Luanda, o templo do poder político de Angola

Qualquer mudança de poder em Angola por uma qualquer eleição ou revolução social pretendida pelos jovens “revus” apenas cimentará a condição histórica da cidade de Luanda, de templo do poder político de Angola.

Uma cidade não se resume apenas a uma dimensão geográfica ou a uma designação própria, nem se pode reduzir, meramente, a um espaço silencioso que engloba as possibilidades de realização de actividades humanas. De Luanda pode extrair-se, por exemplo, muita da dinâmica política e de poder da história de Angola, visto ser uma cidade simbólica e histórica do poder em Angola.

Luanda consagrou-se, desde a sua fundação, em Janeiro de 1576, por Paulo Dias de Novais, como o berço do poder em Angola, porque quem governa essa cidade detém o poder de dirigir os destinos do país. Foi partindo desta compreensão que os holandeses tomaram de assalto a cidade de Luanda, por um período de 1641 a 1648. Para se defenderem dos holandeses e reconquistar Luanda os portugueses contaram com o apoio dos “brasileiros” e da aliança com os senhores locais. Esse momento histórico de Luanda de ocupação holandesa serviu de pano de fundo para narrar a história de um flamengo, de nome Baltasar Van Dum, no emblemático romance “A Gloriosa Família” (1997), de Pepetela.

Já em vésperas da declaração da independência de Angola, os três movimentos de libertação nacional digladiaram-se com o objectivo de ocupar a cidade de Luanda. O MPLA acabou por ser a força vencedora, nas palavras do célebre jornalista polaco Ryszard Kapuściński, por ser o mais organizado e disciplinado dos três movimentos. Conseguindo, deste modo, a declaração da independência em Luanda, o que lhe permitiu ser reconhecido como o poder oficial e assumir a posição de governo reconhecido internacionalmente. A partir de Luanda passou a agir em nome de todos os angolanos.

Em 1992, depois da recusa dos resultados das primeiras eleições, a UNITA tentou tomar de assalto o poder através de uma ofensiva militar contra os pontos estratégicos do governo do MPLA em Luanda. Durante meses assistiu-se a confrontos militares violentos entre as forças militares da UNITA e as forças governamentais. Estas acabaram por resistir e, com isto, asseguraram o domínio de Luanda. Mas, uma parte significativa do território passou a estar sob o domínio das forças da UNITA. Ainda assim, o governo do MPLA actuava em nome de todos angolanos, a partir de Luanda.

Estes três exemplos históricos, em períodos diferentes, mostram que toda a tentativa de alteração da ordem de poder em Angola tem de passar necessariamente por desapossar o poder instalado em Luanda. Essa essência de poder da cidade de Luanda nasceu na era da dominação colonial, persistiu em véspera da independência de Angola e cristalizou-se, sobretudo, na transição para o multipartidarismo, com a obrigatoriedade, consagrada na lei, de a sede de todos os partidos políticos angolanos ser em Luanda.

O facto de Luanda ter em si uma génese de poder tem tido um reflexo directo na toponímia da cidade. Assim, a alteração da ordem de poder colonial para uma ordem pós-colonial teve implicações nos novos nomes das ruas, avenidas e edifícios emblemáticos. Por isso, hoje Luanda alberga nas suas ruas, avenidas e edifícios os nomes de figuras relevantes do socialismo angolano, africano e internacional. Destacando-se, por exemplo, as ruas Amílcar Cabral, Nkrumah e Engels, bem como as Avenidas Ho Chi Minh, Lenine, Fidel de Castro. Sem esquecer o emblemático cine Karl Marx.

Qualquer mudança de poder em Angola por uma qualquer eleição ou revolução social pretendida pelos jovens “revus” apenas cimentará a condição histórica da cidade de Luanda, de templo do poder político de Angola.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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