Galamba: “PSD entrou num processo de implosão do seu discurso e de total desorientação”

Porta-voz do PS para os assuntos económicos vê condições para que o acordo à esquerda dure até ao fim da legislatura. E acusa PSD de “estar transformado num partido de protesto” .

Passa um ano dos acordos à esquerda, que já se materializaram em dois orçamentos. Qual é o balanço?
Muito positivo. São dois orçamentos muito importantes porque desmentem os temores de muita gente à direita… E também à esquerda. Mostram a viabilidade do Governo e que o acordo funciona, que a esquerda tem capacidade de aprovar orçamentos que se traduzem numa mudança face ao rumo que estava a ser seguido e que muitos diziam ser a única possibilidade realista para o país. Conseguimos cumprir os nossos três compromissos: com os eleitores, com os parceiros à esquerda e com a Europa.

Quem tem “engolido mais sapos” nas negociações à esquerda?
São partidos que têm um programa, uma agenda e uma identidade próprias e que foram capazes de fazer uma interseção entre os quatro programas eleitorais. Não se trata de “engolir sapos”, mas de perguntar, a cada um dos partidos, se este acordo se traduz em algo que considerem positivo. Penso que a resposta que todos os partidos darão – o Partido Socialista (PS) certamente que sim – é que não estão a desvirtuar o programa e os compromissos com os portugueses.

Estão reunidas as condições para que esta solução chegue ao fim da legislatura?
Penso que estão. Pedro Nuno Santos [secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares] disse que “Portugal é uma ilha de estabilidade na Europa”. Não é que Portugal não enfrente riscos financeiros. Esta estabilidade tem muito mais a ver com normalidade política. Vemos, em muitos países, o crescimento dos extremos, a implosão dos sistemas políticos tradicionais, o desaparecimento do centro. Países que se tornam crescentemente disfuncionais ou onde o discurso extremista, sobretudo à direita, coloniza o centro. Portugal vive, nesse contexto, uma estranha normalidade. Conseguimos fazer aquilo que, neste momento, nenhum país europeu consegue, que é pegar em forças tradicionalmente fora do sistema e tidas por muitos como extremistas e trazê-las para a responsabilidade da governação.

Não há nenhum tema que pudesse pôr em risco este acordo?
O que poria em risco este acordo era, se em algum momento, os nossos compromissos europeus entrassem em contradição com os nossos compromissos à esquerda e com o nosso eleitorado.

Este acordo só pode morrer pela Europa?
Diria que sim. Mas assistimos a uma mudança da Comissão Europeia, que suavizou um pouco a sua posição. Fez bem, porque vivemos tempos demasiado perigosos para inflexibilidades sem nexo da União Europeia. O Governo português é uma experiência que deve ser valorizada e até acarinhada pela Europa. São poucos os países que conseguem esta paz social e integrar partidos tidos como antissistema numa lógica de responsabilidade. O principal problema, neste momento, é que parece, em muitos países, que a democracia é incompatível com o projeto europeu. Em Portugal estamos a fazer o oposto.

Não há risco de as sondagens, por valorizarem mais o PS, serem um motivo de tensão?
Diria que a esquerda, como um todo, tem ganho. Ou não tem perdido. Independentemente dos resultados das sondagens há ganhos políticos de medidas que foram implementadas e que são muito importantes. As sondagens nunca podem ser interpretadas quanto ao número em concreto. A esquerda tem ganho e tem-se consolidado como força maioritária no país e isso é importante para todos. Historicamente, quando o PS perde muito, a esquerda não ganha. É por isso que esta experiência é tão importante, porque podemos consolidar fortemente não só a posição do PS como partido maioritário no país, mas a do Bloco de Esquerda (BE), do Partido Comunista Português (PCP) e do Partido Os Verdes (PEV) como parceiros sólidos. É bom saber que, ao contrário do que aconteceu durante muitos anos, agora há uma possibilidade de negociação numa situação em que não há maioria absoluta. Quer esta experiência corra pelo melhor ou pelo pior, deixará marcas em todos os partidos pelo simples facto de ter ocorrido. Os partidos sentam-se à mesma mesa, conhecem-se, as pessoas confiam umas nas outras, trabalham todos os dias em conjunto. É uma experiência que fica e que não apagaremos.

Este acordo pode evoluir para coligações pré-eleitorais?
Acho difícil, porque os partidos têm identidades diferentes e plataformas políticas distintas. Não vejo nenhuma necessidade de acordos pré-eleitorais, seria violento para os partidos, estariam a sacrificar a sua autonomia e identidade.

E para a inclusão de ministros destes partidos no Governo?
Isso são negociações que só poderão ser avaliadas em circunstâncias concretas. Este é um governo do PS com apoio parlamentar do BE, PCP e PEV. Não há nada escrito nas estrelas que impeça um governo do PS com membros do Governo destes partidos. Simplesmente não ocorreu e não se pode fechar as portas a que aconteça no futuro.

No caso da CGD, o BE votou a favor de uma proposta da direita. Surpreendeu-vos?
Aí todos os partidos têm uma posição clara, excepto o PSD e o CDS. Temos uma posição diferente do BE e do PCP. Achamos que, independentemente do valor concreto dos salários da CGD, quem defende a Caixa como banco público tem de lhe dar condições para funcionar. A CGD tem de ter a capacidade de atrair e reter quadros qualificados e não estou a falar apenas da administração. Questões de desigualdades salariais não podem ser corrigidas à custa de uma única empresa. Se o nosso problema é limitar os salários da banca, limitar apenas os salários na CGD não faz nada. Só prejudica a Caixa porque terá mais dificuldades em concorrer com outros bancos. Se queremos controlar as grandes disparidades salariais do país, não há nada melhor do que a aposta no aumento do salário mínimo e nas qualificações. Depois, pensar também, não apenas para a CGD, se há ou não mecanismos de natureza fiscal para penalizar as empresas com grandes disparidades salariais ou empresas com vencimentos demasiado elevados. O PCP e o BE têm uma posição coerente porque defendem a limitação. O PSD e o CDS fazem-no por mero oportunismo. Não conheço, ao longo dos anos, qualquer preocupação desses partidos com questões de salários.

Nas relações com o PCP e o BE, a participação no euro e a renegociação da dívida são dois temas tabu?
Numa discussão teórica sobre o euro, diria que é uma moeda condenada ao fracasso. Mas nós existimos no euro e é no euro que temos que procurar soluções. A saída parece-me desastrosa por uma razão muito simples: entrámos no espaço económico europeu porque entendemos que, sozinhos, não seríamos viáveis. O nosso espaço natural é a Europa e é aí que, para o bem ou para o mal, teremos que saber resolver os nossos problemas. Não podemos ter estratégias escapistas. Quanto à dívida, entendemos que é uma questão europeia. Se a questão da dívida opõe, por definição, devedores e credores, o pior que pode acontecer a um país devedor é avançar isoladamente e alienar outros devedores. Quando a Grécia tentou renegociar sozinha a sua dívida, perdeu imediatamente a solidariedade de todos os outros países devedores que, na prática, se comportaram como credores. É importante reconhecer que este é um problema europeu, decorrente da crise financeira e da deficiente arquitetura institucional que não permite proteger os países e garantir que o mercado da dívida tem um funcionamento normal. Relativamente aos outros partidos, não há uma divergência na perceção do problema e das suas implicações. Mas reconhecemos que pagar quase oito mil milhões de euros de juros é um fardo enorme para o país.

De que forma veem a contestação que a direita tem feito ao Orçamento do Estado (OE) para 2017?
A direita apostou todas as fichas em vários planos B e já vai no plano H. Primeiro, Cavaco Silva não ia dar posse e o Governo nunca veria a luz do dia. Depois, os parceiros desentender-se-iam. Depois, o orçamento não seria aprovado. Depois não seria aprovado por Bruxelas… A oposição tem andado sempre numa espécie de crítica em movimento, vai sempre alterando o alvo e a certa altura vai perdendo o pé. Agora entrámos numa fase em que, queimados todos os planos da oposição, o PSD entrou num processo de implosão do seu discurso e de total desorientação. É um partido que diz uma coisa e o seu contrário e isso foi muito evidente no OE: era um orçamento que mantinha a austeridade, mas que dava tudo a todos, era um OE eleitoralista e recessivo, as pensões aumentavam demais e de menos. A certa altura, quando todas certezas da oposição se vão esboroando, o que resta é a desorientação. Esta tentativa desesperada de se agarrarem à CGD gerou a triste situação de um dos principais partidos políticos estar entregue ao mero terrorismo político e de estar transformado num partido de protesto, sem estratégia, sem fio condutor. Isto deve ser penoso para muita gente no PSD, mas também é negativo para o país. Portugal precisa de uma oposição que sabe o que quer e que seja responsável.

[Entrevista publicada na edição impressa de dia 9 de dezembro do Jornal Económico]

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