Moody’s duvida da capacidade da CGD de regressar aos lucros em breve

A Caixa reforçou o rácio de capital core para 12,3% em março. Mas persistem desafios ao banco liderado por Paulo Macedo.

Cristina Bernardo

A Moody’s acaba de lançar um relatório sobre a Caixa Geral de Depósitos. Nele Pepa Mori, Vice President – Senior Credit Officer da Moody’s, diz que apesar do reforço do rácio de capital resultado das operações de recapitalização já concretizadas, persistem desafios.

A Moodys duvida da capacidade de o banco regressar aos lucros nos próximos meses.

O capital regulatório em março ficou muito acima dos requisitos mínimos após as duas primeiras fases do plano de recapitalização, com um Common Equity Tier 1 de 12,3% face a 7% no final de Dezembro de 2016 e superior ao requisito do BCE, no âmbito do SREP, que é de 8,25% para o banco em 2017.

O reforço do capital foi consequência da conclusão das duas primeiras fases do plano de recapitalização da CGD, aprovado pela Comissão Europeia a 10 de Março de 2017 e visa uma profunda reestruturação das operações do banco, a fim de assegurar a sua rentabilidade e viabilidade a longo prazo.

Em 4 de Janeiro de 2017, o Estado concluiu a primeira fase da recapitalização da CGD. A saber: a conversão em acções de 900 milhões de euros dos títulos de capital contingente (mais 45,1 milhões de euros de juros vencidos e não pagos) e que o Governo português subscreveu em 2012; e a transferência de acções da ParCaixa (subsidiária que já era detida pela CGD a 51% mas ainda havia 49% nas mãos da empresa estatal Parpública-Participacões Públicas SGPS), para a CGD no valor de 490 milhões de euros.

A segunda etapa concluiu-se em 30 de março de 2017, com a emissão de novas acções ordinárias da CGD no valor de 2,5 mil milhões de euros subscritas pelo Governo e com a emissão de 500 milhões de euros de títulos AT1 financiados por investidores privados.

A fase final da recapitalização terá lugar antes de Setembro de 2018, com a emissão de instrumentos de capital AT1 no valor de 430 milhões de euros.

O banco espera aumentar o seu rácio de capital CET 1 acima de 14% até 2020, como parte do plano de reestruturação e plano de recapitalização aprovado. O objectivo de redução dos activos ponderados pelo risco (RWA) – base do rácio de capital, resultante da profunda reestruturação do balanço da CGD, contribuirá para atingir este objectivo.

“No entanto, continuamos preocupados com a capacidade do banco de voltar a lucrar nos próximos meses e, portanto, com a pressão que as perdas podem exercer sobre os níveis de capital recentemente recuperados da CGD”, alerta a Moody´s.

O banco tem estado a melhorar o risco dos ativos (RWA), mas ainda estão em níveis muito fracos, diz a agência de rating.

“Observamos que o risco dos ativos continuará a restringir o perfil de risco de crédito do banco. No final de Março de 2017, a CGD registou um rácio de morosidade de 15,4%, face a 15,8% no final de Dezembro de 2016, o que compara desfavoravelmente com os seus grandes pares europeus”, diz a Moody´s.

O banco prevê reduzir o rácio de crédito malparado (NPL) para 8% no final de seu plano estratégico 2017-2020.

“A nossa visão, é a de que a CGD será obrigada a alcançar uma redução significativa do seu rácio de crédito em incumprimento nos próximos 12 a 18 meses, na ausência de qualquer venda significativa de créditos malparados em carteira, tendo em conta as perspectivas económicas de crescimento modesto do país (ou seja, crescerá 1,7% em 2017 e 1,4% em 2018).

 Em termos de rácio de cobertura (ou seja, provisões para crédito em risco), o banco conseguiu manter um rácio globalmente estável nos 52,7% no primeiro trimestre, comparando favoravelmente com os outros bancos nacionais após o grande esforço de provisionamento realizado no segundo metade de 2016 (provisões para perdas de empréstimos de 2,4 mil milhões de euros em 2016 em comparação com 556 milhões em 2015).

O resultado antes provisões da CGD atingiu os 144 milhões de euros no final de março de 2017 depois de um prejuízo antes de provisões de 1,5 milhões de euros registados um ano antes.

Esta melhoria foi em grande parte impulsionada pelos 81 milhões de euros de ganhos de operações financeiras registados durante o trimestre, que representaram 16,5% do resultado operacional do banco. A margem financeira aumentou 18,4%, impulsionada pela forte redução de 28% nos custos de financiamento, mas foi compensada pelo crescimento de 16% nos custos operacionais.

No final de Março de 2017, a CGD registou encargos extraordinários no montante de 58 milhões de euros relacionados com o programa de reformas antecipadas, que faz parte das medidas de eficiência operacional reflectidas no plano de recapitalização.

A redução dos créditos em incumprimento resultou em menores provisões para crédito, embora as imparidades relacionadas a outros ativos tenham aumentado substancialmente, resultando num aumento total de provisões de 35% em relação ao ano anterior. Isto resultou num prejuízo líquido de 39 milhões de euros no final de Março de 2017.

“Para o resto de 2017, não esperamos uma reviravolta significativa na rentabilidade do banco, pois consideramos que as pressões que vêm do ambiente operacional, nomeadamente decorrentes de contínuos volumes de negócios moderados e de taxas de juros muito baixas, evitarão melhorias significativas no lucro operacional”, diz a agência . “Os custos de financiamento continuarão a diminuir, auxiliados pela continuada redução contínua dos juros dos depósitos”, diz a Moody´s.

“O resultado antes de provisões deverá melhorar à medida que o plano de reestruturação for implementado, mas estamos preocupados que estas melhorias levem algum tempo antes de serem plenamente visíveis, uma vez que a rentabilidade a curto e médio prazo é susceptível de ser afectada pelos encargos de reestruturação associados ao plano”, diz a agência no seu relatório.

“Além disso, o reembolso do CoCos em Janeiro de 2017 terá um impacto positivo trimestral de cerca de 20 milhões face a 2016”, acrescenta.

A agência elogia a componente liquidez da CGD. “A CGD continua a apresentar um bom perfil de liquidez e de financiamento. O rácio de crédito/depósitos foi de 88,1% no final de março de 2017 (de 88,5% no ano anterior). O financiamento do BCE foi de 3,5 mil milhões de euros ou o equivalente a 3,6% dos activos totais do banco, o que se compara favoravelmente à média do sistema de 5,9% na mesma data.

O Banco apresentou um Índice de Cobertura de Liquidez (LCR) de 229,7% no final de março de 2017 e o Índice de Financiamento Líquido Estável (NSFR) foi de 136,5% em relação ao mesmo período.

Sobre a emissão de dívida de elevada subordinação (AT1) colocada a juros muito altos (10,75%) diz que é  “o alto custo que a CGD tem de pagar pelo aumento no mercado do financiamento não garantido”

Este relatório é uma atualização para o mercado e não representa uma ação de notação.

(atualizada às 17:15)

 

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