Mercado já exige às empresas que mitiguem o risco de crédito

Responsável da AON Portugal defende que as atuais soluções de crédito estão preparadas para os desafios que se perspetivam para o sector da exportação. Economista alerta para o aumento dos incumprimentos devido aos juros.

Apesar da incerteza que promete marcar o ano de 2023, o sector dos seguros de crédito à exportação assume estar pronto para os desafios que se avizinham. “Hoje o mercado à exportação exige que as empresas portuguesas se mantenham informadas e que consigam mitigar o risco de crédito. As soluções existentes estão preparadas para os desafios que aí vêm”, refere Diogo Teixeira, Head of Credit da AON Portugal, em declarações ao Jornal Económico (JE).

No que diz respeito às soluções de crédito da AON, o responsável defende que as mesmas podem ser adaptadas, tanto para os intervenientes na compra, como para os intervenientes na venda de transações, através de quatro pontos: reduzir o custo de capital, facilitar soluções extrapatrimoniais para pedidos de garantias relacionadas com transações, permitir financiamentos adicionais a curto prazo e encurtar o ciclo de conversão de dinheiro para ativos e carteiras individuais.

“As seguradoras de crédito estão agora a preparar-se para um regresso a condições de subscrição mais normais relacionadas com o ciclo económico e face aos ventos contrários e aos efeitos recessivos que estão a começar a realizar-se”, realça.

Sobre as exportações, o responsável salienta que estamos perante um cenário que já vem desde 2022, em que as empresas a nível global sofreram, mas tiveram todas um benefício mundial, já que os Estados criaram ajudas adicionais para que não se registassem tantas insolvências.

“Agora o que vai acontecer é que esses apoios já estão acabar ou muitos deles já terminaram e as empresas estão a sofrer os impactos de terem que cumprir as suas obrigações e de arranjarem alternativas às suas fontes de energia e fornecimento, dado que as cadeias de abastecimento estão cada vez mais complexas”, explica o responsável.

Como tal, e face a todo este quadro, Diogo Teixeira, entende que estamos perante um “cenário perfeito” para que existam mais insolvências. “O ano de 2022 já teve um crescimento de 10%, mas a expetativa é de que em 2023 possam atingir os 20%. Não estamos a falar só de Portugal, mas do mundo inteiro, o que por si só irá trazer um novo desafio às empresas exportadoras”, refere.

Ouvido pelo JE, o economista e presidente da IMF, Filipe Garcia, defende que o principal risco está no aumento de incumprimentos derivado das subidas das taxas de juro, subidas de taxas de desistência, aquilo que normalmente se denomina de ciclo de crédito. “As falências, a nível internacional, estão ainda a níveis muito baixos e costuma haver uma correlação entre as mesas e as taxas mais altas, o que ainda não está a acontecer”, diz.

O ano de 2023 continuará a ser marcado pela incerteza que já vem desde o período pandémico e que agora ganha ainda mais força devido à inflação, juros e custos energéticos elevados, a disrupção das cadeias de logística e as tensões geopolíticas. No entanto, nem tudo são más notícias para o nosso país.

“Apesar de existir uma tendência de desaceleração da economia para 2023, esta será mais a nível da Europa, enquanto em Portugal a expetativa é a de que as exportações ainda cresçam 1,6%, apesar de existir uma possibilidade desta estimativa ser mais reduzida dadas as fragilidades destas previsões”, afirma o responsável da AON, assumindo que a expetativa para as exportações nacionais é de que possam crescer ao nível dos parceiros comerciais no mercado da União Europeia, zona euro e Estados Unidos.

Para isso é necessário encontrar novas oportunidades de mercado que possam absorver as exportações portuguesas.

“Sei que algumas empresas procuraram o mercado africano, como por exemplo, Marrocos e Argélia. São países com mais risco porque não há tanta informação. No entanto, para minimizar esses riscos existe uma ferramenta como o seguro de crédito, que logo à partida permite ficar a conhecer esses mercados. Falamos também do mercado americano, Canadá e outros mais exóticos. Sinto que devemos diversificar mais aquilo que são os países com que trabalhamos e utilizar as ferramentas de gestão que nos permitem conhecer e mitigar esse risco”, realça.

Por sua vez, Filipe Garcia, acredita que “a oportunidade está em “saber aproveitar a tendência para as empresas ocidentais montarem a sua cadeia de abastecimento com menos recurso a parceiros distantes ou de risco político mais acrescido”.

Já o tipo de matérias-primas que maior proveito podem tirar deste cenário, é definido por Diogo Teixeira, como ‘a million dollar question’. “Em termos daquilo que é o histórico das nossas exportações, cerca de 20% dizem respeito a minérios e metais. Se olharmos para o sector metalúrgico, acredito que de alguma forma este ano, possa conseguir manter-se. O sector dos químicos também poderá ter uma palavra a dizer”, salienta.

‘Vendar’ é a palavra-chave
Para encontrar um equílibrio entre vender e controlar os riscos, o responsável da AON afirma que o segredo está em ‘vendar’. “É algo que as empresas portuguesas têm de deixar de fazer, que é vender fácil, ou seja encontrar uma empresa que nos quer comprar, porque sabe que temos um bom produto ou solução, mas depois a empresa em si não tem capacidade para nos pagar a tempo e horas ou a própria seguradora a quem nós questionamos se essa entidade tem capacidade para ser nosso cliente e assumir o risco do crédito. E mesmo quando nos dizem que não, mesmo assim optamos por assumir essa venda”, explica.

Diogo Teixeira assume que o desafio passa por conseguir uma maior diversificação do risco, melhor prospeção de clientes e tentar vender mais a clientes que têm melhores condições de risco, do que aqueles que têm menos.

Outro dos principais desafios para 2023 é o segmento da mão de obra. “Em 2022, ainda assistimos às dificuldades de algumas empresas portuguesas em contratar e reter talento”, diz o responsável da AON, realçando, contudo, que face a todo o contexto económico a questão da retenção ou a dificuldade de manter a mão-de-obra em Portugal não será tão difícil, até porque a questão dos ordenados e da oferta já começa a ajustar-se. “Será um ano de transição e onde iremos verificar uma estabilização daquilo que é o mercado de trabalho”, conclui.

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