Marisa Matias diz que resultado de 2016 “traduz atraso na participação das mulheres nas eleições”

Candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda espera obter mais do que 10,12% dos votos a 24 de janeiro e, apesar da ‘concorrência’ de Ana Gomes, garante ter mais apoios na área socialista do que em 2016.

Melhorar os 10,12% de votos obtidos na sua primeira candidatura à Presidência da República não é visto como uma obsessão por Marisa Matias, embora considere possível transpor a 24 de janeiro uma fasquia que encara como um sinal negativo na democracia portuguesa. Apesar da “concorrência” de Ana Gomes, a eurodeputada do Bloco de Esquerda considera que representa as vozes “daqueles e daquelas que entendem que há um futuro”.

O escritor italiano Cesare Pavese escreveu que nada é mais inabitável do que um lugar onde já se foi feliz. Alguma vez pensa nisso ao lembrar-se das presidenciais de 2016?

Não (risos). Conheço essa frase, mas não é algo que me ocorra. Não estamos na vida política por interesse pessoal ou para fazer uma repetição, ou não, só por uma questão de felicidade própria. Estamos a responder a urgências coletivas. Uma das frases com que arrancámos esta candidatura foi “há razões de força maior para me voltar a candidatar”. Não o mesmo tipo de crise que estávamos a viver ou da qual estávamos a sair há cinco anos, mas uma crise ainda mais profunda. Faz falta um programa e uma candidatura que lhe procure responder num espaço de entendimentos mais exigentes à esquerda e essa é a razão principal para apresentar essa alternativa.

Na altura não conseguiu impedir a eleição do atual Presidente da República, mas os 10,12% permitiram-lhe ser a mulher e a bloquista mais votada de sempre em eleições presidenciais. Está agora a lutar contra o seu próprio resultado?

Não estou a lutar contra mim, seguramente, nem contra o resultado.

Neste caso contra o máximo pessoal.

Isso deve fazer pensar bem por que razão em 46 anos de democracia não conseguimos um resultado superior para uma mulher candidata à Presidência da República. Nem sequer penso nesse resultado como extraordinário. Traduz o nosso atraso em relação à participação das mulheres nas eleições e nos cargos públicos de maior relevo. Apresento-me obviamente com a intenção de reforçar e melhorar esse resultado, mas não por uma questão de competição e sim por entender que esta candidatura representa as vozes daqueles e daquelas que entendem que há um futuro, que podemos ter um programa para este país que não seja de acomodação e muito menos de recuo, mas sim um programa de afirmação da esquerda e da possibilidade de entendimentos futuros na defesa dos serviços públicos e no combate à precariedade e às alterações climáticas. E para pessoas que podem encontrar nesta candidatura uma linha política que as possa fazer acreditar nessa possibilidade de futuro e de construção coletiva. Não é, nem nunca poderia ser uma luta de mim contra mim.

Sentir-se-ia confortável com o apoio de membros do Governo e deputados da ala esquerda do PS que teria certamente se Ana Gomes não fosse candidata?

Faço política no concreto, e o concreto é que temos várias candidaturas. Creio que as pessoas perceberão que não foi uma grande surpresa para mim que Ana Gomes se candidatasse. E acho que fez bem. Já disse várias vezes e repito: não desistirei, da mesma maneira que não se pede a outros candidatos de esquerda que desistam a meu favor. Não é isso que tem impedido que tenha apoios muito variados e que vão muito além do espaço político convencional do Bloco de Esquerda. Na área dita socialista é óbvio que nesta candidatura há muitos mais apoios do que há cinco anos e estou muito confortável com eles.

Disse que se fosse Presidente da República não daria posse a um governo com apoio do Chega. Constitucionalmente isso não é ir mais além dos poderes do Presidente?

Não. O poder e função principal do Presidente é respeitar e proteger a Constituição. Independentemente de não poder ser confundido com o reconhecimento ou não dos partidos, que cabe ao Tribunal Constitucional, o Presidente da República tem um papel fundamental nessa proteção. Quando me refiro a isso, mais do que falar do Chega, estou a falar da posição do PSD na naturalização de uma força de extrema-direita e também na posição do próprio Presidente, que é dessa família política e não apresentou nenhuma objeção ao que se passou nos Açores. A esse respeito sou muito mais favorável e identifico-me muito mais com a posição que tem sido tomada na Alemanha por Angela Merkel, com o cordão sanitário que não aceita a formação de governos que dependam da extrema-direita. A Constituição é muito clara a impedir qualquer partido com natureza racista e fascista, e creio que não há dúvidas quanto aos posicionamentos do partido em causa.

Mas a Constituição também diz que o papel do Presidente para dar posse a um Governo depende da leitura da vontade popular. Como justificaria essa opção?

É uma opção política, como tudo o que faz um Presidente da República. O líder do partido de extrema-direita provavelmente anda à procura de um confronto desta natureza para fazer o seu caminho político, mas o que está em causa é proteger as pessoas, o país e a Constituição. E a proteção da vontade popular é feita através da proteção dos valores inscritos na Constituição. O Presidente não deve apenas analisar a cada momento a parte formal do mandato. Tem de fazer uma leitura no sentido de defender o país e a própria democracia.

Como comenta o impedimento, por proposta do Bloco de Esquerda, da transferência de verbas para o Fundo de Resolução que permitiriam injetar capital no Novo Banco?

A questão do Novo Banco está mais do que esclarecida e não é diferente de outros debates que tivemos sobre o sistema financeiro em 2015 e 2016, aquando da campanha das últimas presidenciais. Também nessa altura a minha posição em relação ao Banif era diferente da que foi defendida pelo atual Presidente. Propus na altura, e mantenho, que se deveria ter vetado o Orçamento, indo muito mais longe do que as medidas que estão agora a ser tomadas quanto ao Novo Banco. Havia que o vetar, pois era claramente inconstitucional e prestou um serviço ao sistema financeiro cuja fatura ainda estamos a pagar hoje. E em relação ao Novo Banco, desde a resolução à venda tudo foi mal conduzido. Foram medidas que nos colocaram numa situação de fragilidade, tomadas sem proteger os interesses coletivos nem dos contribuintes. É verdade que existe um contrato, mas sabemos que uma das partes está a cumpri-lo e não sabemos se o mesmo acontece da outra. Acho muito bem que se apure essa questão antes de continuarmos a fazer as transferências, até porque era uma posição comum no Parlamento em maio e era também a posição do próprio primeiro-ministro. O Bloco de Esquerda, o PSD e o PCP mantiveram a sua posição, e o partido do primeiro-ministro mudou.

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