Miguel Frasquilho: “É com o auxílio do Estado português que a TAP está a sobreviver”

O chairman da TAP, Miguel Frasquilho, deixou “um agradecimento ao povo português, porque, nesta altura é com o auxílio do Estado português que a TAP está a sobreviver”. A declaração foi feita durante o Webinar “Haverá retoma sem transporte aéreo?”, promovido pelo JE e pela consultora BDC.

Cristina Bernardo

“A TAP vai ter de mudar os hábitos e passar a ser rentável”, afirmou o chairman da transportadora aérea, Miguel Frasquilho, durante o Webinar “Haverá retoma sem transporte aéreo?”, promovido pelo JE e pela consultora BDC.

“Quero deixar de forma muito clara, enquanto chairman da companhia, um agradecimento ao povo português, porque, nesta altura é com o auxílio do Estado português que a TAP está a sobreviver”, esclareceu

Miguel Frasquilho diz que ouviu “com muita atenção os meus antecessores, nomeadamente os ‘mimos’ com que a Ryanair costuma dirigir-se à TAP, mas não tenciono responder com a mesma moeda, até porque os factos falam por si e sabe-se quais são as práticas que as companhias têm e portanto não valerá muito a pena responder no mesmo tom”.

Antes de falar sobre o futuro – “e o futuro de facto é o mais importante, porque nós não podemos mudar o passado, mas podemos de facto influenciar, com as nossas decisões e com aquilo que projetamos, podemos influenciar o futuro”, diz Miguel Frasquilho –, “convém não ignorar o que estamos a passar hoje”, sublinhou o chairman.

“O nosso presente é uma pandemia com efeitos absolutamente devastadores sobre o sector, que esteve desde o início da pandemia na linha da frente dos impactos que foram de facto muito negativos e diria que não há mais nenhum sector de atividade com o impacto brutal que o sector do transporta aéreo teve e verificou-se uma quebra extraordinária da procura, que praticamente se evaporou, desapareceu. Este ano para a TAP a procura vai andar na casa dos 30% do que tivemos em 2019 e isso levou-nos a que – tal como aconteceu com a esmagadora maioria das companhias aéreas por todo o mundo – tivéssemos de nos socorrer de auxílio financeiro, nomeadamente auxílios dos Estados em que as companhias aéreas estão sediadas e operam”, referiu Miguel Frasquilho.

“Não estou tão otimista”

Mas a TAP não foi exceção. De acordo com os números de Miguel Frasquilho, “os apoios estatais foram quase 150 mil milhões de euros até há poucos dias e revestiram-se de diversas formas, desde empréstimos diretos, apoios não reembolsáveis à manutenção de postos de trabalho, garantias públicas para financiamento no mercado, injeções de capital diretas, etc… Isto aconteceu um pouco por todo o lado. Isto veio quer ao abrigo do contexto Covid, quer ao abrigo do chamado rescue and restructuring onde a TAP foi inserida e, portanto, foi ao abrigo dessa condicionalidade que estamos a desenhar um plano de restruturação que, dado o contexto que estamos a viver em que a procura basicamente se evaporou e a retoma que a IATA projeta – e eu não estou tão otimista como alguns dos meus antecessores – é uma retoma bastante lenta. De acordo com a IATA, para o próximo ano vamos estar a cerca de 50% dos níveis de 2019”, refere Miguel Frasquilho.

“Nós, no plano de restruturação que elaborámos, fomos um pouco mais conservadores, sabendo que no fim do dia teremos de chegar a acordo com Bruxelas, com a Comissão Europeia, e para o ano estamos a prever um nível de procura dirigido à TAP que será 50% inferior aos níveis que tínhamos em 2019. Estamos a projetar que possamos chegar próximo dos níveis de atividade de 2019 no fim do horizonte do plano de restruturação, ou seja, por volta de 2025”, refere o chairman.

“Tivemos de ajustar a frota – é isso que vai acontecer – e vamos ficar com 88 aeronaves de passageiros, a que acrescem os três cargueiros que já estão em operação e tivemos que ajustar custos de forma transversal ao grupo, incluindo os custos laborais, mas esta restruturação era absolutamente necessária porque ela assegura a sobrevivência e a sustentabilidade da TAP”, assegura.

“A TAP vai mesmo ter de mudar os hábitos de apresentar resultados negativos como aconteceu na esmagadora maioria do seu passado. A TAP vai ter de ser rentável e vai ter de ser sustentável e é para isso que nós estamos a trabalhar com uma série de iniciativas que são transversais a todas as áreas da TAP e são transversais a todas as rubricas dos custos da TAP. Este é o ponto em que nós estamos hoje. E é com base neste plano também que estamos a projetar o futuro. A TAP continua a ser uma empresa muito importante – é a empresa que mais transporta visitantes para Portugal. Diga-se o que se disser, é assim”, refere Miguel Frasquilho.

“Quota de mercado da TAP no seu hub é de quase 50%”

“Não consigo compreender os dados que a eurodeputada Cláudia Monteiro Aguiar referiu sobre a quota de mercado da TAP no aeroporto de Lisboa, que não é de 18%. Mesmo neste ano, que é um ano profundamente atípico, a quota de mercado da TAP no seu hub é de quase 50% e no ano passado foi de mais de 50% como se sabe. Sabemos que o setor do transporte aéreo é absolutamente essencial à retoma. Mais de 90% dos visitantes que vieram a Portugal em 2019 chegaram ao país por via aérea. Isto diz tudo sobre a importância que a TAP tem. Por isso é natural que tenham existido estes apoios ao sector, o que aconteceu transversalmente em todos os continentes”, diz Miguel Frasquilho.

“De facto, se o sector do transporte aéreo não estiver disponível para quando a procura regressar – e ela irá regressar, aos poucos, ao longo dos próximos anos, se não existir um sector de transporte aéreo para transportar os visitantes, então a retoma seria seriamente condicionada e seria amputada deste que é o maior transportador. Para ultrapassar esta fase da pandemia e para sobreviver a esta fase é essencial que haja o investimento e o apoio que os Estados estão a fazer para segurarem as suas companhias aéreas”, refere ainda o chairman da TAP.

“Este é um sector que tem o maior efeito de spill over sobre a economia, porque afeta basicamente toda a atividade, não é só o turismo de lazer; é o turismo de negócios e toda a atividade económica é afetada pelo sector do transporte aéreo. Quanto ao caso da TAP, é uma empresa absolutamente crucial para o país. É, de facto, a empresa que mais transporta passageiros de e para Portugal. O apoio que o Estado está a conceder à TAP é justificado essencialmente porque ele é muitíssimo inferior ao que se perderia se a TAP fosse deixada cair e não fosse apoiada, porque nós temos de contabilizar em todos os anos o que a TAP contribui para a nossa economia”, refere.

“Todos os anos a TAP contribui muito para o PIB. Tem uma atividade de cerca de 2% do PIB; tem exportações de cerca de 2,6 mil milhões de euros, e manteve 9000 empregos diretos em 2019. É evidente que com o plano de restruturação esse volume de emprego irá descer. Nós identificámos já depois de todos os estudos e projeções um excesso de 2000 trabalhadores, mas se não fosse a alternativa ao plano de restruturação, seria a perda de 7000 postos de trabalho diretos e muitas dezenas de milhares de postos de trabalho indiretos, porque seria o desaparecimento da TAP”, adianta.

“Em 2019 fez entre 1,2 e 1,3 mil milhões de euros de compras a empresas nas mais variadas áreas. E ainda há o pagamento de impostos e contribuições. Penso que é isto que os portuguesas também querem. Quero deixar de forma muito clara, enquanto chairman da companhia, um agradecimento ao povo português, porque, esta altura, é com o auxílio do Estado português que a TAP está a sobreviver. Esta é uma nota otimista. A TAP tem todas as condições para recuperar. Nós estamos disponíveis para cooperar com os players do sector, e nomeadamente com aqueles que são portugueses”, referiu ainda Miguel Frasquilho.

A finalizar, o chairman da TAP referiu que a empresa “tem toda a disponibilidade e todo o gosto para cooperar com a euroAtlantic e com outras companhias, como por exemplo a SATA”, explicando que “essa cooperação já tem existido no passado – a nossa rota para Caracas era um voo TAP operado pela euroAtlantic. Depois a TAP foi impedida de voar para Caracas durante muitos meses e nesta altura os voos de e para Caracas estão extraordinariamente condicionados, como para outros destinos no mundo”, concluiu o chairman da TAP.

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