Mais um choque petrolífero

Temos de limpar o pó aos manuais de economia para relembrarmos como sair desta confusão que nos espera. E diminuir, de uma vez por todas, a dependência excessiva e perniciosa de fontes de energia fóssil e poluente.

Para uma economista, um dos aspetos curiosos das crises que nos têm assolado é vermo-los discutidos em ambientes não técnicos, usando termos e conceitos bastante técnicos. Mais ainda é nós próprios revermos estes conceitos e situações que entram e saem do vocabulário economês a propósito dos ciclos e das recorrências económicas.

Atualmente, temos ouvido falar de estagflação e de choque petrolífero, termos que desde a década de 70 não eram praticamente referidos, nem falados, como se de palavras vulgares se tratasse.

O primeiro choque petrolífero grave deu-se em 1973, com o aumento do preço do petróleo decidido pela OPEP, fruto de um limite à sua venda aos países apoiantes de Israel. Em cerca de meio ano o preço do petróleo aumentou mais de 300%, desestabilizando a economia global.

No final da década de 70, dá-se um novo aumento do preço do petróleo, novamente por motivações políticas: a deposição do Xá Reza Pahlavi do Irão e a sua substituição pelo aiatola Ruhollah Khomeini. Este segundo choque acaba por ter impactos mais prolongados, pois o novo governo iraniano nacionaliza a produção do petróleo e controla-a de acordo com as suas orientações político-religiosas e uma antipatia clara pelos países ocidentais.

Ambos os choques nos alertaram para os perigos da dependência excessiva dos combustíveis fósseis. Ou seja, há quase 50 anos que temos “red flags” para esta situação.

De forma simplificada, a consequência dos choques é precisamente a estagflação (estagnação, ou até mesmo recessão, com inflação). O fenómeno, atípico em economia, uma vez que a inflação está tipicamente associada a fases de crescimento, justifica-se pelo facto de esta subida generalizada dos preços ser gerada pelo lado da oferta. O facto de se ter um aumento brutal dos custos de produção leva a um aumento significativo dos preços, logo inflação.

Ao mesmo tempo, regista-se uma quebra estrutural de algum tecido produtivo que não consegue fazer face a esta situação, gerando uma quebra de produto e, consequentemente, desemprego, ou seja, recessão. Esta dinâmica coloca um problema ao instrumento clássico da política monetária, a subida da taxa de juro para controlo da inflação, que poderá gerar mais recessão, correndo-se o risco de espirais recessivas difíceis de controlar.

Neste momento, com a invasão da Ucrânia, estamos a aproximar-nos a passos largos de uma situação semelhante, com o aumento substancial e rápido do preço do petróleo e do gás. A duração do conflito irá ser determinante para condicionar a desaceleração do crescimento (quer real, quer potencial) da economia mundial alavancando a inflação, que já vinha a aumentar, e limitando o crescimento da procura por via da contração económica.

Acompanharemos de perto a evolução da guerra e dos seus impactos na economia, mas acho que temos de ir limpar o pó aos nossos manuais de economia para relembrarmos como sair desta confusão que nos espera. E esperemos, esperemos mesmo, que seja desta que diminuímos, de uma vez por todas, a dependência excessiva e perniciosa de fontes de energia fóssil e poluente. Não é bom para o ambiente e não é bom para a economia.

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