“Metade das pessoas que precisam de apoio psicológico não têm meios para o conseguir”, alerta bastonário da Ordem dos Psicólogos

Começa esta quarta-feira em Aveiro o quinto congresso da Ordem, evento que servirá também para reforçar bandeiras “antigas”, como por exemplo a questão do reforço no número de psicólogos no SNS, situação que a nova gestão executiva terá que priorizar se houver vontade política, de acordo com a opinião do bastonário em entrevista ao JE.

Que desafios se colocam aos psicólogos portugueses num cenário de possível recessão que poderá colocar famílias e empresas numa situação muito difícil? Este será o mote da quinta edição do Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses que se inicia esta quarta-feira em Aveiro e que irá debater vários temas subordinados à temática da saúde mental. Em entrevista ao “Jornal Económico”, Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, aborda os temas que serão abordados ao longo destes três dias assim como alguns dos especialistas presentes. Evento servirá também para reforçar bandeiras “antigas” da Ordem, como por exemplo a questão do reforço no número de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde, situação que a nova gestão executiva do SNS terá que priorizar, de acordo com a opinião do bastonário em declarações ao JE.

O Congresso da Ordem dos Psicólogos acontece numa altura de grande incerteza, não só pela guerra na Ucrânia como os efeitos deste conflito na economia e no dia-a-dia das famílias e empresas. Que respostas para este cenário?

A intenção passa por percebermos como podemos melhorar as nossas práticas para respondermos melhor às necessidades das pessoas. Apesar de termos que reagir tantas vezes a emergências, esperemos que seja possível preparar o futuro da profissão para que continue a corresponder ao crescimento de procura que esta profissão tem vindo a ter. Esta guerra veio acentuar graves problemas que em alguns casos já existiam. No congresso vamos ter a presidente da Associação de Psicólogos Ucranianos para nos ajudar a perceber os desafios com que lidam estes colegas e de que forma podemos ajudar naquele que não é um problema dos ucranianos. Queremos dinamizar a interligação dos psicólogos com outros profissionais para perceber o comportamento das pessoas e isso pode marcar a diferença no sentido de caminhar para uma melhor definição de políticas públicas (que é algo que também vai estar debate). Outro debate passa por perceber a ligação entre a condição de pobreza e a saúde mental: sabemos que as carências financeiras interferem com a capacidade de tomar decisões diariamente.

Que mensagens é que este Congresso pode deixar a quem nos governa?

Há uma situação em que não há ninguém que diga que não está de acordo mas que não resolve de uma vez por todas. Todo o cenário que traçámos, e no que diz respeito à população portuguesa, 50% das pessoas que precisarem de algum tipo de apoio ao nível psicológico não têm meios para o conseguir. Ora, se a situação financeira se vai agravar, este problema vai ter uma dimensão ainda maior, tanto ao nível do impacto sobre estas pessoas como também de mais população que pode deixar de ter capacidade que ainda hoje têm. E isso acontece porque não temos a resposta mínima nos serviços públicos, ou seja, no Serviço Nacional de Saúde. Perante a situação atual e acautelando aquilo que será o futuro da população, deveria haver investimento na contratação de psicólogos para os centros de saúde. Isto teria impacto na capacidade de resposta já que temos apenas 300 psicólogos nos centros de saúde de todo o país. E com este número é impossível dar cobertura necessária.

Tendo em conta a criação da primeira direção-executiva para o SNS, espera alguma mudança nesse sentido?

Farei tudo o que estiver ao meu alcance para pressionar ou contribuir para que essa mudança aconteça. Sabemos muito pouco sobre aquilo que pode acontecer na prática. Sabemos que liderar o SNS é uma tarefa hercúlea… se for tratada como uma empresa, será de longe a maior do país mas com complexidades muito maiores do que a generalidade das empresas. De certeza que não é uma tarefa de um homem só apesar de em Portugal gostarmos muito de homens providenciais. Mais do que isso, precisamos de uma vontade política a começar pelo primeiro-ministro que tem permitido que situações como a do reforço dos psicólogos no SNS nunca tenham tido solução. Outra situação que tem de mudar passa pela micro-gestão feita pelo Ministério das Finanças e para continuarmos assim nem sei para que é preciso ministro da Saúde e outras pastas no Governo. Se um centro hospitalar que quer contratar profissionais tem que pedir autorização ao Ministério das Finanças, isto não é aceitável nem gerível.

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