Noção de mercados emergentes na banca está morta, diz Mckinsey. Ásia concentra crescimento

Os bancos na Ásia-Pacífico podem ganhar com uma perspectiva macroeconómica mais forte, enquanto que os bancos europeus enfrentam uma perspectiva mais sombria. “No caso de uma longa recessão, estimamos que a rendibilidade dos bancos a nível mundial possa cair para 7% até 2026 e para baixo dos 6% nos bancos europeus”, diz a Mckinsey.

A Mckinsey publicou o seu mais recente relatório sobre a banca global onde faz uma revisão do sector no atual ano de 2022. Muitas das conclusões estão relacionadas com o impacto da conjuntura económica e geopolítica.

“Os bancos na Ásia-Pacífico podem ganhar com uma perspectiva macroeconómica mais forte, enquanto que os bancos europeus enfrentam uma perspectiva mais sombria” está entre as várias conclusões. O estudo revela também que os recentes aumentos de margem financeira proporcionaram retornos superiores ao custo do capital próprio para apenas 35% dos bancos a nível mundial.

A muito citada frase sobre como “há décadas em que nada acontece, e semanas em que décadas acontecem” tem sido atribuída a uma série de fontes. Começa assim o relatório Global Banking Annual Review, da Mckinsey, para resumir a indústria bancária global nos acontecimentos de 2022.

“Uma década de previsibilidade bastante enfadonha foi subitamente anulada, uma vez que a inflação fez um retorno galopante, as taxas de juro dispararam, e a volatilidade tornou-se a palavra de ordem nos mercados que vão desde ações e obrigações às criptomoedas e aos bens imobiliários chineses”, refere a análise.

No relatório que faz a Revisão Anual da Banca Global deste ano, intitulada Banking on a sustainable path [banca num caminho sustentável], a Mckinsey analisa o que mudou na banca em resultado dos choques provocados pelo retorno da instabilidade geopolítica, juntamente com os persistentes efeitos perturbadores a longo prazo da pandemia da Covid-19.

“O quadro está longe de ser bonito, pois enquanto as receitas e as margens subiram devido a taxas de juro mais elevadas, mais de metade dos bancos do mundo negoceiam abaixo do valor contabilístico. De facto, os bancos estão em último lugar numa comparação das avaliações de mercado de diferentes setores da indústria, impulsionado pelas suas margens de lucro fracas e baixas expectativas de crescimento”, diz a consultora que ressalva que “a revisão anual não é apenas um conto de pesar”.

“Mesmo no meio das más perspectivas para a banca global como um todo, existem alguns pontos muito positivos, nomeadamente um desempenho superior na Índia e em outros mercados de rápido crescimento, bem como em certos grupos de bancos em economias avançadas, incluindo Estados Unidos e Canadá”, defende a Mckinsey.

“Bancos precisam de trabalhar mais para se protegerem do futuro”

A principal mensagem da Mckinsey no relatório é que “os bancos em todo o lado precisam de trabalhar mais para se protegerem do futuro, melhorando a sua resiliência a curto prazo e abraçando oportunidades a mais longo prazo para crescerem e se tornarem mais rentáveis”.

Uma dessas oportunidades, diz a consultora, é o financiamento sustentável, um novo tema em expansão para a banca.

“O financiamento sustentável está a entrar numa próxima era, uma vez que a vaga inicial de financiamento para energias renováveis dá lugar a um envolvimento mais profundo com os clientes bancários em todos os sectores”, diz.

As finanças sustentáveis cresceram rapidamente de quase nada há cinco anos para se tornarem um tema principal para os bancos. O estudo revela que a emissão de obrigações sustentáveis representa agora cerca de 11% do volume total do mercado obrigacionista, enquanto os empréstimos sindicalizados relacionados com a sustentabilidade representam cerca de 13% do volume global do mercado de empréstimos sindicalizados.

“Embora a Europa tenha liderado historicamente a emissão de instrumentos de dívida sustentáveis – emitindo mais de 80% dos empréstimos sindicados sustentáveis, incluindo empréstimos indexados à sustentabilidade, em 2018 – tem sido desde então ultrapassada pelos emitentes norte-americanos”, destaca o relatório.

As principais conclusões da análise bancária global para 2022, diz que os bancos recuperaram da pandemia com um forte crescimento das receitas provenientes de margens e rácios de capital mais elevados. Os lucros dos bancos atingiram um pico de 14 anos em 2022, com uma rentabilidade dos capitais próprios (ROE) entre 11,5% e 12,5%.

As receitas cresceram globalmente em 345 mil milhões de dólares, impulsionadas por um forte aumento das margens líquidas, à medida que as taxas de juro subiam após anos de compressão dos seus limites mínimos. Por agora, a banca a nível mundial está confortavelmente situada em rácios de capital de nível 1 entre 14% e 15%, e muitos segmentos da banca – incluindo retalhista, grossista, e gestão de fortunas – beneficiaram disso, segundo a análise.

A Mckinsey lembra que, “apesar destas melhorias a curto prazo, o ROE permanece fraco, muito abaixo de onde estava antes da crise financeira de 2008”.

“Enquanto metade dos bancos mundiais em 2022 continua a ter um ROE superior ao custo do capital próprio, a nossa análise sugere que os recentes aumentos de margem proporcionaram retornos superiores ao custo do capital próprio para apenas 35% dos bancos a nível mundial”, alerta a consultora.

“Fortes variações regionais no desempenho dos bancos estão subjacentes a este quadro global. Os bancos em alguns países, incluindo muitos bancos regionais nos EUA, os maiores bancos no Canadá, e os bancos na Indonésia, México e Índia, estão a registar um crescimento rápido e uma rentabilidade crescente, enquanto outros, incluindo na Europa e na China estão a assistir a acentuadas descidas. Um efeito notável desta divergência é que toda a noção de mercados emergentes (na banca) está morta, porque o grupo de países a que este termo se refere já não é monolítico, alguns dos bancos com melhor desempenho e de maior crescimento encontram-se na Ásia, tal como alguns dos de pior desempenho e de menor crescimento”, conclui.

À medida que a economia abranda, a clivagem entre os bancos vai-se alargando ainda mais

O aumento da rentabilidade a partir de margens mais elevadas pode revelar-se transitório e todos os bancos enfrentam um abrandamento do crescimento a longo prazo, aponta a análise.

Os bancos na Ásia-Pacífico podem ganhar com uma perspectiva macroeconómica mais forte, enquanto que os bancos europeus enfrentam uma perspectiva mais sombria. “No caso de uma longa recessão, estimamos que a rendibilidade dos bancos a nível mundial possa cair para 7% até 2026 e para baixo dos 6% nos bancos europeus”, diz a Mckinsey.

A consultora espera “uma maior concentração do crescimento na Ásia Emergente, China, América Latina, e o Estados Unidos da América”.

“Esperamos que estas regiões representem cerca de 80% do crescimento estimado de 1,3 biliões de dólares em receitas bancárias globais entre 2021 e 2025”, diz a análise.

“A banca como sector é valorizada substancialmente abaixo de outras indústrias, realça a Mckinsey que detalha que a capitalização total do mercado global atingiu um pico em 2021 de 16 biliões de dólares e caiu para 14,5 biliões de dólares até maio de 2022. Os bancos tradicionais são responsáveis por metade desta avaliação, enquanto sociedades financeiras especializadas e fintechs representam a outra metade  mais 30% do que há cinco anos”, refere.

“Cerca de metade da diferença de avaliação com os outros sectores é impulsionada pelo baixa rentabilidade da indústria bancária. A outra metade provém da falta de crescimento futuro, demonstrado pelo baixo price-to-earnings ratio de cerca de 13, em comparação com uma média de 20 nos outros sectores. Hoje em dia, apenas um em cada seis bancos qualifica-se como aquilo a que chamamos ‘North Stars’ -instituições com alta rentabilidade e crescimento elevado”, defende a consultora.

“Os bancos agora têm a oportunidade de tomar medidas ousadas para criar resiliência de curto prazo e estabelecer as bases para o crescimento de longo prazo. A otimização de balanços das posições de custo e capital ajudará os bancos nesses tempos voláteis, e será mais importante do que nunca construir práticas excecionais de gestão de risco e infraestruturas tecnológicas que possam resistir a ataques cibernéticos”, refere a análise.

A Mckinsey diz que a longo prazo, os bancos de modelos de negócios tradicionais, em particular, “precisarão fazer a transição para plataformas mais preparadas para o futuro, nas quais diferentes unidades de negócios, como serviços bancários diários e financiamentos complexos ou serviços de consultoria, serão dissociadas” e também precisarão de adotar as novas tendências, como os investimentos ambientais, sociais e de governance (ESG), além de ofertas bancárias e análises avançadas.

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