Livro: “Afropeu. A diáspora negra na Europa”

Da Amadora a Estocolmo, o inglês Johny Pitts, oferece ao leitor uma espécie de mapa alternativo com locais do Velho Continente onde os europeus de ascendência africana se constroem novas identidades e idiossincrasias.

Em 1991, David Byrne e a belga Marie Daulne cunharam o termo “afropeu”. Desde então, este conceito do músico norte-americano, nascido na Escócia, fundador da banda Talking Heads, e da vocalista dos Zapa Mama, nascida na República Democrática do Congo (então, Zaire), tem sido apropriado por muita gente, incluindo artistas, fotógrafos e escritores. O autor deste livro, Johny Pitts, é um deles.

 

 

Tal como acontece com tantos outros países europeus, a história de Portugal não pode ser narrada sem referir África, havendo hoje europeus afrodescendentes de múltiplas gerações. Muitos, originários de outros continentes, produto de uma teia de interrelações que transforma um velho mundo numa miríade de identidades, enriquecendo-o de pluralidades e impedindo, assim, que se torne um mundo velho.

“Afropeu. A diáspora negra na Europa” é uma viagem pelos locais do Velho Continente onde os europeus de ascendência africana jogam com obediências múltiplas e constroem novas identidades. Como refere Amin Maalouf em “Identidades Assassinas”, logo a abrir este livro, “eles vivem numa espécie de zona fronteiriça cruzada por linhas de falhas étnicas, religiosas e outras”. Desta forma, novas geografias se delineiam, frequentemente invisíveis para a restante população, mas igualmente constitutivas da identidade europeia.

É assim que podemos ouvir Reggae alemão, fazer compras em mercados argelinos em cidades francesas, comer cachupa no centro de Lisboa ou visitar edifícios que foram outrora muçulmanos e estão hoje convertidos a outros usos (como a Igreja Matriz em Mértola, onde é possível reconhecer os traços do que um dia foi uma mesquita; o Alhambra, célebre palácio de Granada ou uma igreja católica no centro de Pécs, na Hungria, antes conhecida como a mesquita de Paxá Qasim).

Dessa viagem do inglês Johny Pitts resulta um mapa alternativo, que nos leva da Cova da Moura – bairro da Amadora, nascido nos anos 1970, de génese cabo-verdiana – a Rinkeby, uma zona de Estocolmo onde oitenta por cento da população é muçulmana. Em Moscovo, Paris ou Amesterdão, sejam quais forem as coordenadas, aqui os afropeus são os protagonistas da sua própria história.

Johny Pitts, nascido em Sheffield, de mãe europeia e pai afroamericano, é escritor, fotógrafo e jornalista. Trabalhou em televisão como escritor e apresentador. Recebeu diversos prémios pela sua investigação da identidade afro-europeia, entre os quais o Decibel Penguin Prize e o ENAR (European Network Agains Racism) Award.

Coordena o jornal online Afropean.com, que pertence ao Guardian’s Africa Network, e colaborou com o escritor Caryl Philips num ensaio fotográfico sobre as comunidades imigrantes de Londres para a BBC e o Arts Council do Reino Unido. Editado pela Temas e Debates, o livro tem tradução de Bruno Vieira Amaral.

Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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