Maxyield lembra que método contabilístico da Galp diminuiu a subida dos lucros numa altura de “windfall taxes”

O Clube dos Pequenos Acionistas entende que “os próximos relatórios de Governo Societário da Galp poderão produzir indícios sobre as razões da renúncia do CEO Andy Brown e papel do acionista Estado através da Parpública que detém 7,5% do capital, face às considerações públicas daquele sobre o impacto da windfall na companhia e na evolução do sector no país”. 

A Maxyield, Clube dos Pequenos Acionistas, fez uma análise à temporada de resultados do universo empresarial do índice PSI. Nela aponta os principais fatores que explicam a subida generalizada dos lucros.

“Na análise dos resultados destas sociedades na earning season referente ao terceiro trimestre deste ano, devemos ter em  consideração as metodologias utilizadas na sua apresentação e a preocupação pela homogeneização do processo comparativo”, refere a Maxyield, salientando que “a Galp apresenta resultados com base em RCA (replacement cost accounting) e IFRS (international financial reporting standards), sendo que todas as restantes cotadas disponibilizam as suas demonstrações financeiras em  IFRS”.

A Galp no terceiro trimestre teve lucros de 188 milhões de euros, pelo método RCA, o que traduz uma subida de 16,8% face a mesmo período do ano anterior. Já se tivesse apresentado lucros pelas regras de IFRS teria passado de prejuízos de 334 milhões no 3.º trimestre de 2021 para lucros de 307 milhões de euros no terceiro trimestre deste ano.

No acumulado dos nove meses, até setembro, pelo método RCA a Galp reportou lucros de 608 milhões, a subirem 85,9% e se tivesse adoptado o IFRS os lucros teriam disparado de prejuízos de 102 milhões em 2021 (até setembro) para 1.020 milhões este ano.

Ora, “estes elementos são relevantes, face à incidência fiscal da contribuição de solidariedade temporária (windfall tax),  sobre os setores da energia (petróleo bruto, do gás natural, do carvão e da refinação) e da distribuição alimentar,  nos períodos de tributação de 2022 e 2023, que ultrapassa o âmbito desta questão”, alerta a Maxyield.

A Galp, representando 12,4% do PSI, tem um peso considerável e determinante nos resultados do universo empresarial de empresas do PSI, sendo a cotada com maiores lucros “quer na perspetiva RCA e quer na computação em IFRS”.

Os valores  em IFRS são mais elevados, devido ao efeito do preço no stock do petróleo e eventos especiais, designadamente mark-to-market a nível de contratos de futuros no mercado internacional do gás, para cobertura de posições comerciais, com particular incidência no 3.º trimestre de 2021.

“Computando a Galp em RCA, o universo empresarial PSI no 3.º trimestre (com exceção da Mota-Engil que não  apresenta contas trimestrais), apresenta [entre junho e setembro] um crescimento homólogo trimestral dos lucros em 45% e um aumento acumulado anual de 53%, relativamente a idêntico período do ano anterior”, diz a associação liderada por Carlos Rodrigues, que acrescenta que “o crescimento homólogo dos lucros deste conjunto empresarial passa para 270% no 3º trimestre 2022 e 116% em termos  acumulados no período janeiro a setembro de 2022, se os resultados da Galp forem considerados em IFRS e desta forma observar  homogeneidade a nível comparativo”.

A Maxyield diz ainda que “tem apreço e estima pelo atual CFO e futuro CEO Filipe Silva, mas não pode deixar de referir que os  próximos relatórios de Governo Societário da Galp, poderão produzir indícios sobre as razões da renúncia do CEO Andy Brown e papel do acionista Estado através da Parpública que detém 7,5% do capital, face às considerações públicas daquele sobre o impacto da windfall na companhia e na evolução do sector no país”.

“As sociedades com predominância absoluta de operações internacionais, Galp, EDP Renováveis, Navigator, Semapa,  J. Martins e Greenvolt apresentam uma evolução anual robusta dos resultados quer trimestrais quer no acumulado dos nove meses, com taxas de crescimento significativamente elevadas”, segundo a análise.

Pelo contrário, as sociedades com maior orientação para o mercado doméstico, designadamente CTT, NOS, REN e  Sonae SGPS apresentam tendencialmente menores taxas de crescimento dos lucros, conclui a Maxyield.

Em ambas as situações, existem alguns casos de aumento ou diminuição de lucros por motivos muito específicos. Por exemplo, o grupo EDP apresenta um forte crescimento trimestral dos lucros de 26,3%, mas foi afetado na taxa de crescimento  anual acumulado (1,6%) pelo prejuízo da sua operação em Portugal, devido ao mau ano hídrico, sendo que a venda  de ativos pela subsidiária para as energias renováveis teve um efeito positivo quer nela, quer nos resultados  consolidados do universo EDP.

Já o BCP, que vê os lucros do 3º trimestre caírem 51,9% face ao trimestre homólogo do ano anterior beneficia duma forte eficiência da operação comercial e resultados operacionais robustos nas diversas geografias de atuação, com forte performance financeira em Portugal e Moçambique, mas é afetado negativamente  pela subsidiária polaca a nível da criação de imparidades para cobrir diversos riscos da sua atividade e aumentos de contribuições para o sistema de proteção bancária. No acumulado dos nove meses, a variação anual é de 63,4% para 97,2 milhões.

Na Corticeira Amorim, a evolução trimestral negativa dos resultados em -10,8% (para 16,8 milhões), deve-se à influência de imparidades em clientes e stocks, refletindo uma abordagem prudente à exposição à Rússia, à Ucrânia e Bielorrússia, sendo que  o crescimento dos resultados anuais se encontra em 10,6% (para 64,2 milhões).

Já o grande crescimento da Greenvolt deve-se ao efeito dos investimentos em M&A (fusões e aquisições) e rotação de ativos, lembra a Maxyield. A empresa liderada por João Manso Neto viu os lucros dos três meses entre junho e setembro subirem 300% para 15,6 milhões e nos nove meses a variação é de 241,1% para 16,8 milhões de euros.

Por sua vez, a Altri apresenta um fraco crescimento homólogo trimestral dos lucros em 3,8% (para 47,7 milhões) e um forte crescimento anual em torno de 30% (para 117,4 milhões), sendo esta discrepância explicada pela redução histórica da margem EBITDA devido à cobertura de  riscos cambiais e aumento de preços a nível do gás natural, produtos químicos e madeira.

A NOS, com uma atividade de natureza doméstica predominante, beneficiou de mais valias com a venda dum  importante lote de torres, que contribuíram para taxas de crescimento homólogo trimestral e anual muito elevadas,  atingindo 129,6% no 3.º trimestre e 59,4% no período entre janeiro e setembro.

Os resultados líquidos dos CTT ficam a dever-se ao negócio tradicional, nomeadamente preços do serviço postal  universal e forte incremento pontual de angariação de poupanças aplicadas em títulos da dívida pública, nomeadamente certificados de aforro, provocando um crescimento dos lucros no 3.º trimestre de 50,8%, com reflexo no  crescimento anual de 7,6%.

A REN (que viu o lucros trimestrais crescerem 22,8%) beneficiou do aumento da receita regulada da atividade de transporte de energia no sector da eletricidade,  aumento da remuneração da base de ativos regulada, desempenho operacional e contributo dos negócios  internacionais, cujos fatores contribuíram para elevadas taxas de crescimento quer trimestral quer anual (19,1%).

O resultado trimestral da Sonae SGPS encontra-se influenciado pela mais-valia da venda da Maxmat registada no  ano passado, provocando uma quebra homóloga dos resultados do 3.º trimestre de 2022 em -4,2% e um crescimento anual dos lucros em 32,6%.

A Maxyield defende que o crescimento dos lucros das empresas do PSI apenas está parcialmente associado à alta inflação. “Quando fazemos a comparação, não podemos esquecer que os lucros anuais obtidos em 2021 são ligeiramente  inferiores ao valor observado em 2019 que é o ano pré-covid”, revela a análise.

Os lucros anuais do universo PSI atingiram 3.111 milhões de euros em 2019, baixando para 1.901 milhões em 2020 e ficando em 2021 abaixo do valor de 2019 com 3.067 milhões de euros. “Acresce que estamos a comparar janeiro a setembro de 2022 com o período homólogo de 2021, o qual contribuiu apenas com  56% para o lucro total do ano”, ressalva a Maxyield.

Por outro lado, verificaram-se em 2022 “importantes receitas não recorrentes que ajudaram a aumentar os lucros”, salienta a associação. A receita total do universo empresarial PSI apresenta um crescimento homólogo de 43,2 % no nove meses de 2022, enquanto os custos operacionais cresceram 44,1% em idêntico período.

Face à evolução relativa de receitas e custos operacionais, “fica claro que o aumento dos lucros deve-se ao  crescimento em valor das vendas e prestações de serviços, que não pode ser explicado apenas pela inflação. Nestas circunstâncias, parece-nos exagerado falar em lucros excessivos, ignorando a contextualização do processo  de cálculo e a razões específicas de mercado relativamente a algumas companhias”, aponta a Maxyield.

Já no que toca à rentabilidade e tendência de evolução dos lucros, a mesma análise refere que a taxa de crescimento das receitas sofreu um aumento considerável, quer no 3.º trimestre de 2022, quer a nível do valor acumulado anual, respetivamente de 42% e 43% no conjunto das sociedades do PSI.  “Este crescimento é generalizado e muito forte nas sociedades com forte orientação para o mercado internacional, sendo que as cotadas com elevado focus no mercado doméstico  apresentam aumentos significativamente mais baixos”, conclui o estudo.

Globalmente, a margem EBITDA sofreu uma ligeira quebra, embora com algumas exceções devido a receitas com alienação de ativos na EDP Renováveis e Greenvolt ou desempenho operacional a nível da Semapa, Navigator e REN.  “Este comportamento diferenciado das receitas e rentabilidade comercial (relação EBITDA / Rendimento) é explicado  pela evolução dos preços dos inputs”, refere a Maxyield.

“Entre os fatores explicativos temos ainda de considerar a influência do covid-19 nos valores observados em 2021,  que servem de base de comparação, bem como efeitos da rotação / alienação de ativos nomeadamente no Grupo  EDP, na NOS, e na Greenvolt”, conclui a análise.

Há ainda a ter em conta o impacto na remuneração acionista. “O nível de resultados obtidos no ano em curso, pronuncia uma boa temporada de dividendos em 2023, sendo que vão ocorrer remunerações acionistas no decurso de dezembro por parte de 3 sociedades cotadas”, destaca a Maxyield.

“A Navigator vai compensar os acionistas com distribuição de reservas e resultados transitados pelo valor bruto de 0,21 euros por título, a pagar em 12 de dezembro e a Semapa no montante ilíquido de 1,25 euros por ação a liquidar em 13 de dezembro e a REN vai pagar a partir de 23 de dezembro um dividendo bruto de 0,064 euros por ação, a título de adiantamento sobre  lucros.”, refere a mesma análise.

Hoje a Corticeira Amorim aprovou em Assembleia Geral a distribuição de dividendos extraordinário de 0,09 euros. 

Outlook bolsista afetado pelos resutados

O Outlook bolsista não pode ser insensível às perspetivas para os resultados das sociedades cotadas no último trimestre do ano. “Em 2021 o quarto trimestre contribuiu com 44% para a totalidade do lucro anual no montante de 1.340 milhões, sendo este valor  superior à média trimestral de 2022. Facilmente se compreende que no 4.º trimestre vai ocorrer uma forte e significativa desaceleração no crescimento homólogo dos lucros, podendo mesmo ocorrer uma suave quebra relativamente a igual período do ano anterior”, destaca a associação.

Por outro lado, a economia portuguesa encontra-se num processo de desaceleração do seu ritmo de crescimento, que passará de um patamar à volta de 6,5% em 2022, para um valor em torno de 1% em 2023. Ora “neste contexto, o regresso à faixa [5.750 – 6.300 pontos] no mês de novembro e o tradicional comportamento bolsista no mês de dezembro, levam-nos a perspetivar uma lenta evolução positiva do PSI neste intervalo de variação, embora  sem atingir os valores máximos de 2022”, avança a Maxyield.

“Esta perspetiva encontra fatores de adversidade no ambiente internacional, relativamente aos quais é difícil avaliar  o grau em que já se encontram absorvidos pelos mercados bolsistas”, conclui.

A Galp liderou a variação mensal em novembro no mercado de capitais, ao subir 14,7% . Na comparação anual a Galp subiu 38,3% em bolsa.

 

 

 

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