Mais valia que ao menos valesse a pena

Vivemos neste momento numa fundamental contradição. Esquecemos do passado tudo de bom que tinha e não nos libertamos do que nele era mau. A ética individual e o apelo à liberdade justa e digna, como a explicava Espinosa, feneceram algures num ‘reino da quantidade’. O mesmo ocorreu com o gregarismo solidário, com poucas excepções caritativas […]

Vivemos neste momento numa fundamental contradição. Esquecemos do passado tudo de bom que tinha e não nos libertamos do que nele era mau. A ética individual e o apelo à liberdade justa e digna, como a explicava Espinosa, feneceram algures num ‘reino da quantidade’. O mesmo ocorreu com o gregarismo solidário, com poucas excepções caritativas e umas quantas experiências ‘fora da caixa’.
Por outro lado, idolatramos o futuro ou lutamos por alterá-lo, sem perceber que o futuro traz muito de mau, e que a forma como alguns de nós aprenderam a tentar moldá-lo em algo melhor já não faz sentido, porque o futuro já não é aquilo que nos ensinaram que ia ser. Os ‘Impérios de Mil Anos’ ou a ‘Utopia Comunista’, inventados para substituir, na modernidade, a vaga ideia da eternidade, foram ultrapassados por  uma nova mentira, a da ‘democracia social’, que nos permite a todos um lugar no banquete civilizacional – se não à cabeça da mesa, pelo menos na sala onde se serve o repasto.
Tudo isso está no passado, ou no futuro de que ele não se liberta nem segue. Algures num limbo. O próprio Homem – que quase todos os filósofos decretaram como essência do pensamento e da pesquisa – está ultrapassado pelos acontecimentos. A tecnologia sem regra é o primeiro passo para a alteração das circunstâncias. O ser humano já não vai ser tão necessário – ou não o será no número em que actualmente existe – e a própria ideia de trabalho e a sua antítese, o desemprego, terão de ser encarados de uma outra maneira.
Nem é preciso convocar a tecnologia para chegar à conclusão deste verdadeiro fim da história tal como a conhecemos. E de quão ultrapassada está a forma como pensámos – e ainda pensamos – o mundo. A instabilidade das ‘crises’ que nos vão vendendo, sempre rumo a uma redenção desse mau momento, já não colhe. Não há ‘crises’, há uma instabilidade permanente e é para ela que nos dirigimos, rumo a uma ‘dissolução’ que já não admite o conceito de ‘solidez’, tal como o enunciou René Guénon.
A ‘alma’ desapareceu de vez da nossa vida profissional. Já não vivemos na mesma rua dos amigos de infância, não visitamos amiúde os avós, vivemos num país qualquer onde haja trabalho. E isso, de uma maneira sistémica, ocorre pela primeira vez na História. E no entanto, quem reina ainda é uma quimera – a da acumulação de rendimentos, o mito da prosperidade. Os pobres são excluídos dela? Não – os pobres são excluídos, ponto! E serão cada vez mais – os que anda existirem, claro.
No desaforo ético e no afastamento dos ‘justos a que chegámos – tão longe da acepção de Sócrates – o ‘vale tudo’ e a inversão dos valores fazem escola. Veja-se, por exemplo, o caso dos mercados financeiros, verdadeira indústria do efémero, que está (ainda) no topo das malfeitorias ramificadas por outras actividades altamente lucrativas e mais ou menos assentes na volatilidade.
A sofisticação que o ‘mercado livre’ permitiu aos instrumentos de financiamento tem apenas por escopo o torná-lo opaco, imperceptível. E às avessas, já que cada vez mais se ganha com crises sistémicas. Basta apostar de forma cuidada, ou apenas por sorte, onde vai estar a ferida e fazer força para que ela sangre.
Alessio Rastani, um ‘broker’ cujas intervenções públicas niilistas se tornaram virais há uns anos nas plataformas electrónicas globais, confessava que sonhava com a próxima crise, já que era aí que mais dinheiro se ganhava. E avisava o povo: os Governos não mandam nada, quem manda é o pessoal da Goldman Sachs. O pessoal do bairro social continuou a apostar na raspadinha e na lotaria do Natal…
‘A mim não me interessa se há uma recessão, se vejo uma oportunidade de ganhar dinheiro vou atrás dela’, dizia Rastani. ‘Não esperem que a crise acabe, ela nunca vai acabar de vez, vem outra atrás desta’, sentenciava o ‘broker’ londrino. Ele sabe, ele não se importa, ele joga com isso. Sem ética, mas com grandes lucros.
Esta semana, o homem que parece que traz uma nuvem em cima da cabeça – tais são as previsões catastróficas e acertadas que normalmente faz sobre as crises – disse que o próximo ‘crash’ bolsista ocorreria em 2016. Nós continuamos a precisar de pessoas como Nouriel Roubini para nos mostrarem o futuro. Ainda que negro, esse é o nosso futuro, aquele que conhecemos. O problema é que já não há futuro tal como no-lo ensinaram…

(Este artigo não segue as regras do acordo ortográfico por vontade do autor)

Márcio Alves Candoso
Jornalista

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