“Não há fronteiras que resistam a grandes desesperos”

Numa viagem pela realidade portuguesa, sem deixar de olhar para o mundo e para a Europa em particular, D. Clemente fala de perdas que a todos lesam.

Os refugiados são um problema e a Europa tem responsabilidade sobre o que se passa em outros continentes, afirma D. Manuel Clemente. Em entrevista, o Cardeal Patriarca diz que a parábola do bom samaritano está mais atualizada do que nunca e ainda que “não há fronteiras que resistam ao desespero”.

Como convive a sociedade com o Evangelho nos tempos modernos?
O Evangelho fermenta nas sociedades há dois milénios, faltando ainda muito para levedar toda a massa… Entretanto, parábolas como a do “bom samaritano” foram entrando na mentalidade geral e ocasionam boas práticas de muita gente, entre nós e por esse mundo além.

A sociedade portuguesa continua fortemente desigual. Como se poderá aproximar? O que se pode fazer em prol do “empenhamento solidário”?
As desigualdades têm de se ser ultrapassadas, sobretudo quando impedem que todos tenham a mesma possibilidade de realização na vida. Lesam quem as sofre e lesam a sociedade em geral, que perde o melhor para o seu futuro.

Uma das grandes doenças civilizacionais é a solidão. Pode a meditação e a solidariedade ajudar a ultrapassar o problema?
A solidão é consequência do desacompanhamento mútuo em que tantos andamos. Perde quem está só e perdemos nós, pelo que não ganhamos na convivência, que é a substância da vida.

A questão da vida versus eutanásia está dentro do conceito de solidariedade?
O acompanhamento mútuo é tarefa para toda a vida, incluindo a última fase dela neste mundo. É também neste sentido que nos devemos tornar numa “sociedade paliativa”, isto é que envolva e proteja cada pessoa, seja em que circunstância for. Se assim não for, perderemos todos em humanidade.

Este ano contamos no nosso trabalho editorial a história do Centro Social 6 de Maio e quando recuamos pensamos nos refugiados de há 40 anos. E hoje fala-se muito de refugiados que veem dos países em conflito. A solidariedade europeia está a funcionar?
Se se desaloja alguém é para alojar noutro lado melhor e não na rua. A habitação é o lugar da pessoa e da família, condição prioritária da vida social.

Na Europa passou a ser recorrente o tema da segurança. Como se podem aproximar os povos perante as desconfianças mútuas que grupos isolados estão a impor nas sociedades?
A Europa tem responsabilidades em relação ao que se passa noutros continentes. Tanto para ajudar a resolver as coisas lá, como para acolher cá os refugiados de hoje. Milénios demonstram que não há fronteiras que resistam a grandes desesperos.

Fátima será visitada pelo Papa Francisco em 2017. O que é que vai significar para o país esta deslocação do Santo Padre?
A vinda do Papa Francisco a Fátima será um grande estímulo para compartilharmos sempre e mais as suas causas humanitárias. Há cem anos, Fátima foi uma grande esperança para uma nação em guerra (os soldados portugueses e suas famílias na I Guerra Mundial). Hoje, o Papa Francisco ativa mundialmente a esperança num mundo mais justo e solidário.

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