Manuela Ferreira Leite diz que no seu tempo as provisões para a CGD cobriam 100% as imparidades

“Os controlos de riscos foram sendo aperfeiçoados”, disse a ex-ministra das Finanças.

Jose Manuel Ribeiro/Reuters

Manuela Ferreira Leite está a ser ouvida na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização e gestão da CGD, na qualidade de ministra da tutela entre 6 de abril de 2002 e 17 de julho de 2004. A ex-ministra das Finanças diz que no seu tempo as imparidades da CGD tinham cobertura por provisões a mais 100%, o que era considerado demasiado prudente. Mas ainda realçou que imparidades não são sempre as mesmas ao longo do tempo. “Na altura as imparidades não tinham a importância que mais tarde vieram a ter”, disse.

Sobre o caso em Espanha, onde o banco tem registado fortes perdas, Manuela Ferreira Leite revelou que foi no tempo anterior de Rui Vilar como presidente do banco, que a CGD comprou ” banquinhos” em Espanha, mas como esse investimento não se estava a revelar tão eficaz como quando foi executado, “tentamos comprar por duas vezes um banco em Espanha, mas perdemos os concursos para o Barclays e para o Sabadell”.

O Banco Simenon teve prejuízos de 500 milhões de euros, em 2003, depois de lucros de 2002.

Para a tutela o crescimento por aquisições resolvia o problema de falta de rentabilidade que estava a verificar-se em Espanha. Em alternativa era defensora de desinvestir completamente. Manuela Ferreira Leite disse que o Governo seguinte foi noutro sentido, foi no sentido de crescimento orgânico em Espanha, com crescimento de balcões e de pessoas.

Sobre os resultados da CGD, referiu que no seu tempo dava lucros de cerca de 700 milhões de euros por ano.

Durante o seu mandato como ministra das Finanças (durante o Governo de Durão Barroso) tentou aumentar a percentagem de lucros a distribuir para o Estado para 60% a 70%. Mas não houve tempo para conseguir, e a gestão da CGD não era favorável a esse aumento, por isso manteve-se o ‘pay-out’ de 50%.

Manuela Ferreira Leite frisou com veemência que nunca interferiu na actividade de concessão de crédito da CGD.

Na linha das suas opções estratégicas para a Caixa estava a mudança de modelo de governo da CGD. “Tentamos mudar o modelo de governo da CGD, com uma proposta ao Conselho de Ministros, mas não foi possível”.

O modelo que estava na altura era Mira Amaral como CEO e António de Sousa como Chairman, mas entraram em conflito, o que “prejudicou a actividade da CGD naqueles meses”, diz o deputado do PS.

“Quando lá cheguei, a CGD estava há mais de oito meses com um número par de administradores, o que era ilegal, por isso nomeamos uma pessoa para um lugar que estava vago”, explicou a então ministra das Finanças.

O Ministro que se lhe seguiu resolveu o problema dos conflitos na cúpula da CGD, substituindo a administração. “O presidente da CGD já lá estava quando cheguei e manteve-se quando saí”, disse.

Antes da sua entrada para ministra da tutela, tinham havido demissões na administração da CGD, por causa de uma concessão de crédito de 75 milhões de euros para a compra do Atrium Saldanha, sem as garantias adequadas. Em resposta ao deputado Moisés Ferreira, do Bloco de Esquerda, a antiga Ministra das Finanças respondeu que não interferiu no controle de crédito mais apertado. Porque nunca interferiu em nenhuma operação de crédito da CGD, porque não cabe nas funções do Ministério das Financas, “a administração da CGD e o Banco de Portugal terão resolvido essa questão”, disse.

Questionada sobre a sua posição na venda dos seguros e privatização da CGD, disse que estava prevista a constituição de uma holding que aglutinasse a separação de negócios da Caixa. Separar o sector segurador era uma opção que não tinha em vista a sua venda, disse, pois era um sector lucrativo.

A CGD comprou em Julho de 2004 as seguradoras do BCP por 343 milhões de euros.

“Sempre fui contra a privatização da CGD”, disse Ferreira Leite.

Sobre as participações da CGD na Portugal Telecom e da Águas de Portugal, que não tiveram origem no seu tempo, diz que resultaram dos aumentos de capital dessas empresas terem sido em espécie.

Sobre a CGD ser, a certa altura, a maior accionista do BCP, explicou que não foi no seu tempo.

O deputado do BE lembrou que quando foi a venda do Grupo Champalimaud a CGD que tinha ficado com a Mundial Confiança, que era a seguradora e holding do Grupo, vendeu o Banco Pinto & Sotto Mayor ao BCP, mas este pagou com ações do próprio banco.

O deputado lembrou ainda que em 2004 a CGD vendeu a participação no BCP por 1,75 euros por ação, com prejuízo para a Caixa de 375 milhões de euros (tinham valor de aquisição no balanço de 5 euros por ação). Manuela Ferreira Leite não protagonizou esta decisão.

 

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