Michael Wade: “Há um enorme legado de fracasso” na transformação digital das empresas

O especialista estima que cerca de 87% dos processos de transformação digital falham, mas considera que as empresas não podem adiar os mesmos para sempre. Ainda assim, deixa uma ressalva às expetativas: há que avaliar necessidades e não correr atrás da tecnologia mais recente e sofisticada se não há motivo para tal.

É um dos mais influentes especialistas em transformação digital norte-americanos. Michael Wade conversou com o Jornal Económico (JE) um dia antes da sua participação no Congresso da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, que se realiza esta quarta e quinta-feira, sobre os principais obstáculos que as empresas encontram na hora de levar os processos de transformação digital a bom porto. “Há um enorme legado de fracasso”, considera Wade, em parte porque as empresas se focam demasiado na digitalização e não na transformação do modelo de negócio em si, que na sua opinião são coisas diferentes.

Para o professor de inovação e estratégia, a digitalização passa por pegar na “organização analógica, ineficiente e burocrática de hoje” e tentar digitalizá-la. Aqui, falamos de transitar os processos diários para o digital, abrindo portas a novos ritmos de eficiência e fluxo de trabalho, mas também modernizando e simplificando esse fluxo. Contudo, Michael Wade sublinha que é necessário executar simultaneamente a verdadeira transformação digital, “que passa mais por encontrar novas fontes de valor, novos modelos de negócio, novas fontes de receita”.

“Muitas vezes não é uma decisão de um ou outro”, avisa, “é uma decisão de fazer as duas coisas”. Sobretudo, é necessário que as organizações avaliem “a energia e os recursos” que colocam em cada um desses processos, porque eles exigem habilidades e capacidades “um pouco diferentes”, ressalva.

Quanto ao “legado de fracasso” que leva 87% dos processos de transformação digital a falhar, há outras causas a apontar e “muitos erros” cometidos em todo o percurso. “Um dos grandes erros é, na verdade, um pouco contraintuitivo, no sentido em que está demasiado concentrado no lado digital”, diz Wade.

“Ora, o digital é importante, claro. E não é facil. Mas muitas organizações estão atrás da tecnologia mais recente, sofisticada, dos objetos digitais brilhantes. Ao fazer isso, estão a subfocar e a subrepresentar a sua energia em alguns dos aspetos organizacionais da transformação”, destaca.

Michael Wade considera que as empresas que têm demasiada pressa em adotar novas ferramentas tecnológicas acabam por dar pouca atenção a outras componentes organizacionais que se revelam cruciais para o sucesso dessas modernizações. É o caso dos aspetos mais humanos, culturais e organizacionais, e não tanto o lado digital, assegura. Segundo Wade, o digital deve ser um facilitador e não uma solução imediata para problemas mais profundos da organização, que se prendem com outros aspetos, nomeadamente a inovação, a criatividade e a liderança.

“Todos esses são muito, muito importantes”, garante. “Eu diria que a primeira coisa que precisa de ser muito clara em qualquer transformação digital é o objetivo: por que se está a fazer isso? E, surpreendentemente, muitas empresas não fazem essa pergunta a si próprias. Apenas se atiram à digitalização sem realmente considerar por que estão a fazer isso.”

Para o especialista do IMD, as empresas sentem a pressão para adotar rapidamente novas tecnologias apenas porque as mesmas já circulam no mercado, ou “porque a sua concorrência está a fazer isso (…) ou porque os consultores lhes dizem para fazer isso. Mas elas não precisam necessariamente disso”, adianta. “Com certeza esse é um grande problema para as organizações hoje. Esse é um grande desafio”, sublinha. Já em 2017 referia em entrevista ao El País que não crê que os líderes tenham que ser especialistas em tecnologia.

Michael Wade deixa ainda considerações quanto aos timings para a transformação digital, que segundo o mesmo dependem de sector para sector, e pede às empresas que não sintam a urgência de a fazer que não a façam, pelo menos para já. No rol de desafios que se levantam nesta matéria, destaca as métricas mal aproveitadas pelos gestores e a dificuldade em corresponder às expetativas elevadas que o digital criou, particularmente no contexto pandémico.

O profissional dedica-se a prestar consultoria e apoio às organizações que encontram dificuldades nos seus processos de digitalização e transformação digital e foca-se nos erros cometidos no processo – erros esses que já serviram de mote para mais de dez livros e 100 estudos de caso. Atualmente, pertence ao conselho de administração de várias empresas e é diretor do Global Center for Digital Business Transformation do IMD.

A entrevista completa do especialista à JE TV ficará disponível na plataforma esta sexta-feira, 13 de maio.

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