Nasce em Portugal primeira tese sobre o livro-objeto para a infância

Diana Martins investigou mais de 300 livros-objeto em português e concluiu que a literatura para os mais novos vive uma fase dourada, afirmando-se, por vezes, como “obra de arte” entre a concorrência feroz de suportes visuais e digitais. A tese foi dada à estampa pelo Centro de Investigação em Estudos da Criança do Instituto de Educação da Universidade do Minho, onde foi realizada, e está disponível na Amazon.

Diana Martins ganhou o gosto pelos livros mesmo antes de aprender a ler e a avó Rosa foi a principal responsável, com as suas canções e lengalengas. Diana adorava cantarolar com ela. Também adorava brincar debaixo da escada enquanto ouvia as histórias contadas pelo vizinho que vinha ajudar nos trabalhos mais pesados do quintal na altura da poda da vinha. Aí ficava horas a fio.
“O meu gosto pelos livros começou primeiro pelo ouvido, pela musicalidade das palavras, que depois vim a reviver mais tarde já depois da minha avó ter falecido, em textos poéticos como ‘Tudo ao Contrário’, da Luísa Ducla Soares, que desde que o li nunca mais me saiu da memória”, conta ao JE Universidades.

Filha única durante muito tempo, encontrou nos livros um modo especial de companhia. Na escola, a sorte brindou-a com duas professoras que faziam questão de trazer a leitura prazerosa para a sala de aula. Uma delas incentivava inclusivamente a escrita livre. “Encadernou, com papéis coloridos, ao gosto de cada aluno, uns caderninhos que ainda hoje guardo, onde íamos escrevendo os nossos poemas”, lembra. Além disso, os pais, sobretudo a mãe, valorizaram sempre o papel do livro na educação. Uma prioridade, apesar do esforço monetário.

Foi assim que na companhia dos livros Diana Martins chegou à Universidade, onde se licenciou em Design de Comunicação, fez o mestrado em Ilustração e agora o doutoramente em Estudos da Criança – ramo Literatura para a Infância, no Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho. Aos 32 anos é docente Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA) onde leciona as unidades curriculares de História da Ilustração e da Animação e Cor e Perceção Visual.

A tese e suas conclusões
Na Universidade do Minho nasce, assim, a primeira tese de doutoramento sobre o livro-brinquedo no país, como corolário de uma investigação que envolveu a análise de mais de 300 livros-objeto em português e a sua comparação com a realidade internacional.

O que concluiu? “A investigação levada a cabo tornou evidente que a materialidade do livro cumpre, hoje, um importante papel narrativo, contribuindo sinergicamente para reforçar a mensagem global da obra, pensada ‘a priori’ como um todo, convocando, deste modo, frequentemente leitores de diferentes idades. Mas também conclui que a valorização do grafismo e a seleção cuidada do suporte são fundamentais, porque cumprem um forte poder de sedução, quando se pensa ou se objetiva o fomento de uma ligação afetiva com o livro enquanto objeto, nos primeiros anos da criança, antes mesmo da entrada na escola”, diz ao JE Universidades.
Diana Martins explica que “a curiosidade, a liberdade e o prazer” são pilares essenciais no processo de formação de leitores. Também nos diz que uma parte significativa das obras potencia uma desformalização do processo tradicional de leitura. Isto — justifica — “torna o livro num objeto apetecível ao toque e à descoberta autónoma, feita ao ritmo e ao sabor da imaginação dos pré-leitores e dos leitores iniciais”.

Da sua investigação resulta claro que a oferta mais comum nas variadas tipologias de livros-objeto que não param de aparecer é a categoria dos livros-puzzle ou com peças destacadas, que aborda amiúde o faz-de-conta, os afazeres das profissões e as suas ferramentas como o brincar com a vacina e o martelo. Nos livros ‘mix-and-match’, muito frequentes, combinam-se rostos, olhos e bocas aleatoriamente, resultando daí figuras fictícias ou absurdas, por exemplo. Esta ludicidade sucede também nos livros com sons de animais e pequenas melodias ou nos tradicionais livros poético-líricos de rimas e trava-línguas.

“Há vários caminhos na leitura mas estes objetos visuais, sensoriamente sedutores, ajudam na mentalidade mágica dos mais novos e na sua apropriação mais palpável do ‘real’”, salienta.

Hoje, o segredo está sobretudo na parte física do livro e no design, que apresenta “similitudes com áreas como a embalagem, o teatro, a arquitetura” e aposta em “estratégias tipicamente não livrescas mas apetecíveis para certas idades”, como relevos e janelinhas que potenciam uma aproximação autónoma e descomprometida à leitura.

“Perante uma sociedade com imensa oferta cultural e os imperativos de renovação, criatividade e experiência, estes artefactos procuram ser provocadores”, explica a investigadora. Acrescenta que a sobrevivência do livro para a infância em geral, como alguns estudiosos e criadores têm afirmado, “passa por ser considerado objeto de culto ou obra de arte”. Aliás, o cariz comercial acentuado do produto-livro capta o adulto, que é o verdadeiro comprador e ativa no leitor uma exploração gráfica única, sustenta.

A escrita para os mais pequenos é um desafio “muito intenso”, um exercício verdadeiramente exigente no qual não quer aventurar-se. Diana prefere, para já, saborear a alegria de ver a tese de doutoramento editada pela Universidade do Minho e distribuída pela Amazon, o que acontece a partir deste mês. Chegou, assim, a hora de poder folhear o seu primeiro livro como autora e deixar levar-se pelo pensamento. “Sempre vi no livro um objeto que me permitia viver outras realidades, experienciar outras sensações”.

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