantero.
Só o tempo e o dinamismo do Espaço da Penha vão ditar se ali se firmará um ativo centro de pesquisa artística na capital lisboeta, que tem vindo a ser cada vez mais uma tendência.

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