No meio da discussão sobre o Brexit, há quem insista num segundo referendo

Num dia em que deu para perceber que o debate parlamentar não sai do mesmo registo nem por certo sairá nos próximos dias, os britânicos ficaram a saber que uma hipotética situação de transição pode eternizar-se.

David Miliband, ex-secretário das Relações Exteriores entre 2007 e 2010 com o primeiro-ministro Gordon Brown e juntamente com o irmão Ed um dos mais importantes ativos do Partido Trabalhista, pediu esta tarde que o governo organize um segundo referendo sobre o Brexit – num dia em que, na Câmara dos Comuns, aconteceu mais do mesmo.

“Acho que o movimento dentro do Partido Trabalhista é muito forte para afirmar que a saúde da democracia, bem como a saúde económica, depende de acertar na decisão. Ouço pessoas a dizerem que seria antidemocrático haver outro referendo – eu penso o contrário; na verdade, acho que o perigo agora é um acordo que não é bom nem para os que querem abandonar a União nem para os que querem ficar”.

Ontem, no meio do debate parlamentar, a primeira-ministra Theresa May disse que não faria um segundo referendo, mas que compreendia quem o quer – o que pode ter sido um incentivo a que o antigo dirigente trabalhista regressasse a um tema que muitos trabalhistas consideram tabu.

No Parlamento, o dia foi passado da mesma forma que ontem: em debates acalorados que os analistas concordam em afirmar que não levam a lado nenhum, dado que nenhum dos lados está disponível para se deixar convencer pelo argumentário dos adversários.

Parte do dia foi gasto a debater os documentos do governo que permaneceram secretos durante várias semanas, sendo que a nota mais saliente dali extraída resulta do facto de os papéis confirmarem que a questão das duas Irlandas é de tal ordem complexa que, se o Reino Unido ficar numa situação de transição à espera que se encontre uma solução com Bruxelas, arrisca-se a que essa transição se eternize.

O tema já não é novo: muitos analistas – entre os quais o embaixador Francisco Seixas da Costa em declarações ao Jornal Económico – afirmaram que não vislumbravam qualquer hipótese de resolver o problema a contento de todos. Confirma-se: para já, ainda ninguém conseguiu encontrar uma solução. A não ser aquela que preconiza a repetição do referendo e o voltar atrás do Reino Unido.

Sobre essa matéria, Theresa May disse hoje que pouco lhe importa que o Tribunal de Justiça da União Europeia considere que o Reino Unido pode reverter a saída unilateralmente. Já o tinha dito antes – mas hoje a primeira-ministra queixou-se de que o tema não é senão uma pressão da União Europeia para que o governo britânico tome essa opção. Por si, Theresa May assegurou que não o fará.

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