Medina: Subida das taxas de juro é “uma normalização da política monetária”

Num balanço feito esta quinta-feira, o ministro das Finanças assinala “um forte crescimento da economia portuguesa” e considera que a forma como o país decidir encarar os desafios globais vai determinar o rumo para 2023, um ano de metas ambiciosas para as Finanças.

Fernando Medina olha para o próximo ano com otimismo, apesar de um desafiante contexto externo para a economia nacional e europeia, como já tinha assinalado durante a apresentação da proposta orçamental para 2023, que deverá ser aprovada este mês.

Na Money Conference organizada pelo ‘Dinheiro Vivo’, o ministro das Finanças diz que 2022 fica marcado, do ponto de vista económico e financeiro, sobretudo, pelo “forte crescimento da economia portuguesa”.

“Chegaremos ao final de 2022 com um crescimento acima da Zona Euro, quando comparamos o período de três anos”, que inclui o cenário pandémico, destaca. Esta previsão, aponta, “é uma indicação de que o processo de convergência [de contas] a que assistíamos antes da pandemia poderá retomar-se”.

A ajudar, há outros fatores, considera o ministro. Desde logo uma “robustez do mercado de emprego”, um ponto que Medina pretende “sublinhar de forma muito clara, porque ele é da maior importância”. “Temos hoje um nível de população empregada como não conhecíamos. Estamos perto do pleno emprego e são hoje claros os sinais de falta de recursos humanos”, diz.

Uma vez mais, o ministro das Finanças reforça a meta de redução do défice público de 2,9% para 1,9% até ao final do ano, algo que considera “um dos melhores resultados a nível europeu”. Mas mais importante, acrescenta, é que a dívida pública reduzirá, de 125% do PIB para 115%.

“O significado desta diminuição da dívida pública em peso do PIB é muito grande, porque significa que Portugal deixará de ocupar a terceira posição destacada dos países do Euro com a dívida mais elevado. Estávamos em terceiro lugar e vamos integrar o pelotão de Espanha, França e Bélgica no final de 2022”, explica. “O movimento estratégico de irmos para as grandes economias do centro da Europa é da maior importância e isso tem sido reconhecido pelas agências de rating“, adianta, recordando mais recentemente a subida de rating por parte da Fitch.

Por outro lado, ainda, o ministro saudou os acordos de concertação social alcançados pelo Governo, que classifica como “únicos”. “É preciso remontar aos acordos de Miguel Cadilha e de Cavaco Silva para ver acordos desta abrangência. Ter havido um acordo é de uma grande importância em momentos de grandes dificuldades, porque são acordos de médio-prazo, não de longo-prazo. A longo-prazo, como sabem, estaremos mortos”.

Também a robustez e resiliência do sistema financeiro ajuda à posição pouco tremida da economia nacional, considera o ministro, que deixou uma nota de “reconhecimento” ao trabalho das instituições financeiras desde 2008 e até ao período pandémico.

A inflação, diz ainda, “revelou-se mais elevada e persistente do que aquilo que o Banco Central Europeu (BCE) anteviu ainda no primeiro semestre deste ano”. “Deixou de ser um fenómeno com um epicentro na energia e alarga-se, com outro tipo de efeitos, e o seu caráter de persistência tem uma natureza diferente daquilo que se previa”, reconhece.

Numa tentativa de contrariar “a espiral inflacionista”, o movimento de subida das taxas de juro por parte do BCE iniciou-se “com uma visão”, explica, mas esta “evoluiu para um processo de subida mais rápida e intensa”, algo que “marcará também o ano de 2023”.

Sobre o próximo ano, o ministro das Finanças não se alonga além das projeções macroeconómicas que já tinham sido apresentadas, e reforça que tudo dependerá do contexto externo, que é como quem diz, sobretudo da guerra.

“Estamos confrontados com um conjunto de desafios, dos quais não temos qualquer responsabilidade. Não é nenhum fator interno. Temos também muitas questões para continuar a resolver, mas é o contexto externo que nos marca a agenda e que temos que enfrentar: a guerra, a incerteza total e a normalização dos preços da energia”, assinala.

Avançando para o próximo ano, o responsável pela pasta das Finanças assinala também um movimento contrário à globalização, e admite que Portugal pode desempenhar um papel central na regionalização das cadeias de valor. Sobre essa estratégia e sobre a crise importada, em grande parte, da Ucrânia, Medina diz que “não podemos ficar numa atitude contemplativa. Temos que debater o contexto e definir as melhores linhas de opções estratégicas e percebermos bem onde estão as nossas forças”.

“A forma como lidarmos com estes desafios vai determinar muito o andamento de 2023 – quer junto das famílias que têm apreensão, preocupação e dificuldade inicial”, quer junto das empresas e dos agentes económicos. “Se não formos capazes de enfrentar esse desafio teremos mais dificuldades em gerir o equilíbrio global em que tudo isto assenta”, acautela.

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