Milhões perdidos nas contas, como gotas a evaporar para o céu

Uma fatura superior a três mil milhões de euros para manter uma empresa tão emblemática quanto problemática talvez fosse coisa para ser discutida em assembleia geral.

A maldição começou a revelar-se na última década do século passado, poucos anos depois de “Blade Runner – Perigo Iminente” ajudar a elevar o estatuto até então reservado à ficção científica dentro da sétima arte. Houve quem tivesse reparado que muitas empresas que apareciam na Los Angeles de 2019, transposta para o grande ecrã e pequenas cassetes em 1982, a partir da imaginação de Philip K. Dick, permanentemente chuvosa e quase só iluminada pelo néon dos anúncios, começaram a fechar portas muito antes de haver replicantes a fazer trabalhos indesejados pelos humanos que conduziam automóveis voadores.

Depois do colapso da Atari, que à data da estreia do filme de Ridley Scott era um dos colossos da emergente indústria das consolas de jogos de vídeo, seguiram-se as desgraças da RCA ou da Bell, até que em 1991 a emblemática companhia aérea norte-americana Pan Am declarou bancarrota, realizando o derradeiro voo a 4 de dezembro.

Esse é um risco que não corre a TAP, pelo menos por enquanto, devido ao multimilionário pacote de reestruturação que foi aprovado pela Comissão Europeia. Tal como o ministro Pedro Nuno Santos vem repetindo, com indisfarçável regozijo, a companhia de bandeira portuguesa foi salva “in extremis”, levando em conta o seu contributo para a economia nacional e a manutenção do máximo de postos de trabalho possíveis.

Uma fatura superior a três mil milhões de euros para manter uma empresa tão emblemática quanto problemática talvez fosse coisa para ser discutida em ‘assembleia geral’, por muito que Pedro Nuno Santos e o resto do executivo socialista possam argumentar que os ‘acionistas’ – melhor dizendo, eleitores – sabiam ao que iam quando preencheram os boletins de voto num distante domingo de outubro de 2019 em que algo como a Covid-19 seria catalogado de ficção científica. Mas o ministro das Infraestruturas não pode ignorar que uma ajuda dessa dimensão seria sempre discutível, e ainda mais será nesta conjuntura de eleições legislativas na primeira folha do próximo calendário, tal como se já se começou a verificar numa altura em que os partidos se perfilam nas pistas à espera da descolagem.

Se no futuro houver retorno deste investimento público, quase como o tesouro no final do arco-íris do “vai ficar tudo bem” desenhado pelo detentor da tutela da TAP, tanto melhor será. Mas não é preciso ser-se um ultraliberal para reconhecer que as probabilidades de que tal venha a suceder não são assim tão grandes. Para o imaginário lusitano é decerto positivo que a companhia de bandeira não se junte à Alitalia, à Sabena ou à própria Pan Am no arquivo morto da aviação comercial, mas tal como o replicante Roy ensinou em “Blade Runner – Perigo Iminente” que “as memórias são momentos perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”, é bem possível que a ajuda pública agora aprovada não passe de milhões perdidos nas contas, como gotas a evaporar para o céu.

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