Mergulhar de corpo inteiro no Alkantara Festival 2022

O Festival Internacional de Artes Performativas Alkantara está de volta a Lisboa, de 11 a 27 de novembro, com espetáculos e projetos que, além de cruzarem novas práticas artísticas, dão voz e corpo às questões que a todos inquietam.

© Ôss, Júlio Silva Castro

O Festival Internacional de Artes Performativas Alkantara está aí ao virar da esquina para construir “pontes”, i.e., reflexões sobre temas que nos inquietam e desassossegam. Fazendo jus ao seu nome, alkantara, que significa ponte na língua árabe, propõe-se, uma vez mais, caminhar, observar, experimentar e questionar juntamente com o público, pondo em diálogo passado, presente e futuro.

De 11 a 27 de novembro, serão vários os palcos que, em Lisboa e junto ao rio, na margem sul do Tejo, vão acolher o Alkantara Festival 2022. A começar pelo espetáculo inaugural, “Sun & Sea”, galardoado com o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2019. É também um regresso à capital portuguesa das artistas lituanas Rugilė Barzdžiukaitė, Vaiva Grainytė e Lina Lapelytė, que em 2017 apresentaram “Have a Nice Day” no Teatro Maria Matos.

A partir de um andaime sobre o palco, assistimos de cima a uma ópera na praia: veraneantes que tomam banhos de sol, toalhas estendidas na areia, protetor solar, fatos de banho coloridos, guarda-sóis com desenhos de palmeiras, crianças e brinquedos de plástico. Por entre risos e conversas banais, um coro de canções quotidianas, canções de preocupação e de tédio, canções de quase nada, revelam o desconforto e a ansiedade provocada pelo colapso climático.

O alerta para a iminente catástrofe ambiental assinala o arranque do Alkantara, que também percorre o caminho da identidade e transição de género, pela mão e criatividade de Rosana Cade e Ivor MacAskill, que desde 2018 têm vindo a criar “O Making of do Pinóquio”, enquanto performance que acompanha a transição de género de Ivor.

Entre lúdico e político, humor ácido e intimidade, fantasia e realidade, o público irá desvendar a complexa e terna experiência autobiográfica do casal, entrelaçada com a construção (o making of) de diferentes perspetivas sobre a história mágica da pequena marioneta que anseia ser um “menino de verdade”.

Nos dias 12 a 14 de novembro, uma panela de cozer arroz, a Cuckoo, vai ser a protagonista da criação homónima. Jaha Koo conta-nos como a entrada na idade adulta foi marcada pela crise financeira do final dos anos 90. Comparável com o que se viveu em Portugal e outros países europeus em 2008, a crise financeira deu visibilidade a problemas como o desemprego jovem e a desigualdade social. A partir de Amsterdão, Jaha Koo testemunhou o aumento das taxas de suicídio, o grave afastamento social e a obsessão com a aparência pessoal que assolava amigos e colegas na Coreia do Sul. As suas conversas com as tagarelas Cuckoo vão, assim, proporcionar uma viagem pelos últimos vinte anos da história coreana.

“Sacrifício enquanto estou perdido na terra salgada”, da autoria do coreógrafo e bailarino Hooman Sharifi, questiona o que pode o sacrifício significar hoje? Juntando artistas que, tal como ele, também nasceram no Irão mas vivem maioritariamente na Europa e combinando a poesia iraniana e a língua farsi com “A Sagração da Primavera”, como inspiração livre, partirão em busca do que pode ser o sacrifício como movimento coletivo, através da dança.

Vânia Doutel Vaz leva ao Teatro Nacional D. Maria II, de 25 a 27 de novembro, um espetáculo a solo, “O Elefante no Meio da Sala”, que remete para uma expressão usada no quotidiano. Com maior ou menor imaginação, o certo é que um elefante no meio de uma sala é algo impossível de ignorar. Em cena, através do seu corpo e da sua voz, desafia o que é esperado de si, e joga com o que poderia ser diferente. E deixa no ar a pergunta: Que elefantes são estes que procuramos ignorar?

“Ôss” é como se diz osso em crioulo. Faz lembrar OSS, expressão comum entre os praticantes de karaté, que remete para ideias como pressionar, empurrar, suportar ou tolerar. Resulta do encontro entre Marlene Monteiro Freitas e a companhia Dançando com a Diferença, que promove a criação em dança trazendo para palco pessoas com e sem deficiência, sob a direção artística de Henrique Amoedo. Nesta peça, “Ôss”, performers da companhia exploram relações com partes dos seus corpos, a partir da matéria que lhes dá forma.

O Alkantara Festival dá continuidade ao trabalho desenvolvido pelo projeto Danças na Cidade, e assume-se como um festival internacional de dança, teatro, performance e encontros na cidade de Lisboa. Na sua terceira edição em formato anual, o Alkantara volta a promover conversas após o espetáculo, nas quais as equipas artísticas e convidados debatem as propostas apresentadas no festival, com moderação da investigadora palestiniana Shahd Wadi.

No âmbito da iniciativa “Portas Abertas”, a artista Sónia Baptista abre as portas do estúdio 1, dos Estúdios Vítor Cordón, no dia 24 de novembro, para mostrar um conjunto de pequenas coisas. Coisas que fazem o início do processo da sua próxima peça, com a qual regressará ao formato das peças curtas para habitar uma quinta estação do ano: o verão tardio.

A 26 de novembro é a vez de Flora Détraz abrir as portas do estúdio na Casa da Dança, em Almada, para mostrar uma etapa de criação de “HURLULA”, um concerto coreográfico com estreia marcada para 2023. No dia de encerramento do Alkantara Festival 2022, a 27 de novembro, Marco Mendonça abre as portas do estúdio do Espaço Alkantara para partilhar o seu processo de criação e a sua pesquisa para “Blackface”, que tem estreia marcada daqui a um ano.

Consulte aqui todas as informações sobre os espetáculos, festas, conversas com artistas e acessibilidade no festival.

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