Netanyahu na Europa: uma viagem para esquecer

Ao contrário do que parecia esperar, o primeiro-ministro israelita não encontrou na Europa ninguém que apoiasse o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. Centenas de pessoas participaram em manifestações de protesto, tanto em Paris como em Bruxelas.

Ronen Zvulun /Reuters

O pequeno périplo do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu pela Europa redundou num enorme fracasso diplomático, uma vez que, a acreditar nas notícias das várias agências internacionais, não conseguiu convencer ninguém a aceitar Jerusalém como a capital de Israel – e não como a capital conjunta de Israel e da Palestina, como consta do acordo das Nações Unidas amplamente aceite.

Netanyahu foi ontem recebido por uma assembleia de chefes da diplomacia dos países da União Europeia e, sendo essa uma distinção que há mais de vinte anos não era concedida a um primeiro-ministro israelita, sentiu-se confortável para afirmar que esperava que a maior parte dos países reconhecessem Jerusalém como a capital de Israel.

“Existe atualmente um esforço para avançar com uma nova proposta de paz por parte da administração dos EUA. Acho que devemos dar uma oportunidade à paz. Chegou o momento dos palestinianos reconhecerem o estado judaico e de reconhecerem que a capital se chama Jerusalém “, disse o primeiro-ministro israelita, numa conferência de imprensa, em Bruxelas, citado pela agência Euronews.

Nada feito: a União Europeia voltou a distanciar-se da posição norte-americana, insistindo que Jerusalém deve ser uma capital partilhada e alertando para a necessidade de envolver os europeus nas negociações. “Nenhuma iniciativa de paz, nenhuma tentativa de reiniciar as conversações de paz entre os israelitas e os palestinianos pode acontecer sem a intervenção dos EUA. Mas não haja ilusões por parte dos EUA de que uma iniciativa apenas liderada pela parte norte-americana possa ser bem-sucedida”, disse Federica Mogherini, chefe da diplomacia comunitária.

Devidamente corrosivo – como gosta de ser – o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, alinhou com Mogherini, como não podia deixar de ser, tendo afirmado ainda antes do encontro que “o Governo português ficará extremamente feliz no dia em que puder reconhecer Jerusalém como a capital do Estado de Israel, transferindo a sua representação diplomática em Israel de Telavive para Jerusalém, porque esse será o exato dia em que Portugal poderá reconhecer Jerusalém como capital do Estado da Palestina e transferir a sua representação diplomática na Palestina de Ramallah para Jerusalém Ocidental”.

A União Europeia denuncia regularmente a colonização dos territórios palestinianos, impõe medidas restritivas aos produtos provenientes dos colonatos e mantém-se como o principal fornecedor de fundos da Autoridade Palestiniana. A questão dos colonatos esteve, aliás, em cima da mesa no dia anterior, quando Netanyahu se encontrou com o presidente francês. Emmanuel Macron pediu ao primeiro-ministro israelita que se abstivesse de continuar a expandir os colonatos – tocando num dos pontos mais sensíveis das negociações para a paz e colocando-se desta forma do lado dos palestinianos.

Que se saiba, e apesar de Netanyahu ter dito na semana passada que estava à espera que um número muito significativo de países secundasse a decisão norte-americana de reconhecer Jerusalém como capital sionista, ainda ninguém o fez.

Entretanto, tanto nas ruas de Paris como nas de Bruxelas, o primeiro-ministro israelita tem sido alvo de manifestações de repúdio pelo reconhecimento de Jerusalém como capital única, com os grupos organizadores a exigirem a reversão da posição norte-americana.

Todo este ambiente é uma nota clara para Netanyahu perceber que as negociações para a paz sofreram um claro retrocesso com a decisão norte-americana e que Israel ficou ainda mais sozinho que o que já estava – depois de ter visto que nem sequer o Reino Unido, tradicional apoiante de Israel do lado de cá do oceano, aceitou reconhecer e alinhar com a posição de Donald Trump. Entretanto, um pouco por todo o Médio Oriente seguem os protestos mais ou menos violentos dos muçulmanos contra decisão.

Em Bruxelas, Simon Moutquin, um dos dirigentes da Associação Belgo-Palestiniana, resumiu com distinção, em dilatações à Eurnews, o sentimento da manifestação contra Netanyahu: “Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel como se a Bíblia pudesse ser usada como um registo imobiliário”.

 

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