Ricardo Oliveira: “Mobilidade está a ser encarada como um serviço pago na proporção do que é consumido”

A mobilidade alterou o ecossistema do negócio do renting e o fundador da World Shopper afirma que a mobilidade passou a ser encarada “mais como um serviço (…), e menos (a) compra e gestão de um bem que assegure essa mobilidade”.

O aluguer de veículos ao minuto, ao dia ou ao mês reflete uma nova forma de olhar a mobilidade que se adapta às necessidades dos clientes. O renting tem, neste contexto, uma forte capacidade de expansão, assegura o fundador da World Shopper, Ricardo Oliveira. E na evolução da mobilidade há conceitos que falharam como tem sido o de “car sharing” no conceito “free-float”, mas a evolução evidencia que o “car sharing” pode avançar em núcleos de amigos e familiares e nas frotas das empresas. E para o futuro imediato do renting o gestor acredita que o mercado vai privilegiar o conceito de “carro-como–serviço” em detrimento da propriedade do mesmo.

Quais as principais mudanças na tendência de consumo no sector do renting?
O renting surgiu como um produto eminentemente dirigido às empresas e hoje seduz cada vez mais os particulares. Por um lado, as pessoas perceberam que, geralmente, se encontram num ciclo regular de troca de veículo e apreciam uma solução de pagamento desfasado sem entrada. Por outro, querem evitar a exposição a custos inesperados de manutenção e a fortes desvalorizações. Os particulares também se aperceberam que na compra e venda de um veículo não é necessariamente fácil fazer um “bom negócio”. Comprar um veículo implica um compromisso maior para o cliente, face a pagar para o utilizar durante um determinado prazo e distância. O nível de compromisso da compra em propriedade aumenta a responsabilidade da seleção exata do modelo a adquirir e exige maior dedicação de tempo ao processo de aquisição. No renting é tudo mais fácil e transparente: geralmente existem campanhas sobre modelos com configurações fechadas de equipamentos, a renda inclui impostos, manutenção e desvalorização do veículo e o processo de contratação ocorre, frequentemente, à distância.

É claro que todas estas vantagens têm um preço e muitos particulares ainda optam pela solução de uma aquisição através de um crédito tradicional, devido aos superiores encargos mensais associados ao renting. Mesmo assim começa a ser possível aceder a valores mais competitivos de rendas, através do crescimento do renting de veículos usados.

De que forma a mobilidade alterou o ecossistema deste negócio?
As gerações mais novas parecem estar mais focadas nos serviços prestados pelo automóvel, do que no produto em si. Além disso, o tempo e a conveniência passaram a ter cada vez maior valor nas sociedades modernas. Tudo isto contribui para que a mobilidade seja encarada mais como um serviço, que deverá ser pago na proporção em que é consumido, e menos na compra e gestão de um bem que assegure essa mobilidade. Os vários formatos de aluguer de veículos ao minuto, ao dia, ao mês e ao ano não são mais que diferentes formas de oferecer serviços de mobilidade adaptadas às necessidades de cada tipo de cliente. Este contexto parece-me ser favorável à expansão do renting.

Os veículos elétricos ainda são aposta de futuro, ou já são uma realidade do presente?
Os automóveis elétricos já são uma realidade do presente. Considerando os benefícios fiscais existentes, as opções dos 100% elétricos (BEV) e dos Plug-in Hybrid (PHEV) são praticamente incontornáveis para as empresas. A solução do renting é particularmente vantajosa nesta fase de transição energética, uma vez que há muitos clientes que ainda têm dúvidas em relação à fiabilidade das baterias e à desvalorização dos automóveis 100% elétricos. Optando pelo renting ficam menos expostos a eventuais riscos deste tipo.
Em relação ao tema da desvalorização, confesso que tenho uma opinião que não é muito consensual. Para além da enorme quantidade de novos lançamentos BEV e PHEV, dos vários anúncios do fim de comercialização de veículos a combustão, tanto por parte de fabricantes como de governantes europeus, temos cada vez mais clientes seduzidos pelos automóveis elétricos. E sinceramente penso que, a maior parte deles ainda não sabe quanto irá desejar ter um elétrico num futuro próximo. Dito isto, penso que as pessoas deviam de estar mais preocupadas com a desvalorização dos veículos a combustão.

O ‘sharing’ tem condições para ser um modelo de negócio a longo prazo?
Indo diretamente ao assunto: não me parece fácil rentabilizar um negócio de “Car Sharing”, sobretudo no conceito de “free-float” que dispensa a entrega dos automóveis em locais pré-definidos. Penso que a viabilidade deste negócio está diretamente relacionada com os custos de aquisição, manutenção e logística do tipo de veículos utilizados: um “Sharing” de e-scooters (trotinetas elétricas) deverá ser mais facilmente rentabilizável do que um sistema que utilize motociclos e, mais ainda, automóveis. Se o “Car Sharing” funcionar como forma de escoamento de determinados modelos que o mercado ainda tem dificuldade de absorver, as contas poderão ser diferentes.
Há outra vertente do “Car Sharing” que poderá funcionar, trata-se da partilha de automóveis entre núcleos de amigos e familiares e nas frotas das empresas. Esta solução é cada vez mais fácil de implementar graças aos avanços da tecnologia e à menor degradação dos veículos utilizados neste formato de partilha.

De que forma a pandemia afetou o sector e alterou os comportamentos de empresas e indivíduos?
Numa primeira fase da pandemia constatou-se que os veículos em renting estavam a percorrer menos quilómetros do que aqueles que tinham sido previamente contratados. Num contexto de incerteza generalizada, os operadores de renting prolongaram os contratos existentes. No segundo semestre de 2020 as vendas aumentaram mas depois, na sequência da crise dos semicondutores que afetou enormemente a capacidade de produção dos fabricantes de automóveis regressou a tendência da renovação dos contratos existentes.

Noutro plano, penso que a pandemia também fez com que o consumidor, tanto o particular como as empresas prefira soluções de mobilidade mais flexíveis e mais adaptadas ao ambiente de volatilidade que se instalou. O recurso intensivo às compras à distância durante a pandemia, também levou a que o consumidor passasse a procurar soluções mais simplificadas de aquisição ou utilização de automóveis. A contratação de um renting acaba por ser um processo essencialmente digital, por comparação com a compra tradicional de automóveis.

Quais as perspetivas de futuro para o renting a curto e médio prazo?
Os hábitos de compra parecem evoluir no sentido de privilegiar o “carro-como-serviço”, em detrimento da sua aquisição em propriedade. Os fabricantes de automóveis também parecem cada vez estar mais interessados em promover ciclos de troca mais curtos e frequentes. A velocidade de evolução tecnológica também aconselha a que não se dê prioridade à aquisição em propriedade.

Por outro lado, os fabricantes de automóveis estão cada vez mais a assumir-se como fornecedores de soluções de mobilidade. Os próprios concessionários estão, gradualmente, a mudar o seu negócio para se adaptar às novas necessidades de mobilidade. Desta forma parece-me que o renting, tal como outras soluções que proponham a mobilidade como um serviço, terá boas perspetivas de futuro. n

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