Memórias de uma menina malcomportada

Não estamos muito diferentes do que éramos há umas décadas atrás, quando a mulher tradicional era reduzida a “dona de casa” e as que quebravam esse destino eram dadas como, pelo menos, levianas.

De novo, dois ‘disclaimers’:

A adolescência trouxe-me um grupo de amigos que, pela diversidade, me fez não aceitar diferenças de tratamento injustificadas. Aprendi que as pessoas valem por si, com total independência do género, ascendência ou condição social. Fomos uma geração rebelde, muitas vezes malcomportada, mas, ao contrário do que se diz, creio que tínhamos uma generosidade nos princípios que era quase inquebrável.

Não tenho qualquer espécie de simpatia pela valia-profissional de Cristina Ferreira, cujos programas faço por não assistir. Reconheço-lhe, contudo, o inegável mérito de ter aproveitado um certo “vazio” e de o ter ocupado como ninguém.

Dito isto, é quase impossível não se reflectir sobre o que dela tem sido escrito nas redes sociais. Não apenas por ela. Acima de tudo, por nós próprios.

 

Cristina Ferreira, conhecida apresentadora da nossa praça, terá dado uma entrevista onde afirmou ter sido assediada, presumindo eu – que não li a peça – que se pretendesse referir a assédio sexual. Desconheço se o foi mas não pude deixar de ler os comentários que se seguiram à mesma, quase todos de uma boçalidade acéfala e de uma ordinarice inacreditável. Para quase todos, a única forma de ter chegado onde chegou (admitindo-se a benefício de raciocínio que esse lugar é bom…), é ter feito favores sexuais, preferencialmente de joelhos, já que as minissaias com que se apresenta não indiciariam coisa diversa. Obviamente, se a mesma Cristina Ferreira decidisse aparecer com saias até aos pés, então a conversa seria a de que se vestiria como uma “velha” e que não teria imagem para estar ali.

Trata-se, de novo, de reduzir a mulher à dimensão de uma coisa e o homem à de um único órgão. Se nada tenho contra a segunda por partir, quanto aos ditos autores, dos próprios detentores do mesmo, já a primeira me choca. Não estamos, na verdade, muito diferentes do que éramos há umas décadas atrás, quando a mulher tradicional era reduzida a “dona de casa” e as que quebravam esse destino eram dadas como, pelo menos, levianas. Hoje, o macho ibérico actua, na essência, em matilha, desvalorizando sempre os êxitos de uma qualquer fêmea e nem sequer concedendo que a explicação para os mesmos possa provir de algo diverso do que a performance sexual da mulher.

É certo que tudo isto poderia ser encarado como uma comédia. Sucede que, ao lado dos que escrevem, estão os que, remetendo-se ao silêncio, pensam da mesmíssima forma. Em ambos os casos, estes selvagens estão nas escolas, nas empresas, se calhar até nos tribunais ou no Governo, justamente avaliando-se a si mesmos e às mulheres com base nestes preconceitos. Talvez resida aí a explicação para as assimetrias de salários que todos reconhecem mas que ninguém consegue, na realidade, combater.

Por tudo isso, tenho muitas saudades do meu grupo da adolescência. Malcomportados? Muitas vezes. Idiotas e preconceituosos? Felizmente, acho que não.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

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