Livro: “A vida no campo”

Ao ler este livro, que nos fala de um regresso às origens e dos anos de maturidade, apetece perguntar como se conjuga “cosmopolitanizar”. Dirão que o verbo não existe. Dizemos que é ter mundividência colada à pele.

 

Se excetuarmos a época das férias, a maior parte dos habitantes das cidades raramente abandona o seu meio urbano, deixando para trás certo um estilo de vida. Se, por um lado, em termos de vida profissional, a cidade pode apresentar mais oportunidades por ter um ambiente mais dinâmico e, até, mais estimulante, por outro lado, a vida no campo tem óbvios benefícios para a saúde física e mental, sendo mais condizente com uma vida menos atribulada e mais saudável.

Este livro tem a ver com uma dessas mudanças extremas, que envolve coragem, desprendimento e, eventualmente no início, algum espírito de sacrifício aos olhos dos urbanitas mais ferozes.

Ao fim de 20 anos em Lisboa, o escritor Joel Neto – na companhia da mulher, a tradutora Catarina Ferreira de Almeida – decidiu regressar às suas origens, no lugar dos Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira, com o objetivo de ali ficar por alguns anos, em busca do ambiente que necessitava para a produção de um romance.

Vencido o prazo de regresso à grande cidade, as opções eram encontrar maneira de parar o tempo ou assumir de uma vez por todas que era ali que queria viver em definitivo. Com a família canina formada, jardim e horta bem-cuidados, paisagem estonteante e vizinhos amáveis à volta, Joel e Catarina sorriem agora com melancolia e leveza ao pensar em quão serenos serão os anos da maturidade no campo.

Um pão com bolor e um frasco de sabonete, flores que despontam num descampado ou uma árvore que há séculos espera quem escute a sua história – nada passa despercebido ao olhar atento do escritor, para quem o segredo da vida está nas coisas simples: coelhos saltitando no jardim, a banda filarmónica ao longe, um pé de tomate-de-capucho.

E também nas pessoas, evidentemente. Em Maria de Fátima, que fazia um pão de milho como já não haverá outro. Em Roberto, o motorista da urbana que não arranca enquanto uma criança não for buscar o casaco. Em Filomena, que atravessava a freguesia com a elegância de um flamingo. Em Emanuel, o carteiro que cita Jorge Luis Borges. E no Chico, e no Galão, e no Dimas, e no Manuel da Lenha, e no Rúben, e em toda a infinita galeria de gentes e histórias humanas que desfilam em “A Vida no Campo, volume II. Os anos da maturidade”, editado pela Cultura.

O cosmopolitanismo é isto (ou devia ser): conhecer um bom restaurante em Londres e a melhor tasca numa aldeia piscatória dos Açores; ter visto um Matisse no Hermitage, em São Petersburgo, e uma baleia ao largo da ilha do Pico; ou as flores gigantes da Indonésia assim como as Não-me-esqueças (Myosotis azorica), uma das plantas mais raras do mundo que apenas pode ser encontrada nas ilhas das Flores e do Corvo (e que se temeu que pudesse estar extinta).

Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante, que regressa em janeiro. A todos os leitores, votos de Festas Felizes!

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