Nem as vacas voam, nem a economia avança

Esta decisão é um ataque ao mundo rural e aos produtores de carne e derivados, à economia nacional, e ineficaz quanto ao objectivo a que se propõe.

O Governo decidiu reduzir o número de bovinos para metade até 2050, com vista a diminuir a emissão de dióxido de carbono e gases equivalentes (CO2eq). A proposta integra o Roteiro para a Neutralidade Carbónica, apresentado em Lisboa e na Cimeira do Clima da ONU na Polónia (COP24) pelo ministro do Ambiente, João Matos Fernandes. Uma medida positiva? Errado. Por vários factores que não foram equacionados.

Vamos deixar de consumir carne? Não. O ministro responde a essa questão: a solução encontrada pelo Governo, “num quadro de maior liberalização mundial”, é passarmos a importar a carne, nomeadamente do Brasil e Argentina. Uma decisão positiva para os portugueses, segundo o ministro – “a carne de vaca vai chegar a Portugal a preços mais competitivos”. E como se reduz o gado? Com o fim dos subsídios, os produtores entram em falência, o número de vacas diminui.

Esta decisão é um ataque ao mundo rural e aos produtores de carne e derivados, à economia nacional e ineficaz quanto ao objectivo a que se propõe. Zonas importantes de produção de carne e produtos lácteos, como os Açores, vão ter a sua economia abalada de forma irremediável.

À partida os números de vários estudos são alarmantes e levam-nos a concordar com a medida, por cada quilo de bife produzido em sistema semi-intensivo no país são emitidos 27kg de CO2eq. Mas para tal muito se deve à ingestão da ração dada ao gado e aos fertilizantes nas pastagens, entre outros factores.

Um erro comum nesta linha de pensamento é não contabilizar o impacto das medidas de compensação para substituir o produto. Se removessem os animais da agricultura e da dieta dos EUA, um dos países que mais consome produtos animais, as emissões de gases de efeito de estufa seriam reduzidas apenas em 2,6%, devido à necessidade de substituir o estrume por fertilizantes sintéticos e à produção de produtos industriais com os naturais custos associados, para além do gado reciclar alimentos não comestíveis e subprodutos de processamento de fibras, convertendo-os em alimentos comestíveis para humanos e animais de estimação. Resumindo, o problema é apenas substituído por outro, não é solucionado.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, é possível reduzir em 30% o impacto ambiental da criação animal alterando a forma como se cria e alimenta os animais, na gestão do estrume e na redução da aplicação de fertilizantes sintéticos na produção ou acrescento da alga Asparagopsis taxiformis na ração, recorrendo a novas técnicas que poderão eventualmente reduzir a emissão de metano entre 80 e 99%.

Afinal, aniquilar o gado não tem o impacto que os ambientalistas e o ministro da Agricultura defendem. Infelizmente, num país que vai fechar o ano com 47 pré-avisos de greve de diversos e importantes sectores, o gado não faz greve.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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