“Não deixar ninguém para trás”

No nosso país, felizmente, têm sido vários os planos e projetos, e ao nível multidisciplinar, que se têm empenhado de forma integrada para este combate, definindo mecanismos que incluem não só a prevenção e redução do desperdício alimentar, mas também a sua monitorização.

Este, é o lema da FAO, na mira dos seus objetivos de desenvolvimento sustentável para assegurar que até 2050 ninguém fique de fora na luta contra a fome mundial através da promoção da economia circular, do combate ao desperdício e da garantia da segurança alimentar, incorporando nesta última conceitos como a qualidade, a quantidade e o valor nutricional dos alimentos adequados às várias parcelas sociais. Para que ninguém fique para trás é imperativo que se aumente pelo menos em 40% a produção agrícola nas próximas décadas, sobretudo se se pensar na evolução demográfica. No entanto, o que se assiste é ao agravamento da falta de disponibilidade alimentar em quantidade e qualidade, decorrentes da pandemia, das alterações climáticas, da guerra Ucrânia-Rússia e demais tensões globais, resultando num panorama, no mínimo, preocupante, em que os alimentos não chegam a toda a gente inclusive por disrupções alimentares (lembremo-nos que com a guerra demo-nos conta de que não “temos” cereais!…).

Nos países em desenvolvimento cerca de oito biliões de pessoas passam fome e mais de três biliões não auferem de uma alimentação saudável. Enquanto isto, e em simultâneo, o desperdício alimentar é uma realidade humanamente indigna nos países mais desenvolvidos, tornando cada vez mais premente a necessidade de aposta na economia circular, na economia social solidária e também na literacia alimentar – sim, é importante a formação e educação dos consumidores para que estes saibam como é que os alimentos “comunicam” as suas propriedades e o seu tempo de vida útil por forma a que o desperdício alimentar seja “zero”, e que o consumo seja responsável. Ainda de acordo com a FAO, a nível mundial, um terço dos alimentos produzidos para consumo humano, são perdidos ou desperdiçados! Em Portugal, segundo estimativas divulgadas, o desperdício fixa-se em torno de 96,8 kg per capita.

Impõe-se, assim, quando a fome e má nutrição persistem entre nós, o acérrimo combate ao desperdício alimentar não só pelos organismos estatais, institucionais e empresariais, mas também por toda a população, o que constitui um dos maiores desafios do tempo em que vivemos de enormes custos socioeconómicos e ambientais. Sim, porque o desperdício alimentar em si mesmo é indissociável do agravamento das alterações climáticas face ao desperdício de recursos valiosos como a água e os solos ao longo da produção. E ante tanta perda e desperdício ainda não se consolidaram todas as medidas necessárias não só para o prevenir e combater, como para canalizar o excedente para a alimentação humana e combate à fome: “Investir em medidas para prevenir a perda e o desperdício alimentares também significa fazer investimentos em políticas para os menos favorecidos, pois promove sistemas alimentares sustentáveis para um mundo de fome zero.“ (director-geral da FAO, 2017).

No nosso país, felizmente, têm sido vários os planos e projetos, e ao nível multidisciplinar, que se têm empenhado de forma integrada para este combate, definindo mecanismos que incluem não só a prevenção e redução do desperdício alimentar, mas também a sua monitorização.

Já dizia alguém que onde se carrega o fardo da fome, discursos sobre a liberdade e democracia soam a falso, até porque “quem tem fome não tem escolha”. O sofrimento provocado pela fome não é imaginável porque quem não a sente…

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