Moody’s eleva rating da dívida sénior do BCP para “grau de investimento”

A Moody´s diz que levou em conta a melhoria dos indicadores de risco dos ativos do BCP, embora as exposições de incumprimento continuem elevadas e os seus níveis de capital modestos. A agência alerta que apesar da redução significativa nos últimos anos, o BCP continua a deter um grande stock de NPA, incluindo não só empréstimos, mas também um volume significativo de ativos imobiliários.

Cristina Bernardo

A Moody’s subiu os ratings de dívida sénior sem garantia ao Banco Comercial Português (BCP) para Baa3, isto é, para primeiro nível de grau de investimento (saiu de lixo). A perspectiva mantém-se estável.

Em comunicado a agência de rating revela que “elevou hoje os ratings de dívida sénior sem garantia, dos programas de dívida do Banco Comercial Português e das suas entidades apoiadas para Baa3/(P)Baa3 de Ba1/(P)Ba1”.

Ao mesmo tempo, a agência de rating “confirmou o Baseline Credit Assessment (BCA) do banco e o BCA Ajustado em ba2, bem como os ratings de depósito em Baa2/Prime-2; a classificação do programa júnior sénior sem garantia em (P)Ba2; a dívida subordinada com prazo e as notações do programa em Ba3/(P)Ba3; e a  classificação de suas ações preferenciais em B2(hyb)”. A perspectiva dos ratings de depósito de longo prazo e dívida sénior sem garantia permanece estável.

A Moody’s também confirmou a classificação atribuída ao “Counterparty Risk (CR) Assessment”  do banco em Baa2(cr)/Prime-2(cr) e os seus Ratings de Risco de Contraparte (CRR) em Baa2/Prime-2.

“A ação de rating de hoje reflete o anúncio do BCP de uma emissão significativa de instrumentos de capital para absorção de perdas de acordo com os requisitos regulamentares. Isso reduzirá a gravidade da perda para credores séniores sem garantia e para depositantes juniores, de acordo com a análise de Advanced Loss Given Failure (LGF) da Moody’s, que resulta numa subida de um grau dos ratings de dívida sénior sem garantia do BCP”, refere a agência.

Por sua vez, a manutenção do rating do Baseline Credit Assessment (BCA) do BCP em ba2 – uma medida de probabilidade de default excluindo suporte externo – reflete a melhoria dos indicadores de risco dos ativos do banco, embora as exposições de incumprimento continuem elevadas, e os seus níveis de capital modestos.

O perfil de risco do BCP é também condicionado pela exposição herdada de crédito à habitação em francos suíços na carteira da subsidiária polaca (Bank Millennium), que representava cerca de 4% do crédito bruto consolidado do BCP em dezembro de 2021, e que ainda expõe o banco a elevados riscos jurídicos e continuará a impactar negativamente a rentabilidade do BCP, em termos consolidados, em 2022.

BCP com elevado stock de NPA

Apesar de uma redução significativa nos últimos anos, o BCP continua a deter um grande stock de nonperforming assets (NPA), incluindo não só empréstimos, mas também um volume significativo de ativos imobiliários. O rácio de NPA do banco desceu para 5,9% no final de dezembro de 2021 face a 7,2% um ano antes, e o seu rácio de crédito mal parado (NPL) situou-se em 4,7%, ainda acima da média do sistema bancário português de 3,5% na mesma data.

As métricas de qualidade de ativos do BCP não foram afetadas pela perturbação económica causada pela pandemia até à data. No entanto, a Moody’s espera um abrandamento no ritmo de redução dos NPAs devido à retirada gradual das medidas de apoio público. Além disso, as pressões inflacionistas sobre o poder de compra das famílias e as margens das empresas também podem afetar a qualidade dos ativos do banco.

A Moody’s diz que os níveis de capital do BCP também melhoraram nos últimos anos, embora se mantenham modestos. A medida de capital preferida da Moody’s, o rácio de common equity tangível (TCE – Tangible Common Equity) sobre os activos ponderados pelo risco (RWAs), situava-se em 8,2% no final de Dezembro de 2021.

O banco reportou um rácio de  CET1 (na versão fully loaded) de 11,7% no final de 2021, abaixo dos 12,2% do ano anterior e bem acima do seu requisito regulamentar de 9,16% para 2022. Mas este rácio CET1 está ainda abaixo da meta do banco de 12,5% a ser atingida até 2024.

A rentabilidade do BCP continua fraca. O grupo reportou um lucro de 25 milhões de euros em 2021, abaixo dos 208 milhões de euros do ano anterior e equivalente a uma relação lucro/ativos tangíveis de 0,03%. “Este declínio acentuado foi impulsionado principalmente por provisões significativas para riscos legais sobre empréstimos concedidos em francos suíços registados no Bank Millennium.

A Moody’s espera que a rentabilidade do BCP continue a ser negativamente afetada pelas elevadas provisões exigidas nesta carteira de crédito denominados em francos suíços. No entanto, em 2022 o grupo ainda poderá compensar as perdas das suas operações internacionais com os lucros gerados nas atividades domésticas.

O rating BCA do BCP reflecte também a sua baixa dependência do financiamento do mercado monetário, embora venha a aumentar moderadamente devido a requisitos regulamentares, diz  a Moody’s.

“A actualização das notações de dívida sénior sem garantia do BCP para Baa3 a partir de Ba1 e a reafirmação das suas notações dos depósito a longo prazo em Baa2 reflecte, por um lado, a confirmação do rating BCA do banco e BCA Ajustado em Ba2; o resultado da análise LGF Avançada da agência de rating – que agora conduz à subida da notação dos depósitos em três notches e à elevação da notação de dívida sénior sem garantia (de um notche ) –; a Avaliação da Moody’s de uma probabilidade moderada de apoio governamental ao BCP, o que agora resulta numa elevação inalterada de um nível para a classificação da dívida sénior sem garantia e sem elevação para a classificação dos depósitos”, lê-se na análise.

A acção de notação baseia-se no pressuposto de que o BCP continuará a emitir dívida a fim de cumprir os seus Requisitos Mínimos de fundos próprios e Passivos Elegíveis (MREL) até 1 de Janeiro de 2024.

Os requisitos MREL para o BCP foram fixados pelo Conselho Único de Resolução em 27,29% do montante total da exposição ao risco. A Moody’s espera que o BCP complete com sucesso o seu plano de emissão a médio prazo, ao abrigo do qual o banco se comprometeu publicamente a emitir até 2,0 mil milhões de euros de instrumentos elegíveis para MREL até ao final de 2023.

Como resultado, a análise LGF avançada revista da Moody’s indica agora um baixo nível de perdas provocadas por falhas para os credores seniores sem garantia e um nível extremamente baixo de perdas por falhas para os depositantes, levando a uma subida de três graus e de um grau  do BCA e do BCA Ajustado, respectivamente.

A Moody’s não procedeu ainda a uma melhoria da notação dos depósitos a longo prazo do BCP, uma vez que a avaliação da agência quanto à probabilidade moderada de apoio governamental já está posicionada ao mesmo nível que a notação das obrigações do Estado Baa2 em Portugal.

“As perspectivas sobre o depósito a longo prazo do BCP e as notações de dívida sénior sem garantia permanecem estáveis, reflectindo a opinião da Moody’s de que a solvabilidade do banco será estável ao longo do horizonte de perspectivas”, destaca a agência.

O rating do BCP poderia ser melhorado em resultado de um declínio significativo do stock de activos problemáticos do banco, juntamente com uma melhor posição de capital e métricas de rentabilidade, diz a Moody’s.

Ao contrário, a avaliação da capacidade do banco se manter se ajuda externa (BCA) pode ser revista em baixa em resultado de um aumento do stock de NPAs e/ou de um agravamento da capacidade de absorção de riscos ou da rentabilidade do banco.

Quaisquer alterações ao BCA afectariam também provavelmente as notações da dívida e dos depósitos.

 

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