“A música para mim é a existência”

Em entrevista ao “Jornal Económico”, Rui Massena fala com entusiasmo sobre o seu percurso musical e acerca de “Emsemble”, o álbum mais recente que vai apresentar nos Coliseus.

DR

Como caracteriza “Ensemble”, o seu mais recente trabalho?
É completamente diferente do primeiro álbum a solo. Continuo ao piano, continua o registo da tranquilidade, mas tem orquestra de cordas dentro. A orquestra é o meu mundo também, a minha formação e o meu gosto.

Em que medida isso altera a organização do trabalho?
Altera na base: deixo de estar sozinho ao piano para estar com 12 músicos. Sob o ponto de vista musical altera porque o “Ensemble” tem a ver com a introdução das pessoas que trazem a emoção. Esta ouve-se na música, faz com que as pessoas a sintam, portanto, mais pessoas a tocar, mais emoção dentro.

Como são as músicas do álbum?
O meu primeiro e segundo álbuns, se o posso resumir, têm muito a ver com a minha busca do conhecimento e da minha identidade. Neste álbum há algumas palavras que me fazem falta como o “Abraço”, sob o ponto de vista afetivo, com que começa o disco; a “Valsa”, que o fecha, é a música número 13, da sorte ou do azar e que, no fundo, é um convite a dançar, não sendo fácil dançar sobre tudo o que acontece; o “Renascer” tem a ver com o exercício diário de renascer, algo difícil porque a vida cansa-nos e é precisa coragem; a “Liberdade” no sentido da pergunta que temos de fazer no mundo de hoje sobre como tratar a liberdade, o que ela é e tudo o que representa, como nos relacionamos com esses valores; “Alento”, o balanço entre positivo e negativo; “Borboleta”, a ideia de conseguirmos viver num dia só, rápido e bem. No fundo são palavras-chave que encontrei e me motivam a sublimar, através da música, o que sinto.

Por que razão escolheu a música e o piano?
Não escolhi, só me lembro de os meus pais me porem a tocar piano aos seis anos e, desde aí, nunca mais fiquei longe do piano, nem longe da música. A música para mim é um ato natural, não é pensado, é a existência.

Como foi a experiência de aprendizagem com César Morais e Maria José Morais?
Muito boa, o pai compositor e a filha pianista são excelentes profissionais. Foi boa porque, se não desisti, alguma razão existiu, pois os professores têm força muito marcante na vida dos alunos.

O que é essencial para ser um grande pianista e maestro?
De formação sou maestro, ao piano só toco as minhas composições. Como maestro interpreto Beethoven, Chopin, Liszt, Brahms, o que for. Gosto de me ver como compositor e como maestro. A liderança musical precisa de muita disciplina e muito rigor. Depois precisa de grande dose de confiança nas pessoas. É preciso juntar estes dois pontos com muita mestria para que o projeto musical aconteça.

Como recorda a experiência de trabalho na Madeira?
Muito bem. Foram anos essenciais na minha vida. Gostei muito de lá viver e as vivências pessoais trazem harmonia interior para se materializar na música. Foi um projeto que me desenvolveu imenso enquanto artista e como pessoa. Fiquei com um amor enorme àquela ilha, na verdade faz parte de mim, quando aparece um raio de sol lembro-me da Madeira. Tenho memórias muito fortes de lá e muito respeito pela Orquestra Clássica da Madeira que, salvo erro, é com a da Gulbenkian a segunda mais antiga do país. É uma instituição muito bonita que faz um trabalho importantíssimo na aculturação daquela ilha.

Ficou surpreendido, como programador, com o enorme sucesso que foi Guimarães Capital Europeia da Cultura?
Sempre que parto para um concerto, uma entrevista, o que quer que seja, tenho um pensamento muito positivo, nunca penso nas coisas para perder. O que está a dizer é que Guimarães se comunicou muito bem e o projeto era muito bom. Na área da música, aquele por que fui responsável, foi bem pensado, de dentro para fora, com mais de 90% de programação portuguesa. Isso foi identidade produzida em Guimarães para a Europa. Além disso, havia a Fundação Orquestra Estúdio que trazia músicos de 22 nacionalidades europeias e disse à cidade que tinha capacidade para produzir música a este nível. E Guimarães orgulhou-se da sua orquestra.

E o “Música, Maestro”? Como o situa no seu percurso?
Para não ser eu a situar deixo que seja o concurso Rose d’Or, em Berlim, no qual fomos finalistas com projetos inglês e francês – em 55 anos penso que foi a primeira vez que isso aconteceu com as televisões inter-estatais. Considerou que fora um grande projeto sociológico, pois aproximou a grande música da comunidade. É que a grande música, como a grande literatura, a grande pintura, a grande arte, muitas vezes tem dificuldade de se explicar e de acesso, necessitando de abordagens afetivas. Foi isso que aconteceu.

Esteve dois anos como maestro principal convidado na Orquestra Sinfónica de Roma: esse contacto foi essencial?
Essa orquestra e quase outras 30 que fui dirigindo fazem com que nos possamos situar no plano cultural e isso muda a nossa abordagem, a nossa tolerância. Dirigir uma orquestra na Finlândia é diferente de fazê-lo nos Estados Unidos. Temos de nos adaptar e essa adaptação faz com que saibamos olhar diferentes geografias culturais de forma livre e gostar delas. Isso ajuda na música e a sermos nós, portugueses. Ajuda a crescer.

Foi o primeiro português a dirigir no Carnegie Hall: como o recorda?
É uma experiência de acústica perfeita; de uma orquestra em que, no ensaio geral, não precisei de dizer uma palavra para que os músicos se adaptassem à acústica; de trabalho a alto nível. E, se é muito exigente, é muito compensador porque estamos a trabalhar no detalhe. Quando se consegue chegar a isso, é estar o mais próximo possível da perfeição. E depois porque o nosso imaginário da vida (Berlim, Nova Iorque, Los Angeles, Londres) tem sempre esta magia que é sentirmo-nos no centro do mundo. Tinha 35 anos, foi numa altura do percurso em que precisamos de certezas sobre nós próprios. Aquilo é uma prova, é preciso ultrapassá-la e, quando se ultrapassa, uma pessoa sente-se melhor por isso.

As colaborações musicais que tem mantido são fulcrais?
É olhar a música sem barreiras, sem fronteiras, e ter prazer nas várias geografias musicais. É ter prazer na identidade do hip hop, do clássico, do jazz, e acumular conhecimento através disso. Fiz sempre isso em contexto de programador, de aproximação da população à instituição que estava a representar. Abracei a população e dei a conhecer a orquestra. Foi puro prazer e cruzamento artístico, dando a perceber às pessoas que a orquestra é um instrumento para fazer música e pode tocar qualquer uma, desde que seja bem feita.

Há algum compositor que prefira?
Tenho vários. Mozart é um compositor que acumula características que admiro muito: harmonia funcional, sabe bem, é bom, dá prazer. Depois tem a irreverência de, à época, sair, pensar de fora, não querer ficar na corte, dependente de um salário, e ir à procura do mundo. Mas, falando em música, adoro Stravinsky, Ravel, Debussy. Gosto muito de Wagner, de Bruckner, de Brahms…

É abrangente?
Sim, porque não consigo eleger – consigo eleger períodos, não um compositor.

Onde se encaixam as suas palestras sobre liderança: correm paralelas à música?
Isso é um posicionamento muito interessante, pois penso que devemos ser tudo aquilo que quisermos. Há várias personagens dentro de nós e tenho um lado da comunicação pelo qual sinto grande apelo, é uma forma de me perceber a mim próprio e ao mundo. Nestas conferências partilho a minha experiência de direção e de liderança, portanto, a minha perceção do mundo.

O maestro Vitorino d’Almeida disse que o Rui é um dos músicos mais importantes da sua geração. Isso representa um peso ou uma forma de gratificação?
Tenho enorme respeito pelo maestro por ser um grande divulgador do que gosta. Eu também gosto muito de divulgar aquilo que aprecio – estou apaixonado e gosto de dizê-lo. Não sinto particular responsabilidade, mas uma pequenina missão e um apelo interior de não deixar emagrecer o entendimento da sociedade, dentro da minha perspetiva, daquilo que uma pessoa pode mudar o mundo. Caso contrário, qualquer dia só consumimos plástico.

É surpreendente a dose de sucesso que atingiu de modo rápido?
Não sei se foi rápido. Comecei a estudar com seis anos, a trabalhar com 15/16, tenho 43: quando dou conta de que, só a partir da direção de orquestra, já foram 16 anos, não sei o que é lento ou rápido. Sei que continuo a trabalhar muito para que as coisas me aconteçam. Gosto de manter boa relação com a vida e esse é o grande percurso de cada um de nós.

Diz-se nos meios desportivos que um guarda-redes só atinge a plenitude depois de sofrer mil golos. Não lhe pergunto se um maestro só atinge o auge depois de mil concertos…
Mas faz sentido…

Quando é que um maestro atinge a plenitude das suas capacidades?
Sob o ponto de vista da utopia, nunca. Porque em cada obra, à medida que se faz mais uma vez, vamos ouvindo coisas novas e assim será até ao fim da vida. Do ponto de vista do maestro homem, a idade é um posto, o número de horas tocadas, em orquestra, vividas em concerto, a quantidade de perceções, muda. Entre os 50 e os 60 anos talvez se consiga conjugar bem o conhecimento e a disponibilidade física para, com um mínimo de esforço, ter máximo rendimento

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