Morreu Jiang Zemin, ex-presidente e um dos construtores da China moderna

Foi um dos obreiros do crescimento económico da China e pretendeu construir um relacionamento estável com os Estados Unidos. Queria uma China a “entrar no mundo”.

Jiang Zemin, ex-presidente da China, morreu esta quarta-feira aos 96 anos. Foi nomeado secretário-geral do Partido Comunista Chinês em maio de 1989 num dos momentos mais difíceis da China pós-Mao: a turbulência da Praça Tiananmen. Colocava-se à China, nessa altura, um poderoso dilema: enveredar pela abertura que a ‘irmã’ desavinda União Soviética estava a seguir, ou, apesar de uma espécie de evolução na continuidade, manter firme o poder do PPC. A escolha, como se sabe, foi pela segunda via, e Zemin foi uma das figuras dio regime a partir de então.

Muito depois, em 2002, quando cedeu o lugar, a China era outro país: ocidentalizado em termos da economia e do nível de vida de uma parte da população, o modo de vida dos chineses era também muito diferente. A China estava no caminho para tornar-se a maior economia do mundo, e os chineses começavam a sentir a diferença. Também não era difícil: ainda nos anos 80 do século passado, o país era eminentemente agrícola – e a pouca indústria que por lá existia pertencia ou trabalhava quase em exclusivo para grandes empresas ocidentais – que assim aproveitavam a mão de obra inacreditavelmente barata e a inexistência de leis do trabalho dignas desse nome. Eram frequentes as queixas de grupos de defesa dos direitos humanos sobre as condições de trabalho que empresas como a Adidas impunham aos chineses. Mas as grandes queixas só se dariam mais tarde, quando esse contingente escapou das mãos das empresas ocidentais e passou a ser explorada pela própria China – aí sim, os grupos ocidentais passaram a olhar para os direitos humanos dos explorados chineses!

No seu discurso de despedida, no 16º congresso do partido, em novembro de 2002, Jiang Zemin como que fechou o desmantelamento da China maoista iniciado por Deng Xiaoping  – o ‘autor’ da China pós-moderna. O partido perseguia agora objetivos da prosperidade nacional através do avanço das forças produtivas, promovendo a cultura nacional e defendendo os interesses fundamentais do povo chinês. Mas não era o fim do vaticinaram: era apenas a chegada da China ao capitalismo de Estado – afinal, a fórmula leninista que Vladimir Ilyich acrescentara ao marxismo mais de cem anos antes.

Considerado um manipulador político astuto, Jiang Zemin não perdeu, ao retirar-se, o poder. Dizem os historiadores que o seu sucessor, Hu Jintao, teve de gerir a sua herança, que não seria tão pequena e de trabalhar duro para, aos poucos, retirar das cadeiras do poder o ‘séquito’ do antecessor – o que só conseguiria em 2007.

Jiang Zemin pertencia à ‘terceira geração’, composta pelos líderes que se juntaram à revolução de Mao na década de 1940, já depois da Longa Marcha e durante ou logo após a derrota do Japão. Nascido em Yangzhou, da sua biografia consta que o seu pai o obrigou a aprender textos clássicos chineses, mas derivou para o Ocidente: apreciava Schubert e Beethoven e a língua inglesa não lhe era totalmente estranha. Estudante de engenharia, juntou-se ao partido na Xangai pós-guerra em 1946, ainda durante o governo nacionalista de Chiang Kai-shek (Kuomintang), que haveria de fugir para Taiwan em 1949.

Em 1954, estava em Pequim para ajudar a elaborar um plano para o primeiro Ministério da Indústria. Nesse quadro, foi enviado para por um ano para a fábrica de automóveis Stalin, em Moscovo, numa tentativa de transferência de conhecimento que José Estaline manteve sempre em baixa intensidade: o que a China queria mesmo era a tecnologia da bomba atómica, mas o líder do Kremlin nunca fez essa vontade a Mao Tsé-tung.

Quando a China embarcou na reforma económica após a morte de Mao (1976), Jiang Zemin parecia uma escolha natural para a área do comércio externo e para o arranque das novas zonas económicas especiais na costa sul. Em 1982, era ministro da Eletrónica e supervisionou o lançamento do primeiro satélite de comunicações da China. Três anos depois, era governador de Xangai, a cidade que fazia a síntese entre os interesses ocidentais e a vontade de desenvolvimento da China. A sua figura estava lançada.

Promovido ao politburo em 1987, como parte de uma seleção de novas figuras, foi secretamente convocado por Deng Xiaoping para se preparar para o cargo de secretário-geral do partido, em substituição de Zhao Ziyang – um adepto da abertura forçada na Praça Tiananmen. A partir daí, Jiang Zemin personificou as reformas económicas lançadas por Deng Xiaoping e foi nessa cadeira que ‘ganhou’ alguns amigos no Ocidente, entre eles Bill Clinton, na altura presidente dos Estados Unidos.

“Ele pode imaginar um futuro diferente do presente”, disse Clinton de Zemin. Na altura, parecia possível, aceitável e conveniente que as duas economias trabalhassem em conjunto no crescimento paralelo.

Em fevereiro de 1997, Deng Xiaoping desapareceu e o partido parecia ir com ele: a corrupção profunda instalou-se e os alicerces do regime, incólumes a Tiananmen, abalaram fortemente. Foi a vez de Zemin: a resposta à onda de corrupção que ameaçava minar o partido teve de ser imposta. Seria essa a estratégia do partido para o novo milénio.

Mas esse novo milénio trouxe um novo desafio: o novo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deixou claro desde a primeira hora que o relacionamento com a China seria de “competição estratégica” e não de cooperação. A partir daí, tudo mudaria – inclusivamente no interior do poder do partido e, por osmose, no topo da hierarquia do Estado. Era a ‘deixa’ para Zemin se retirar, o que acabaria por acontecer em pouco tempo – não sem antes, na sequência do dos ataques de 11 de setembro de 2001, ter garantido a Bush que a China estava ao seu lado na “guerra ao terror”.

Mas não o fez totalmente: renunciado à liderança do partido em 2002 e à presidência do Estado em 2003, mas manteve-se como chefe da comissão militar central. Foi uma inquietação. Desnecessária: em setembro de 2004, também renunciaria a essa função. A sua última presença mediática foi no 17º congresso do partido em 2007: era a despedida. Depois disso, Jiang Zemin raramente aparecia em público devido a problemas de saúde. Jiang deixa a, Wang Yeping, com quem se casou em 1949, e os filhos, Mengheng e Mengkang.

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