COP21 – De olhos fechados para o óbvio

Foram duas semanas de negociações e um forte investimento num encontro que pretendeu acalmar as consciências dos chefes de Estado mundiais.


Notice: Undefined offset: 1 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Notice: Undefined offset: 2 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Da 21ª Cimeira do Clima em Paris surgiu um acordo que me levanta muitas preocupações em relação aos benefícios concretos para a continuidade da espécie humana.

Deste palco mediático de manifestas intenções e insuficientes compromissos vinculativos, fica claro que são os interesses financeiros que ditam as regras, mantendo mergulhados num mar de “cegueira consentida” os decisores mundiais; dinheiro versus futuro da humanidade, o primeiro manteve a precedência.

Vejamos: desde que, há algumas décadas, começou a ser estudado o fenómeno das alterações climáticas, que o foco de atenção mediático se centrou quase em exclusivo na contribuição da emissão de CO2. Sabíamos que o CO2 não estava sozinho mas estávamos longe de imaginar que um dos poluentes desde sempre identificado, o metano, acabaria por ter a dimensão que hoje lhe é reconhecida.

Os pesquisadores do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC) afirmam no seu Quinto Relatório, publicado em 2014, que estas emissões de metano, que provêm maioritariamente da indústria agropecuária, devem parar de crescer até 2019 (serem reduzidas em 70% até 2050 e reduzidas a zero até 2100) para que os efeitos dessa intensificação não produzam consequências catastróficas para a preservação dos sistemas vitais do planeta, com repercussão direta sobre a sociedade humana.

Para além da relutância que tem sido demonstrada pelos vários governos na redução das emissões de dióxido de carbono, mais recentemente demonstrou-se que o principal problema em termos de gases com efeito de estufa (GEE) não se encontra tanto no dióxido de carbono, mas mais no metano.

Nesta perspectiva, cientificamente comprovada, já não são o sector dos transportes, da energia ou da indústria os principais responsáveis pelas alterações climáticas, mas o sector da agropecuária e mais especificamente o sector da produção animal, que representa 51% da produção de gases de efeito de estufa.

Como se justifica que a conferência principal da cimeira COP21 não dedique qualquer atenção a este assunto? Este silêncio representa uma forte ameaça ao funcionamento democrático e esclarecido dos países, por apenas continuar a servir os interesses económicos de alguns grupos muito concretos.

E sobre o impacto da atividade pecuária responsável por 90% da desflorestação em todo o mundo para criar campos de cultivo de comida para animais, nomeadamente, soja transgénica… Enormes vazios em assuntos estruturantes com dimensões inimagináveis.

Os países mais pobres querem ser ricos, os países ditos desenvolvidos querem ficar mais ricos e todos mantêm esta “embriaguez ilusória” da riqueza a qualquer custo num sistema económico de crescimento contínuo num mundo de recursos finitos. O facto é que existem soluções reais para as mudanças climáticas e se os governos nada fizerem, continuamos a caminhar para o abismo. Temos que repensar o modo de produzir, distribuir e consumir alimentos sendo que uma alteração para padrões de produção locais, de consumo biológico e vegetal devem ser vistos com seriedade e sem dogmatismos para o bem da saúde pública e dos ecossistemas.

Nós por cá, a nível governamental, também partilhamos do estado de negação global, ou não estivéssemos já a pagar a factura das mudanças de posições políticas em relação às renováveis e à mobilidade eléctrica.

É urgente encarar este problema em todas as frentes, se queremos realmente ter algum impacto significativo, reduzir a produção animal em regime intensivo, investir fortemente na eficiência energética e continuar o investimento nas renováveis e no sector da mobilidade renovável.

É altura de descontinuar programas de construção de barragens que, já não têm qualquer impacto significativo na produção elétrica e que apenas contribuem para criar novos problemas ambientais. É altura de investir ainda mais no sector eólico coadjuvado pela produção e acumulação de hidrogénio. Isto permitirá “verdificar” de alguma forma o setor do gás natural e dar início à mobilidade com hidrogénio. Porque é que isto não está já a ser feito? A resposta é simples, a privatização do sector eléctrico faz com que considerações de interesse nacional tenham passado para segundo plano.

É altura de despertar e começar a olhar para o interesse nacional e para a realidade das alterações climáticas tal como se nos apresentam. Talvez seja tarde demais mas, pelo futuro de todos nós e do planeta, temos que agir. Sair da negação!

André Silva,
Porta-voz e deputado do PAN Pessoas – Animais – Natureza

Nota: Texto escrito pré acordo ortográfico

Recomendadas

Mudar o futuro coletivo

Os professores devem assumir um papel ativo nas novas abordagens pedagógicas. Só desta forma será possível responder às questões de fundo do século XXI.

O Orçamento do Estado para 2023 e as empresas

A proposta de Orçamento do Estado para 2023 vai ser conhecida no próximo mês e os temas relacionados com as empresas prometem ser um dos pontos fortes do documento, a começar por uma eventual descida do IRC.

Precisamos de notícias positivas

Os gestores têm de pensar se querem mais dívida dentro das empresas quando se espera uma redução da atividade económica no próximo ano