Na ‘silly season’, falemos de turismo

A atividade informal, que assola o turismo português, tem impactos negativos na atividade económica como um todo e cria um estigma em relação ao turismo.

Quem planear passar férias ao Sul de Portugal por estes dias, deve ir preparado para enfrentar o rasto de destruição que parece alastrar-se pelo sistema de pagamentos automáticos de muitos estabelecimentos de comércio. Em muitas portas encontrará uma impressão em folha de papel A4 do aviso “Multibanco temporariamente fora de serviço”.

Para quem não saiba ler português – nada improvável numa zona turística –, a imagem de um trapézio com boca e braços descaídos acompanhados por uma cruz vermelha indica a mesma indisponibilidade. E desenganem-se os incautos, porque métodos mais modernos como MBWay, Apple, Google ou Samsung Pay, entre outros, também estarão afetados pela mesma maleita. Uma parte do país decidiu enfrentar a marcha do tempo.

Mas nem tudo estará perdido já que, numa simbiose perfeita entre modernidade e retrocesso, a cada esquina da mais pequena povoação, deparará com um terminal ATM daqueles que, certamente antecipando as grandes necessidades que caracterizam o período de férias, só permitem levantar múltiplos de 50 euros.

Numa época em que se prepara a introdução do euro digital e em que os pagamentos automáticos são sinal de progresso, comodidade e segurança, o que poderá motivar a generalização destas práticas retrógradas?

Muitos comerciantes apontarão a culpa às taxas de serviço que são cobradas nos pagamentos automáticos e que são proporcionalmente mais altas para montantes mais baixos. Mas uma razão mais importante e que terão relutância em assumir, é que ao minimizarem o registo das transferências bancárias podem estar a informalizar uma parte da sua atividade económica.

De acordo com o Banco Mundial, em 2018 o peso da economia informal em Portugal atingia os 22,6% do PIB. Este valor contrasta com os 9,2% da Áustria ou os 14,1% de França e, entre os fundadores da zona euro, só é ultrapassado pela Grécia e por Itália, próximas dos 26%. Note-se que, segundo um estudo do FMI, a dimensão da economia informal no PIB é menor em economias mais desenvolvidas, caracterizando-se nestas por práticas de evasão fiscal e trabalho não declarado.

A atividade informal, que assola o turismo português, mas não só, tem repercussão em dimensões mais sérias do que a de subdeclarar a atividade para efeitos de evasão fiscal.  Reflete-se no pagamento de salários baixos e/ou em contratos de trabalho precários, tendo impacto na incapacidade de encontrar mão de obra para fazer face às necessidades da atividade regular e, consequentemente, gerando baixa produtividade e má qualidade do serviço prestado. E está a contribuir já para dificuldades de contratação no sector do turismo português.

Como agravante, tem impactos negativos na atividade económica como um todo e cria um estigma em relação ao turismo, levando a rejeitá-lo como motor de crescimento sustentado, mesmo na situação presente, quando é reportado como o sector que permite evitar que a economia portuguesa entre em recessão.

E incentiva a demonização do turismo por uma parte crescente da sociedade portuguesa, à semelhança do que já acontece, em Itália ou mesmo em Espanha.

Não nos iludamos. A inversão deste estado de coisas só se fará com boas práticas por parte das empresas e profissionais do sector. Compete à regulação criar as regras e os incentivos adequados para que isto possa acontecer. Quiçá um passo importante seja incentivar a utilização generalizada dos meios de pagamento eletrónicos.

Recomendadas

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

As pessoas não podem ficar para trás na nova era

Milhões de euros de investimentos e centenas de megawatts. Ao escrever e ler sobre o mundo da energia, é normal que os grandes números sejam abordados, tal a dimensão dos projetos.

A ilusão, do faz de conta que faz

As eleições autárquicas realizaram-se exatamente há um ano atras, e no primeiro ano de muitos autarcas eleitos e após as lutas eleitorais, veio um ano de calmia e aparente tranquilidade.
Comentários