Livro: “Afrotopia”

A necessidade de reinvenção de um continente no século XXI pela pluma e olhar acutilante de Felwine Sarr, que nos deixa um apelo neste livro no sentido de pensar África como um mundo com outros trilhos a percorrer que não os traçados de antemão pela economia global.

Uma reportagem recente de um consórcio nacional de jornalistas trouxe para a luz do dia a existência de um número verdadeiramente assustador de elementos das forças de segurança portuguesas que não honram a farda, semeando o ódio, incentivando à violência e demonstrando um feroz racismo, quer contra cidadãos de etnia cigana, quer contra negros.

É comum no Ocidente olharmos para África como um todo homogéneo, mas o continente é de uma diversidade extraordinária. Seja por desconhecimento, por soberba ou por outra razão qualquer, a verdade é que o mundo só tem a ganhar com uma maior atenção ao que por lá se passa, ao que o pensamento africano tem a dizer, à mundivisão dos seus cidadãos, ao que os artistas se dedicam, etc…

 

 

“Afrotopia”, publicado agora pela Antígona, foi originalmente editado em França, em 2016. O livro de Felwine Sarr é um apelo convincente e uma reflexão importante sobre a necessidade de reinvenção e autodescoberta de um continente no século XXI: África, um mundo com outros trilhos a percorrer que não os traçados de antemão pela economia global.

Nele, o autor esboça o retrato de uma entidade continental e da sua diversidade e especificidades – dos valores e tradições das comunidades às vozes dos seus artistas e músicos, da configuração única das cidades a um rico universo mitológico –, revelando os contornos de uma africanidade contemporânea e incitando à valorização desta consciência coletiva. “Afrotopia” imagina o papel global de África, que o Ocidente teima em querer definir, contrapondo às seculares narrativas de conflito e subdesenvolvimento a histórica vitalidade do continente e um futuro nas mãos de quem o constrói.

Académico, músico e escritor, Felwine Sarr, nasceu em 1972 e cresceu entre Dacar e Estrasburgo. É doutorado em Economia e, desde 2007, professor na Universidade Gaston Berger, em Saint-Louis, no Senegal. Editor do “Journal on African Transformation”, organiza em Dacar, desde 2016, em parceria com o camaronês Achille Mbembe, os “Ateliers de la Pensée”, ponto de encontro e de debate entre académicos e artistas africanos, que visam a reflexão sobre transformações no mundo contemporâneo.

A sua investigação centra-se na política económica e na economia do desenvolvimento, e, mais recentemente, na questão da restituição do património cultural a países colonizados por nações europeias.

Eis a sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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