Uma nova linha vermelha para a dívida portuguesa

Reuniões dos bancos centrais estão a sair caras às taxas de obrigações nacionais. Níveis perto de 4% são vistos com preocupação, apesar dos bons sinais da economia.

Lembra-se dos 7% de Fernando Teixeira dos Santos? No outono de 2010 a situação era grave e o então ministro das Finanças desenhou o limite – se a taxa das obrigações portuguesas a 10 anos no mercado secundário ultrapassasse esse marco, o país teria de recorrer a um resgate.

Hoje, o contexto não é tão dramático – a economia está a crescer e o Tesouro vai acabar o ano com uma ‘almofada’ de liquidez que representa perto de 9% do PIB. No entanto, os factores externos estão especialmente imprevisíveis.

A ‘yield’ das obrigações portuguesas a 10 anos disparou 23 pontos base a 8 de dezembro, dia no qual o Banco Central Europeu (BCE) estendeu o programa de compras de activos até final de 2017, mas também anunciou um corte no volume mensal.

Essa taxa – o retorno que os investidores exigem para deter a dívida – estava ontem perto dos 3,80%, longe do mínimo deste ano de 2,52%, e tem vindo a desde agosto.

O último alerta foi dado pela presidente do Conselho de Finanças Públicas. No início da semana, Teodora Cardoso explicou que os juros da dívida estão muito baixos devido à política do BCE , mas avisou que “isto vai mudar… e porque a política americana vai mudar”.

Dois dias depois, a mudança na estratégia norte-americana confirmou-se. A Reserva Federal subia as taxas de juros em 0,25 pontos percentuais e acelerou a previsão de novos aumentos em 2017 de dois para três, levando a uma nova subida das ‘yields’.

“Esse cenário (de um ritmo de subidas mais agressivas nos EUA) acaba por contagiar as ‘yields’ globais, e as europeias não são excepção”, disse Marisa Cabrita, gestora de ativos da Orey Financial. “Os países periféricos, incluindo Portugal, dado o maior prémio de risco, acabam por poder sentir um efeito mais pronunciado”.

Extremamente difícil?
Para Teodora Cardoso uma taxa de 5% já seria “extremamente difícil” de aguentar, “sobretudo porque implica uma restrição cada vez maior em termos orçamentais”.

Em outubro a agência canadiana DBRS, autêntica ‘salva-vidas’ da dívida portuguesa, pois é a única que tem a notação em grau de investimento, afirmou que estaria confortável com Portugal a taxas de 3,5% ou 4%.

David Schnautz, director de estratégia de taxas no Commerzbank em Londres, também aponta para o topo desse espectro como preocupante.

“A negociação em dezembro pode ser ‘estranha’, mas se as ‘yields’ portuguesas estiverem perto de 4% após 9 de janeiro, o primeiro dia da primeira semana completa de negociação, cada vez mais observadores vão ficar preocupados sobre Portugal, dado o forte programa de emissão no próximo ano, que é de 18 mil milhões de euros, dos quais 16 mil milhões em obrigações,” referiu.

Explicou que isso “poderá limitar a flexibilidade que o Tesouro poderá ter para ‘esperar e ver’ (nas emissões) até obter as melhores taxas”.

Em declarações escritas ao Jornal Económico, Adriana Alvarado, analista da DBRS para Portugal, salientou que as maturidades relativamente longas da dívida portuguesa “significam que o impacto de subidas nas taxas nos pagamentos efectivos de juros aos investidores seria apenas gradual, estando o foco na situação orçamental e no crescimento económico”.

Também gradual deverá ser o declínio da posição de liquidez do Tesouro, prevê outra agência de notação, a Standard&Poor’s. “Além disso, o perfil da dívida pública portuguesa melhorou de forma significativa nos últimos anos,” disse Marko Mrsnik, director sénior da agência, ao Jornal Económico, adiantando que o custo médio da dívida que ainda está por amortizar caiu mais este ano, para cerca de 3,4%, afastando-se da zona de perigo dos 4%.

Até quando?
A extensão do programa de compras do BCE deverá continuar a suportar a dívida portuguesa, mas alguns analistas questionam até quando.

“A certa altura, pode ser no final do verão, os mercados poderão começar a incorporar um ‘taper’ (ou abrandar, do programa), e isso poderá pressionar os preços das obrigações,” disse Michael O’Sullivan, chief investment officer do Credit Suisse, num documento sobre perspetivas para 2017. “Esse abrandar poderá levar o mercado a ter mais em conta o risco país nos preços das obrigações”.

Salientou que “Espanha, por exemplo, poderá ter um prémio de risco menor do que o de Itália, como recompensa por ter um melhor perfil de crescimento e um sector bancário mais saudável, enquanto Portugal poderá tomar o lugar da Grécia como o novo foco de receios para os investidores devidos aos constragimentos orçamentais”.

[Notícia publicada na ediçaõ de 16 dezembro do Jornal Económico]

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