Mobilidade, sustentabilidade e o futuro das cidades

Mesmo sem cair na teia da futurologia, uma coisa é certa: entre resistências e receios, o carro vai continuar a perder protagonismo no futuro que se quer para as cidades.

Falar em conectividade, automação, partilha, descarbonização e mobilidade suave já não é um exercício de ficção científica aplicado aos transportes. E ainda bem, já que os vários exercícios de futurologia ao longo da história nos têm mostrado como somos pouco eficazes a antever o que se segue.

Durante o século XX, orientámos as cidades em função do automóvel. Capaz de encurtar distâncias e, consequentemente, permitir o acesso a mais em menos tempo, este meio ganhou terreno e ditou a urbanização das cidades. Em Portugal, por exemplo, existiam, em 2017, quase 620 carros por cada mil habitantes e, só em Lisboa, entravam diariamente 370 mil.

Hoje, assistimos a um apelo claro à utilização dos modos suaves e do transporte colectivo e à substituição das frotas automóvel convencionais por outras eléctricas. Motivos não faltam: a Organização Mundial de Saúde alerta para o facto de nove em cada dez pessoas respirarem ar poluído e, simultaneamente, todos os anos morrerem sete milhões de pessoas por causas diretamente relacionadas com a poluição.

A circulação automóvel é responsável por 20% das emissões de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera, sendo indiscutivelmente uma das variáveis que mais contribuiu para a realidade que descrevi anteriormente.

A descarbonização dos transportes representa um desafio complexo para a Europa e, em 2016, o sector era o maior consumidor de energia, representando 33% do total. Em 2009, a Comissão Europeia definiu como meta para 2020 uma quota de 10% de energias renováveis no sector, mas os progressos lentos no cumprimento desse objectivo conduziram a uma revisão da lei que atualizou essa meta para os 14% até 2030.

A boa notícia é que também não faltam alternativas com provas dadas para inverter este cenário. A micromobilidade está a tomar conta das ruas europeias e há opções para todos os gostos, a começar pelas trotinetes ou bicicletas, eléctricas e convencionais, em sistema partilhado ou não, passando pelos skates e hoverboards, até aos pogo sticks que nos levam aos saltos ao nosso destino.

No verão de 2018, as trotinetes da Lime chegaram à Europa e, poucos meses depois, também Lisboa conheceu esta nova alternativa de mobilidade. No primeiro ano de operação em Lisboa, foram feitas mais de 1,8 milhões de viagens nestas trotinetes, nas quais os utilizadores percorreram quase dois milhões de quilómetros. Ao todo, foi evitada a emissão de mais de 120 toneladas de CO2 para a atmosfera.

Os mais céticos põem em causa a durabilidade destes equipamentos e consequentemente, a sustentabilidade da sua operação. É natural que num novo sector, exista alguma desinformação, assim como também uma constante melhoria dos próprios produtos.

Importa, neste contexto, explicar que a expectativa de vida útil dos modelos mais recentes ultrapassa um ano de uso intensivo. Adicionalmente, o programa de reparação e reutilização que a Lime desenvolve, em termos globais, concentra-se em colocar as trotinetes em funcionamento sempre que possível.

Quando este período chega ao fim, 97% dos constituintes da trotinete são reutilizados noutras trotinetes, assim como 70% dos constituintes das baterias; os restantes componentes não recicláveis são transformados em componentes biodegradáveis que são utilizados como fonte de energia e matéria-prima para as trotinetes.

Por outro lado, há quem infira que o processo logístico de carregamento das baterias anula os benefícios ambientais das trotinetes. Também neste âmbito existem opções que permitem minimizar o impacto da operação para o ambiente, por exemplo as bicicletas de carga de que dispomos em Lisboa para apoiar a equipa responsável pela organização da frota na cidade.

Assim, considerando a expectativa de vida útil das trotinetes, o impacto positivo da frota é superior ao impacto que o processo logístico ainda apresenta para o ambiente.

Não vou arriscar fazer antevisões quanto ao futuro das cidades para não cair na teia da futurologia, mas uma coisa é certa: a mobilidade está a mudar. Entre resistências e receios, o carro vai continuar a perder protagonismo e vamos viver durante muitos anos com uma grande variedade de plataformas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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