O Camarate de João Quadros

Chamaram-me há dias a atenção para uma crónica do humorista João Quadros, no “Jornal de Negócios”, na qual o autor fazia humor com a Comissão Parlamentar de Inquérito de Camarate que vai já na décima edição. Passados 34 anos sobre os factos o humorista fez o que lhe competia, ou seja, brincou com o caso […]

Chamaram-me há dias a atenção para uma crónica do humorista João Quadros, no “Jornal de Negócios”, na qual o autor fazia humor com a Comissão Parlamentar de Inquérito de Camarate que vai já na décima edição. Passados 34 anos sobre os factos o humorista fez o que lhe competia, ou seja, brincou com o caso demonstrando enfado pelo incontável número de comissões, os muitos anos passados, e ridicularizou os trabalhos sérios de deputados e familiares das vítimas que, ainda hoje, insistem em descobrir o que se passou realmente no dia 4 de dezembro de 1980. A queda de um avião Cessna matou o primeiro-ministro de Portugal, Sá Carneiro, o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa e respetivas mulheres, Snu e Manuela. E ainda vitimou o chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia e os dois pilotos, Jorge Albuquerque e Alfredo Sousa. Diga-se de passagem que Manuela Amaro da Costa estava grávida, o que representa mais uma vítima. E esta nunca terá um nome. A crónica de João Quadros terminava com um apelo ao arquivamento do caso. Compreende-se. O humorista achou que valia a pena fazer humor com a morte de um chefe de governo do seu país e concluir que não quer ser mais incomodado com discussões estéreis sobre o que terá levado a esse destino trágico. Afinal, a própria Justiça já lhe fez a vontade porque, mesmo sem humor – mas com algumas palavras dignas do mais puro surrealismo -, há muito que mandou arquivar o caso. Segundo sei, João Quadros nasceu em 1964, pelo que está naquela franja geracional que tinha 10 anos quando se deu o 25 de Abril. E seis anos mais tarde, numa altura em que ainda não tinha alcançado a idade legal para votar, aconteceu Camarate. Representa Quadros toda uma opinião de muitos que há 34 anos eram adolescentes, crianças ou nem sequer tinham nascido. Isso é uma realidade a ter em conta. Estão saturados, cansados de contar comissões e de missas do dia 4 de dezembro. Da exploração dos nomes das vítimas. Eu tinha 8 anos aquando da morte do primeiro-ministro do meu país. Era demasiado novo para perceber o alcance do mundo onde então vivia. Mas hoje, graças ao trabalho das comissões e de alguns nomes dentro dela, sei que foi possível vencer mentiras que, entretanto, se instalaram na sociedade portuguesa. Mentiras que, apesar de muita luta dentro dos trabalhos das comissões, persistem em manter-se na mente dos portugueses e a conduzir ao cansaço aqui personificado no caso do humorista. Muitas pessoas acreditam ainda hoje que nunca houve atentado porque Sá Carneiro embarcou à última hora no avião Cessna, prescindindo das reservas no voo da TAP. O trabalho das comissões demonstrou que isso é mentira: desde o dia 1 de dezembro, três dias antes da tragédia, Sá Carneiro estava previsto para ir ao comício extra no Porto, viagem que deveria ser feita em avião privado. As reservas da TAP existiam apenas para caso de haver mau tempo – era dezembro – e o avião privado não ser autorizado a descolar. Cai por terra, literalmente, o argumento de que não haveria tempo para preparar um atentado contra o líder da AD, sobretudo quando há muitos meses se preparava uma campanha eleitoral onde era previsível que o primeiro-ministro usasse aviões privados de pequeno porte. Aliás, a bem do rigor dos factos, havia ainda um segundo avião Cessna, idêntico ao sinistrado – mas em melhor estado -, parqueado ao lado do aparelho que viria a cair e que tinha voado da cidade Invicta nessa manhã com o propósito de levar o primeiro-ministro ao comício no Coliseu do Porto e trazê-lo de volta a Lisboa nessa mesma noite. Era o avião da empresa RAR. Pilotado pelo pai de um amigo meu. O avião do Porto foi dispensado após uma alegada combinação entre Sá Carneiro e Amaro da Costa durante uma reunião na manhã desse dia 4 de dezembro. Não sei se João Quadros sabe quem foi a última testemunha desse encontro entre os dois governantes que iriam ser vítimas de uma bomba – foi demonstrada a evidência dessa bomba em 2004, na conclusão da 8.ª comissão. Mas, eu ajudo o humorista: na última reunião de trabalho dos governantes vítimas de Camarate esteve presente o ministro das Finanças. Este era uma pessoa que, tal como o ministro da Defesa, tinha ordens do primeiro-ministro para investigar um saco azul nas mãos dos militares. Uma investigação que preocupava os nossos aliados norte-americanos, especialmente a CIA, que então enfrentava uma operação secreta de venda de armas para o Irão. E o número 2 da CIA era um velho conhecido de Portugal. Tratava-se do ex-embaixador dos EUA em Lisboa, Frank Carlucci. Quem era o ministro das Finanças em 1980? Essa é uma pergunta que deixo a João Quadros e outros que acham que não vale hoje a pena saber o que se passou em Camarate. Talvez quando souberem o nome desse ministro deixem de contar piadas aos filhos quando, ao passarem no Areeiro, comentem a estátua a Sá Carneiro.

Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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