Na sociedade pós-verdade, por onde anda a ética?

A viralidade alterou a forma como publicitamos os nossos conteúdos e/ou marcas e a forma como noticiamos, mas também suscitou mais dúvidas sobre a nossa capacidade de decidir se a informação e a sua fonte são, ou não, credíveis.

Quando o Intercept levantou recentemente a questão a vários gigantes da tecnologia de saber se venderiam ao governo informação dos seus utilizadores para possibilitar a criação de uma base de dados de muçulmanos, sete das principais empresas norte-americanas recusaram dar resposta, nomeadamente Google, Facebook, Apple, IBM (uma das primeiras a oferecer ajuda a Trump), Booz Allen Hamilton, SRA International, CGI. O Twitter foi o único que afirmou que não iria facultar essas informações. O facto de sete empresas se terem recusado a responder não significa que o fariam, mas também não prenuncia que estejam dispostas a assumir a sua responsabilidade para não discriminarem um cliente com base na religião ou cor da pele.

Face ao profundo impacto na sociedade causado pelas ferramentas criadas por estes engenheiros e designers, seria bom perceber por que tarda em instituir-se um verdadeiro código de ética no universo das redes sociais, em que são traçadas linhas vermelhas entre ganância corporativa, proteção de dados pessoais e autoritarismo governamental. Estas questões são colocadas há já algum tempo desde as revelações de Edward Snowden sobre programas de vigilância e espionagem mundiais.

O código deontológico existe nas Ordens de Engenheiros, mas será eficaz o suficiente para controlar os monstros que criam e escapam ao seu controlo? Mais recentemente, temos testemunhado algo bem mais insidioso. A viralidade alterou a forma como publicitamos os nossos conteúdos e/ou marcas e a forma como noticiamos, mas também sobre a nossa capacidade de decidir se a informação e a sua fonte são, ou não, credíveis.

Quando o Facebook foi atacado após a vitória de Donald Trump nas eleições pelo papel que a rede social desempenhou na propagação de notícias falsas publicadas por apoiantes de Trump, Zuckerberg viu-se pressionado a apresentar medidas de combate que possibilitem aos servidores do Facebook reconhecer que uma notícia é falsa. Esta é uma questão que se torna mais premente face a julgamentos e caças às bruxas que temos testemunhado nas redes sociais e que podem destruir as vidas de pessoas ou empresas.

Se uma das mais valias do Facebook é a possibilidade de analisar todos os conteúdos e permitir que os utilizadores sejam alvo de publicidade consoante os seus interesses e histórico, Zuckerberg não pode agora simplesmente lavar as mãos e afirmar que “identificar a verdade é complicado”. Para mais numa sociedade que, em 2016, ficou marcada pelas pós-verdades (post-truths) e em que os políticos já não são condenados pelas mentiras que semeiam, nem pela sua desonestidade. Recordo, a propósito, que ainda recentemente os EUA assistiram ao caso insólito de um homem que decidiu abrir fogo numa pizzaria em Washington, na sequência de uma teoria de conspiração (falsa) de que a pizzaria estaria envolvida numa suposta rede de pedofilia ligada a Hillary Clinton. Felizmente não houve vítimas.

Não pretendo demonizar as redes sociais. Trouxeram coisas maravilhosas às comunidades, mas estamos a chegar a um tempo em que o uso das redes está de tal forma entranhado nos nossos hábitos que seria um erro não questionar o trabalho dos gigantes de tecnologia só porque são empresas privadas quando, na verdade, têm desempenhado um papel crucial na criação de uma sociedade pós-verdade. Ainda mais numa altura em que a nossa ética e a falta dela continuará a ser constantemente testada de formas que eram impensáveis há anos perante a nova vaga de autoritarismo que se insurge no horizonte.

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