Menos plástico, mais responsabilidade ambiental

Reduzir o desperdício, fortalecer a relação com os diferentes ‘stakeholders’ e melhorar a política de gestão de risco é pura estratégia de negócio: deveria fazer parte da empresa desde sempre.

As políticas ambientalistas para as empresas tiveram a sua génese nos anos 90, quando começaram a surgir as primeiras medidas de redução da poluição. Contudo, hoje em dia, já não são só os governantes que pedem às empresas que sejam sustentáveis e ecológicas, os consumidores e os investidores também assim o exigem. De facto, a responsabilidade ambiental tem vindo a ganhar um espaço de destaque no mundo dos negócios.

Neste sentido, a União Europeia e o Reino Unido criaram um compromisso de peso: reduzir as quantidades de plástico produzido e desperdiçado, proibindo plásticos de uso único (pratos, talheres, palhinhas, cotonetes, etc.). As empresas que trabalham nestas indústrias, ou têm algum tipo de envolvimento na mesma (através dos fornecedores, por exemplo), certamente já começaram a preparar esta grande mudança.

No entanto, não será a única num futuro próximo. O governo do Reino Unido está também a preparar a reforma do sistema de registo de recuperação de embalagens para otimizar a gestão de resíduos e garantir que as empresas optam por produtos mais eficientes a nível de recursos. Espera-se que estas medidas incluam têxteis, resíduos volumosos (como colchões ou mobília), alguns materiais de construção e pneus.

Já a União Europeia está a estudar o estabelecimento de limites nos filtros de cigarros com componentes de plástico, bem como exigir a imposição de que os produtores paguem pela sua recolha e eliminação. A tendência será cada vez a de implementar medidas e impostos que visem reduzir a pegada ecológica da produção e uso de plástico, colocando o ónus do lado dos produtores.

A par das novas políticas, os próprios consumidores e investidores estão cada vez mais exigentes. A responsabilidade ambiental tornou-se um fator competitivo que determina se a empresa será ou não bem-sucedida.

É fácil perceber que o consumo tem seguido um rumo mais ecológico. Nas prateleiras das grandes superfícies, privilegiam-se os produtos “verdes”, cuja produção e utilização consome menos recursos e causa menos desperdício. Para o consumidor, os comportamentos de compra são cada vez mais influenciados pela pegada ambiental das empresas, o que quer dizer que não ter um papel ativo nesta esfera pode fazer com que se perca vendas.

Também os investidores estão bastante alerta para a pegada ambiental das empresas. Se há dez anos poucos faziam caso dos indicadores ESG (Environmental, Social and Governance), atualmente, estes são um dos focos de atenção de quem quer investir nas em empresas. Nem a pandemia mudou esta orientação.

Nas semanas seguintes ao início da pandemia de Covid-19, os fundos com melhor desempenho foram os ESG. Além disso, entre fevereiro e março, em pleno colapso dos mercados, as empresas com melhores resultados foram aquelas que são percebidas pelo público em geral como sendo ambiental e socialmente responsáveis.

Porém, para ter realmente sucesso, é preciso compromisso. Não basta seguir uma lista de diretrizes para tornar a empresa mais apelativa para os consumidores e investidores. Embora implementar algumas medidas seja sempre benéfico – para a empresa, para o ambiente e para a sociedade –, os verdadeiros benefícios surgem quando a empresa se concentra, de corpo e alma, na eficácia operacional. No fundo, reduzir o desperdício, fortalecer a relação com os diferentes stakeholders e melhorar a política de gestão de risco (algumas das medidas ESG mais populares) é pura estratégia de negócio: deveria fazer parte da empresa desde sempre.

Apostar na sustentabilidade ambiental é apostar na sustentabilidade financeira da empresa. Garantir o melhor uso possível dos recursos também permite melhorar a saúde financeira da empresa. Não existem negócios mais ou menos sustentáveis. Em todas as indústrias há espaço para reavaliar procedimentos e implementar medidas de gestão de recursos.

Pode-se começar por reavaliar as infraestruturas, tornar os processos mais transparentes para o público em geral, apostar na digitalização de documentos, melhorar o sistema de gestão de resíduos, procurar matérias-primas e fornecedores mais sustentáveis, substituir os plásticos por outros materiais sempre que possível, e investir na comunicação interna.

Todas estas medidas só funcionarão se envolverem toda a organização. Os colaboradores são o principal vetor da sustentabilidade, assegurando, naquilo que são as suas funções, que as diretivas de gestão de recursos são aplicadas. Ao criar uma mentalidade corporativa de responsabilidade ambiental, todos se comprometem com a sustentabilidade, não só da empresa, mas da sociedade em geral.

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