Mário Centeno: “O futuro da banca não é mais incerto do que o presente”

“Do lado dos reguladores e do poder legislativo é fundamental que se proporcionem condições concorrenciais de igualdade entre os diferentes participantes no mercado”, defende o supervisor referindo-se às Bigtechs e Fintechs. Centeno disse ainda que o objetivo do eurodigital é que complemente mas não substitua o numerário.

Cristina Bernardo

“O futuro não é mais incerto do que o presente”, disse o Governador do Banco de Portugal sobre o futuro da banca citando Walt Whitman, o poeta norte-americano, que quis transmitir uma confiança no futuro.

Acrescentando a banca à poesia de Whitman, Centeno acabou a concluir que o futuro da banca não é mais incerto que o presente.

O Governador, falando na conferência Banca do Futuro, organizada pelo Jornal de Negócios, lembrou os ajustamentos do setor bancário português, “peça fundamental da atividade económica”, feitos após a crise financeira.

A recuperação económica a níveis antes da pandemia está prevista para o primeiro trimestre de 2022, referiu Centeno que considera que as dificuldades de ofertas que hoje enfrentamos são “temporárias”. Por isso defende a manutenção da política monetária acomodatícia durante a recuperação económica e a política orçamental que acompanhe a recuperação sem acumular riscos para o futuro mas sem deixar de apoiar os setores mais vulneráveis aos efeitos da crise.

“É difícil avaliar se estamos perante uma transição para uma economia mais verde e mais digital ou se, pelo contrário, estamos perante uma metamorfose, algo mais profundo do sistema económico e social, onde as desigualdades ganham um novo prisma e os riscos são avaliados de uma nova forma”, disse acrescentando que os novos riscos substituem os antigos e os novos investimentos tomam o lugar dos que deixam de ter lugar numa economia  mais sustentável.

Sobre o futuro invocou a importância do ajustamento do sistema bancário que ocorreu na década a seguir à crise financeira mundial.

O progresso realizado pela banca portuguesa foi “preponderante para aumentar a sua resiliência a choques adversos”.

Este progresso, disse, “permitiu que o sector bancário financiasse a economia portuguesa nestes únicos anos de pandemia e que está agora preparada para os riscos de crédito”.

“Hoje temos um sistema bancário mais resiliente, operacionalmente mais eficiente, com uma melhor qualidade dos ativos, e com rácios de capital estáveis. Mas subsistem fragilidades”, disse Centeno.

O Governador considera que a transição climática e a transformação digital cria oportunidades para a banca.

“A transição digital começou no início da década passada e foi acelerada pela pressão sobre a rentabilidade, alavancada pelo contexto regulatório favorável e mais recentemente pela pandemia e não pode parar”, disse Mário Centeno.

O responsável do supervisor da banca falou de uma mudança de paradigma do modelo de negócio do setor bancário assente numa organização interna “menos pesada” e no relacionamento digital com os clientes.

Nos últimos dois anos os bancos fizeram um investimento significativo em infraestruturas de tecnologia de informação e em pessoas, lembrou. A mudança tecnológica aumenta a velocidade da prestação de serviços financeiros e reduz custos. “No entanto os bancos também podem ser induzidos a assumir mais riscos de crédito para aumentar rendibilidade e permanecer competitivos, o que não pode ser descurado”.

“Do lado dos reguladores e do poder legislativo é fundamental que se proporcionem condições concorrenciais de igualdade entre os diferentes participantes no mercado”, defende o supervisor bancário.

“O futuro passa pela tecnologia, pela sua adopção e adaptação, mas não nos podemos esquecer que as Bigtechs estão fora do perímetro regulatório e de supervisão direta das autoridades financeiras. Por exemplo, a utilização de dados dos clientes recolhidos através das suas plataformas é um recurso relevante que necessita de ser regulado, promovendo igualdade concorrencial”, defendeu.

Centeno considera que as autoridades nacionais e internacionais precisam de coordenar a sua atuação em diferentes áreas como a supervisão prudencial, a proteção de dados e a Concorrência.

O Governador alertou ainda que a digitalização acarreta riscos cibernéticos. “Como muitos bancos recorrem ao mesmos fornecedores para soluções de tecnologias de informação, um ataque cibernético a um grande fornecedor pode assumir um evento de natureza sistémica”, alertou.

Por isso, o risco cibernético é relevante no desenho de medida prudenciais incluindo as macroprudenciais.

O Governador do Banco de Portugal disse que o regular funcionamento dos sistemas de pagamento dependem do uso do euro, e por isso o eurodigital é um desafio.

“O Eurosistema está a trabalhar no desenvolvimento e possível emissão da moeda digital para preservar o equilíbrio nos sistemas de pagamento. O objetivo do eurodigital é que complemente mas não substitua o numerário. Sendo um meio de pagamento simples, universalmente aceite, sem risco e confiável”, disse lembrando que estas características não estão presentes nas moedas digitais privadas. Alertou que estas precisam de ser convertidas, estão sujeitas a riscos de segurança, operacionais, de crédito, de liquidez e de mercado.

Sobre os temas de alterações ambientais e o seu impacto no sistema bancário, Centeno lembrou o compromisso dos bancos (incluindo os portugueses) de alinhamento com a neutralidade carbónica em 2050, mas também no estabelecimento e implementação de metas intermédias essenciais na transição climática.

A transição climática precisa de investimentos com recurso a capital público e privado, lembrou, vai substituir velhos investimentos por novos investimentos “verdes”, o que é uma oportunidade para os bancos integrarem gradualmente esta mudança estrutural nos seus modelos de negócio, nas suas estratégias e nas decisões do dia-a-dia, defendeu.

“O papel de um banco central é de trabalhar para que o futuro não seja mais incerto que o presente, e o futuro é feito das decisões que estamos a tomar hoje”, concluiu Centeno.

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