Livro: “O Odor da Índia”

Em 1961, Pier Paolo Pasolini visita a Índia. Não está só. Acompanha Alberto Moravia e a sua mulher, a também escritora Elsa Morante. Deixou-se arrebatar pelas emoções intensas que viveu neste país marcadamente sensorial e plasmou tudo neste diário de viagem.

O grupo editorial Saída de Emergência lançou, na sua chancela Desassossego, uma nova coleção de literatura de viagens, coordenada por António Araújo, que começa logo com um clássico do género, há muito esgotado em português: “O Odor da Índia”, de Pier Paolo Pasolini.

 

 

“Adeus, Deli. Com um doce peso de prazer dentro do corpo, prazer pela longa viagem que nos espera, partimos no fresquinho da alvorada, com o sol deslavado nos jardins, nos bungalows, nas grandes avenidas da cidade-ministério, da cidade-embaixada, da cidade-cocktail. (Pobre cidade, em que os aspectos ocidentais se desmoronam irremediavelmente na melancolia dos espaços tão imensos em que há sempre uma figueira-de-bengala desamparada, com as raízes ao vento, um cão, um miserável: a testemunhar a invencibilidade de uma miséria.)”

Foi em 1961 que Pasolini visitou a Índia pela primeira vez. Acompanhava Alberto Moravia e a sua mulher, a também escritora Elsa Morante (Moravia fará o seu próprio relato em “Uma Ideia da Índia”, publicado na Tinta da China, onde quase dá a sensação de ter viajado sozinho).

As emoções e sensações vividas são tão intensas que o levam a escrever este diário de viagem. Pasolini vagueia atentamente pela caótica realidade que encontra, uma Índia que é terna e bárbara, mágica e miserável, oprimida por tradições em declínio e, ainda assim, vibrante de cor e vida. Os templos de Benares, as noites de Bombaim, todo o encanto de uma terra fascinante e, ao mesmo tempo, o horror da existência que aí nos conduz são transmitidos com a originalidade de um dos maiores escritores italianos.

À semelhança de outros intelectuais italianos da segunda metade do século XX, nascidos no seio da burguesia, Pasolini abraça o marxismo para, depois, o rechaçar, devido à ortodoxia. Donde, as condições atrozes em que vive grande parte da população indiana, a pobreza, a falta de higiene, a questão das castas ou o misticismo não podiam deixar de escapar ao seu olhar crítico.

Pasolini sente-se penoso ao ver o que o rodeia. Provavelmente, terá visto nas consequências das políticas do então primeiro-ministro, Jawaharlal Nehru, e no peso dos rituais religiosos indianos, profundas semelhanças com o seu país natal, o catolicismo e o conservadorismo que este gerava no Estado e na sociedade italiana.

Figura que marcou profundamente a cultura italiana, Pasolini foi cineasta, escritor e poeta. A sua morte trágica, assassinado violentamente em Óstia, em 1975, parece ser um mistério por resolver em Itália, apesar de ter sido condenado um jovem, logo no ano seguinte.

Ler as suas obras, ou ver os seus filmes, é uma forma de homenagem, uma celebração do centenário do seu nascimento que se comemora neste ano de 2022.

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