Mostrar amor à camisola para quê?

Neste momento, a única certeza que temos é que há um cancro de insatisfação a alastrar por todo o mundo do trabalho, incapaz de dar respostas às necessidades da sociedade.

É uma verdade universalmente conhecida que, durante os dois anos da pandemia, a nossa relação com o trabalho foi duramente testada e fez-nos refletir, mais do que nunca, como esse trabalho tem ocupado as nossas vidas de formas pouco saudáveis. Começou com o fenómeno conhecido por “Great Resignation”, que fez com que muitos (especialmente nos EUA) largassem os seus empregos e se reinventassem em busca de um maior equilíbrio entre a vida profissional e familiar. Agora, em parte graças à geração Z, descobrimos uma nova tendência amplificada pela rede social TikTok, a que se chamou “the Quiet Quitting” ou “Demissão Silenciosa”.

Há várias formas de olharmos para esta tendência. À primeira vista, poderíamos qualificar essa demissão silenciosa como uma forma de o trabalhador cumprir apenas o estipulado, sem a pressão psicológica de provar perante a entidade patronal que se dedica de corpo e alma à empresa. Ninguém está a demitir-se, simplesmente não serão dadas mais horas além do necessário.

Mas sejamos francos. A demissão silenciosa poderá servir perfeitamente para um mundo de trabalho qualificado em sociedades ocidentais mas, em muitos países, algo como a demissão silenciosa é simplesmente meio passo andado para perder o emprego. Ninguém é insubstituível na atual grande geringonça capitalista.

O que vale realmente a pena abordar é aquilo que está na raiz da insatisfação das novas gerações. Consideremos o facto de a geração Z não ter tido ainda direito a um único período de estabilidade para o qual possa olhar com nostalgia. Só neste século, começámos com a entrada no Euro e crises políticas e económicas portuguesas, numa conjuntura internacional dramática, marcada pelo 11 de Setembro, a guerra do Iraque, a recessão de 2008, a crise das dívidas soberanas e o período de austeridade, a que se veio somar a eleição de Donald Trump, o Brexit, a ascensão do nacionalismo populista, incluindo Portugal, dois anos de pandemia.

Mais. Agora, agrava-se a crise climática e enfrentamos uma nova Guerra Fria (bem como guerras por procuração). Crescer neste ambiente de instabilidade permanente e ainda exigir dos jovens que ajam como se o mundo tivesse parado na década de 90, e tivessem a obrigação de manter as convenções de trabalho usadas pelas gerações anteriores, não só é absurdo como irrealista.

A crise permanente, com todas as suas consequências, leva-nos a equacionar novas relações com o trabalho e o valor desse trabalho. Abre-nos os olhos para as enormes desigualdades que se agravam, numa fase em que grande parte do trabalho está destinado a ser automatizado, deixando muitas pessoas numa posição vulnerável. Para aqueles com trabalhos qualificados que conseguem evitar a automação, o valor do trabalho deixa de estar diretamente relacionado com o número de horas em que estamos presos ao computador.

Há toda uma nova visão que está a começar a ser implementada nas empresas, mais descontraída e menos predadora, conferindo maior autonomia e salários justos. Resta saber se, atualmente, essas são a maioria ou a minoria… A única certeza que temos é que há um cancro de insatisfação a alastrar por todo o mundo do trabalho, incapaz de dar respostas às necessidades da sociedade. Tendências como demissões silenciosas mostram esse alastrar, mas ainda não temos as soluções certas na mão. E precisamos delas com urgência.

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