Literacia financeira: o caminho necessário para a poupança

Em tempos de pandemia, é determinante que a literacia financeira continue no topo das prioridades de todos, pois uma melhor literacia financeira permitirá uma melhor alocação da poupança.

O 2.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, promovido pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, diagnosticou um conjunto de lacunas aos conhecimentos financeiros dos portugueses. Por exemplo, 82% dos inquiridos identificam corretamente o saldo de uma conta de depósito à ordem num extrato, mas só 21,4% sabem o que é o spread e apenas 10,5% o que é a Euribor.

A literacia é uma batalha de todos aqueles que trabalham na indústria financeira e tem sido alvo de esforços conjuntos. Mas, numa altura em que a poupança volta a aumentar, fruto do contexto de incerteza e de confinamento trazido pela Covid-19, é determinante que a literacia financeira continue no topo das prioridades de todos, pois uma melhor literacia financeira permitirá uma melhor alocação da poupança.

Este tema reveste-se de maior importância se considerarmos os números recentes do Eurostat que revelam que a taxa de poupança em Portugal disparou mais de 10% entre abril e junho deste ano, naquela que foi a terceira maior subida na União Europeia neste período em que o consumo sofreu uma queda expressiva. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), no segundo trimestre deste ano, as famílias pouparam mais de um quinto do seu rendimento disponível (22,6%), a taxa mais elevada desde pelo menos 1999.

Para poupar e aplicar esta poupança é fundamental conhecer alguns dos principais termos financeiros e económicos e definir uma estratégia de poupança em consonância com os objetivos estabelecidos. Os especialistas recomendam, em primeiro lugar, a criação de um fundo de emergência que deverá corresponder a seis meses do rendimento mensal familiar.

Relativamente à restante poupança deverá ser dividida em dois blocos: um bloco que corresponde ao dinheiro que o aforrador poderá necessitar nos próximos cinco anos e que deverá ser gerido de forma conservadora, tipicamente aplicado em depósitos a prazo e aplicações de capital garantido; num segundo bloco, cujo horizonte temporal já poderá andar mais próximo dos 10 anos, podemos assumir algum risco, mas este deverá ser sempre o resultante dos questionários de perfil de investidor que as instituições financeiras disponibilizam.

Nesta componente, em que poderemos aceitar algum risco, como forma de otimização do retorno, é fundamental que a estratégia de investimento cumpra com os princípios da diversificação no sentido de se ter um portefólio de investimento robusto e bem diversificado.

Neste âmbito, alternativas como fundos multi-ativos são uma excelente alternativa de investimento, pois englobam em si mesmos, além do respeito pelo princípio da diversificação, a capacidade de investir quer no mercado obrigacionista, quer no mercado acionista, beneficiando ao longo do tempo de uma gestão ativa e profissional da parte do gestor do fundo.

Apenas uma correta alocação da poupança a pensar nas dimensões da diversificação e da definição de horizontes temporais vai servir melhor os nossos interesses. Há ainda diversos fatores a considerar, como o atual cenário de taxas de juro em níveis historicamente reduzidos, o risco de deflação e o impacto futuro dos estímulos que estão a ser preparados a nível europeu.

O setor financeiro tem estado alinhado com o regulador para contribuir para um incremento da literacia financeira. A Associação Portuguesa de Bancos (APB) promove anualmente a semana mundial do investidor e, no Abanca, temos usado alguns dos nossos canais para contribuir para a melhoria da literacia financeira de todos aqueles que nos seguem. Por exemplo, nas redes sociais, as publicações “Abanca de A a Z” pretendem simplificar os termos financeiros relacionados com investimento, crédito à habitação ou outros termos relevantes do setor bancário.

Também nas redes sociais, e durante os meses de verão, explorámos as megatendências dos mercados com posts sobre saúde, ESG, tecnologia, inteligência artificial, biotecnologia e a forma como impactam os mercados financeiros, ajudando a compreender as mudanças em curso e, desta forma, a investir melhor.

Adicionalmente, a utilização cada vez mais frequente de canais digitais, num momento em que as relações à distância são a regra e não a exceção, também requer mais e melhores conhecimentos financeiros. Boas escolhas são ponderadas e informadas. E este é um caminho que todos devemos fazer juntos.

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