Nordeste do Brasil e África Ocidental

Nestas duas semanas, enquanto o nosso país entrava em processo de catarse judicialmente incentivada, tive a feliz oportunidade de me escapar para o estrangeiro. A recente participação na Conferência de 2014 da Investe Nordeste permitiu-me confirmar muito do que referi, em entrevista recente ao Jornal OJE, acerca dos erros cometidos no processo de investimento português […]

Nestas duas semanas, enquanto o nosso país entrava em processo de catarse judicialmente incentivada, tive a feliz oportunidade de me escapar para o estrangeiro.
A recente participação na Conferência de 2014 da Investe Nordeste permitiu-me confirmar muito do que referi, em entrevista recente ao Jornal OJE, acerca dos erros cometidos no processo de investimento português no Brasil, nomeadamente a necessidade de uma melhor preparação prévia, de estudo dos mercados alvo e de evitar a dispersão e o excesso de confiança, sendo fundamental ter uma noção clara do que são as reais possibilidades dos investidores, mesmo que, para tal, seja necessário contemplar custos mais elevados e prazos de retorno mais alargados.
No entanto, a possibilidade apresentada pela Investe Nordeste 2014 para a recolha de informação e a análise efetuada sobre o potencial de negócios na região do nordeste, aliado ao conhecimento de muitos importantes stakeholders da região, permitiram desenvolver uma perceção de que o Nordeste (nove Estados com mais de 50 milhões de habitantes), por uma questão de escala e de competitividade, constitui um Brasil ideal para os investimentos portugueses e até para investimentos lusófonos.
A localização geográfica de proximidade em relação a Portugal e à Europa, bem como a África Ocidental e Angola, dos principais polos económicos nordestinos, aliados às enormes infraestruturas portuárias e aeroportuárias, às condições naturais e à já muito bem-sucedida implantação da comunidade portuguesa empresarial, contribuirão, certamente, para que a região se torne no destino prioritário dos principais investimentos de Portugal e de alguns dos países lusófonos.
Por exemplo o reforço das ligações aéreas entre Lisboa e o Porto e as principais cidades nordestinas e o estabelecimento de uma ligação preferencial entre o Porto de Suape e o de Sines (e outros) permitirão criar a ponte, para o transporte de pessoas e mercadorias, mais rápida entre os dois continentes. E esta situação pode facilmente ser extrapolada para os aeroportos e portos angolanos potenciando o triângulo virtuoso da lusofonia económica no Atlântico.
Seria conveniente que as autoridades públicas portuguesas olhassem para esta região com a devida atenção no sentido de reforçarem e expandirem os seus instrumentos de ação, nomeadamente a rede consular e a estrutura da AICEP, e que tivessem particular atenção à rede informal de bem-sucedidos empresários portugueses com um profundo conhecimento dos processos de investimento na região.
Em Dakar, onde atualmente me encontro, a convite do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) para fazer uma palestra sobre cooperação transfronteiriça no combate ao terrorismo a um grupo alargado de magistrados, polícias e militares dos países da África Ocidental e do Sahel, tenho tido a possibilidade de revisitar assuntos aos quais dediquei grande parte da minha vida profissional.
A África Ocidental e o Sahel são hoje as regiões de origem das maiores e mais sérias ameaças à segurança dos países da Europa ocidental, onde Portugal se insere. Do terrorismo e extremismo de inspiração islâmica, ao tráfico de droga e do tráfico de pessoas ao de armas, passando pelos fluxos de emigração ilegal, estas regiões colocam desafios sérios à segurança interna e externa dos países europeus, em geral, e de Portugal, em particular.
Não se refere o interesse estratégico português na região, consubstanciado na existência de dois países da lusofonia e outros com os quais tem laços históricos únicos, mas apenas o impacto securitário direto.
Lamenta-se o quase total desinvestimento securitário preventivo do nosso país nestas regiões, justificado parcialmente pela importância sedutora de outras regiões mais orientais do mundo, hoje tão em voga no nosso panorama mediático-judicial. No fundo uma verdadeira opção entre segurança e interesse, no qual o último triunfou.
Esta excelente iniciativa da UNODC, numa área fundamental que é a da capacitação das autoridades locais, e a recetividade e interesse dos participantes pelo nosso país, são indicadores de que Portugal poderia ter um papel, securitário mas também económico, relevante na região.

Jorge Silva Carvalho
Consultor especialista em inteligência competitiva e estratégia

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