Mulheres nas tecnológicas recusam discriminação positiva para aumentar representatividade

As colaboradoras preferem que as organizações estabeleçam planos de ação que faça com que as empresas alcançarem os objetivos definidos, aponta o estudo da Portuguese Women in Tech, Polar Insight e Deloitte. O JE falou com as autoras do relatório. “A última coisa que querem é ouvir dos colegas é que só estão ali porque são «a quota»”, diz Beatriz Renault.

As mulheres que trabalham nas empresas tecnológicas em Portugal não querem que a discriminação positiva seja uma das soluções para aumentar a representatividade de género nestas empresas e diminuir a diferença de género no acesso aos cargos de topo. Ou seja, a nível organizacional, as profissionais pretendem que as políticas de quotas sejam transformadas em metas – na definição de um plano de ação concreto que faça com que se alcancem os objetivos definidos.

A conclusão é do estudo “Pioneers”, elaborado pela plataforma Portuguese Women in Tech (PWIT) com o apoio da Polar Insight e o financiamento da Deloitte. O relatório, que envolveu inquéritos e entrevistas a mais de 500 mulheres na área tecnológica nacional, perfilou as empresárias e colaboradoras e demonstrou que uma percentagem significativa se encontra em funções de gestão (13%), consultoria (12,1%) ou dados (12,6%). Da amostra, só 0,8% é investidora e 1,3% é fundadora ou cofundadora.

Os autores do estudo aperceberam-se ainda de que quanto mais alto é o nível hierárquico que estas profissionais tech ocupam, menor é a representatividade do género feminino.”Para as mulheres, as empresas ideais são as que oferecem oportunidades de crescimento profissional e aprendizagem, remuneração competitiva com o mercado e implementam práticas que promovem o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional”, pode ler-se no documento.

O tema da promoção da igualdade de género é um tema sensível que rapidamente gera desconfiança, quer nos homens quer nas mulheres. Uma comunicação clara, transparente e constante do plano de acção e dos seus objetivos é essencial para as empresas conseguirem ser bem sucedidas nesta vertente – Inês Santos Silva, cofundadora da comunidade PWIT

Em entrevista ao Jornal Económico, – Inês Santos Silva, cofundadora da comunidade PWIT, e Beatriz Renault, investigadora de Utilizador da Polar Insight, confessam que o que mais as surpreendeu nos resultados foi o desconhecimento sobre iniciativas nas universidades e nas empresas que promovem mais mulheres na tecnologia e o peso que as consequências da falta de representação (como a discriminação, a falta de reconhecimento e de igualdade) ainda têm. “Ou seja, já se sentem menos capazes, já sentem falta de confiança, e já sentem falta de reconhecimento. Já ouvem piadas sexistas e comentários grosseiros. Já têm a sua opinião técnica constantemente questionada. A última coisa que querem é ouvir dos colegas é que só estão ali porque são «a quota»”, afirma Beatriz Renault ao JE.

Segundo a Polar Insight, existe pouca mobilidade de talento no mercado de trabalho português: 47,2% dos trabalhadores (homens e mulheres, em diferentes segmentos) exercem o seu trabalho atual há mais de cinco anos. “Portanto, acredito que 45% das mulheres que trabalham na área de Tecnologias da Informação [TI] não estão à procura de um novo emprego porque fazem parte de uma cultura em que é natural que se fique longos anos a trabalhar para a mesma empresa”, refere Beatriz Renault.

De acordo com esta análise, 38% das mulheres na tecnologiajá sentiu que ganhava menos que os seus pares apenas por ser do sexo feminino e quase metade (49%) considera que houve discriminação nas promoções. Para Teresa Nascimento, responsável de Recursos Humanos da Deloitte Portugal, a mudança de paradigma implica apostar em três aspetos fundamentais: no tipo de trabalho, na gestão de equipas e na adaptação dos próprios espaços de trabalho. “Já não é apenas a empresa a escolher os seus profissionais. São também os próprios que escolhem as empresas onde querem trabalhar. As estratégias de atração e retenção de talento passam por nos adaptarmos às ambições, expectativas e desafios das nossas pessoas”, refere a porta-voz da consultora.

Portugal é um país-âncora na atração de investimento estrangeiro na área das tecnologias de informação, e, como sabemos, são vários os exemplos de gigantes globais que escolhem o nosso país para abrir operação, criando centenas de postos de trabalho. No entanto, a procura não acompanha a oferta, o que significa que temos um caminho a percorrer na atração e retenção – Teresa Nascimento, responsável de Recursos Humanos da Deloitte Portugal

Notícia atualizada às 12h39

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