Moedas avisa que fenómenos extremos vão-se repetir. Pede paciência até 2025

A normalidade na capital será retomada ao longo do dia, garante o presidente da autarquia, que avisa que fenómenos desta natureza se vão repetir. A solução passa por uma obra pública que só estará concluída em 2025. Trabalhos arrancam em março e pede-se “paciência” aos lisboetas.

Cristina Bernardo

No rescaldo de uma noite complicada em Lisboa, Carlos Moedas pede paciência aos munícipes e aponta para os tunéis de drenagem como a prioridade. A noite de quarta-feira foi marcada por mais de 300 ocorrências na capital na sequência das cheias rápidas que afetaram sobretudo as zonas baixas e que provocaram, pelo menos, uma vítima mortal em Algés.

“Foi uma noite muito difícil”, admitiu o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) esta manhã, num balanço feito aos jornalistas, onde assinala também danos materiais avultados.

“Choveram, entre as 17h00 da tarde a 01h00 da manhã 87 milímetros de água, algo que não se via desde 2014, mas nos últimos três meses tivemos três eventos desta natureza. As mudanças climáticas existem e estão para ficar”, salienta.

Por referência, e segundo dados do portal Climate Data, a precipitação média no mês de maior ocorrência de chuvas na capital (fevereiro) é de 84 milímetros. Isto significa que no espaço de oito horas choveu tanto em Lisboa como costuma chover no pior mês do ano.

Os danos materiais e humanos estão à vista, mas a normalidade será retomada nas próximas horas, garante o autarca. Ainda assim, os fenómenos extremos que ocorreram ontem no distrito vão voltar a acontecer. A solução, salienta Carlos Moedas, passa por escavar dois túneis que atravessam a cidade, uma “obra estrutural em Lisboa que pode mudar esta situação”, mas que já segue atrasada e que só estará pronta em 2025. Até lá, pede-se “paciência” aos lisboetas.

A aprovação do orçamento camarário, que se deu esta semana, “dá-nos a capacidade de começar já a obra do grande túnel de drenagem”, diz Carlos Moedas.

Os planos prevêem dois túneis de 5 quilómetros de comprimento e 5 metros de diâmetro, com um reservatório de 17 mil metros cúbicos, que irão drenar a água das chuvas entre Campolide e Santa Apolónia e entre Chelas e Beato. “Isto permite-nos estar preparados no futuro”, destaca o autarca.

“As pessoas têm que imaginar Lisboa como uma bacia”. Até 2025, data prevista para o fim das obras, “vamos ter que ter a capacidade de nos precaver e estarmos atentos e temos a nossa Proteção Civil preparada. Hoje estamos mais treinados, mas temos a cidade que temos. Foram cometidos erros nos últimos 15 a 20 anos”, garante Moedas.

À paciência pedida, soma-se a compreensão. As obras que arrancam em março, como o próprio autarca salientou durante a madrugada, terão um impacto muito grande na mobilidade da cidade. “É nesta obra que temos de nos concentrar. Não podemos resolver isto de um dia para o outro – isto só se resolve com os túneis”.

Túneis esses que, explica, foram pensados para as chamadas “chuvas de 100 anos”, fenómenos extremos que só ocorrem, em média, a cada século. Mas em Lisboa, desde outubro, ocorreram três vezes.

Numa nota final, o presidente da Câmara deixa agradecimentos às equipas de bombeiros, Proteção Civil e Polícia Municipal e pede aos lisboetas que evitem correr riscos desnecessários.

“Se esta manhã não encontrarem a vossa viatura, contactem a Polícia Municipal, que muitas delas foram rebocadas”, explica.

Os trabalhos prosseguem nas zonas mais complicadas – Campo Grande, Campo Pequeno e Alcântara – com ainda várias ocorrências de inundações em caves e estabelecimentos comerciais.

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