Macron já prepara o dia seguinte da Síria, se possível sem Assad

O presidente francês foi o primeiro a falar de um problema que todos os envolvidos sabem que existe: o ocidente não quer o Daesh na Síria e no Iraque, mas também não quer de Bashar el-Assad.

Presidente da República de França, Emmanuel Macron

O presidente francês, Emmanuel Macron, já está a pensar no futuro da Síria na fase pós-guerra com o Daesh. O presidente francês falou ontem sobre a matéria, tendo dito que uma coisa é a luta contra o autoproclamado Estado Islâmico, outra coisa é o futuro do país e de toda a região. Macron não podia ser mais claro: o presidente da Síria, Bashar el-Assad, não faz parte dos seus planos para o país.

É muito improvável que Assad tome em consideração o que diz Macron sobre a matéria, mas o facto de o presidente francês o dizer não pode deixar de ser lido como um recado que pelo menos parte do mundo ocidental quer enviar ao presidente sírio. Este é mais um problema a prazo (curto) para o Médio Oriente, que todos os observadores anteciparam mal o cenário de guerra se instalou na Síria.

Quando a oposição a Bashar el-Assad começou a tomar contornos mais violentos, vários países ocidentais vislumbraram ali um dos braços da chamada Primavera Árabe e decidiram apoiar o esforço de substituição do líder sírio. Mas quando a luta na Síria passou a confundir os papéis da oposição a Assad com o Daesh, o ocidente teve de parar para pensar.

Agora, finda a guerra, ou quase, o problema da liderança volta a colocar-se em cima da mesa. Como é claro, as reticências de alguns países ocidentais face àquilo que consideram ser a sua atuação despótica chocam com a evidência de que Assad não está interessado em deixar o poder e muito provavelmente não irá proceder a qualquer suavização do regime no sentido da democratização.

Num cenário em que parte do país está destruído, o mais provável é que, imediatamente a seguir aos festejos pela vitória sobre o Daesh, o país deixe a descoberto a profunda crise económico em que obrigatoriamente está e a desconstrução social – nomeadamente por causa dos mortos, dos deslocados e dos refugiados – que foi sucedendo ao longo da guerra.

Entretanto, Emmanuel Macron também não se livra de mais um aperto interno oriundo da parte dos que lhe são politicamente menos próximos. Numa altura em que parte da sociedade francesa ‘goza’ com os ‘desvios imperialistas’ do presidente – que quer comemorar os seus 40 anos de vida com uma faustosa receção num ambiente ‘pró-Versalhes’ – alguns analistas acusam Macron de usar a política externa da França como uma espécie de caminho de fuga quando a política interna não lhe corre pelo melhor.

Há mesmo os que acham que Macron se tem em tão elevada consideração, que o mundo, e não o mais limitado território gaulês, é o seu palco natural. E de facto, a França tem vindo a tentar estar presente em todos os grandes debates da atualidade – nomeadamente na questão de Jerusalém, quando recebeu o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu antes de ele se encontrar com os chefes da diplomacia da União Europeia. Desta vez foi a Síria.

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